Duplicata escritural: 50% dos fornecedores nunca ouviram falar do novo modelo
50% dos fornecedores nunca ouviram falar em duplicata escritural

Às vésperas das primeiras operações oficiais em ambiente controlado, a duplicata escritural ainda ocupa posição secundária na lista de prioridades de boa parte das empresas. A criação do novo balcão promete alavancar um instrumento que movimenta cerca de R$ 10 trilhões por ano, segundo estimativas da indústria, e exerce função central no mercado de antecipação de recebíveis.

Desconhecimento generalizado entre fornecedores

Uma pesquisa conduzida pela fintech Monkey revela que metade dos fornecedores consultados nunca ouviu falar em duplicata escritural, e apenas 15,4% afirmam conhecer bem o assunto. Mesmo entre os cientes da ferramenta, a maioria desconhece os prazos regulatórios. Mais de 70% dos entrevistados não conseguem visualizar como a digitalização mudará a prática.

A Monkey opera como plataforma que conecta mais de 40 mil fornecedores (emissores da duplicata) com sacados (devedores) e mais de 100 instituições financeiras (que viabilizam a antecipação). A diretora de novos negócios da Monkey, Roberta Ferraz, observa que a adaptação tem sido mais rápida entre grandes empresas. “Quando a gente fala de pequenas e médias, o quadro é um pouco diferente, porque muitas delas nem sabem o que é a duplicata escritural”, comenta.

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Adoção em fases e cronograma do BC

O cronograma escalonado estabelecido pelo Banco Central mitiga o senso de urgência. Na semana passada, a autoridade promoveu evento em Brasília para marcar o lançamento do novo ecossistema. As três registradoras aptas a atuar como escrituradoras (B3, Núclea e Cerc) ainda aguardam aval final para iniciar a produção assistida, previsto para julho. SPC Grafeno e Quick Soft estão em fase de testes e devem avançar no segundo semestre.

Na produção assistida, um grupo seleto de clientes fará os primeiros negócios em ambiente controlado. A adoção obrigatória será escalonada a partir de meados de 2027: grandes empresas primeiro, depois médias e, por fim, pequenas, com término previsto para 2028.

Cronograma da duplicata escritural

  • Julho/2026 – Início da produção assistida
  • Dezembro/2026 – Término da produção assistida
  • Junho/2027 – Obrigatoriedade para grandes empresas
  • Dezembro/2027 – Obrigatoriedade para médias empresas
  • Junho/2028 – Obrigatoriedade para pequenas empresas

Fonte: Banco Central. Os prazos podem sofrer alterações.

A adesão inicial será voluntária e limitada. As poucas corporações prontas devem realizar operações simples. “As empresas não estão preparadas agora, à exceção de alguns clientes com operações pontuais”, afirma a superintendente de Duplicata Escritural da B3, Roberta Fortunato.

Lições dos recebíveis de cartão de crédito

A implementação gradual foi decisão deliberada do BC para evitar erros da regulamentação de recebíveis de cartões em 2021, quando os sistemas entraram em operação de uma só vez e enfrentaram lentidão e falhas de interoperabilidade. O mercado de duplicatas tem volume muito maior de participantes, incluindo empresas de múltiplos portes. “Vai ser muito mais difícil escalar o modelo, porque envolve mais empresas com diferentes formas de trabalho”, diz Izaias Miguel, CEO da V360, especializada em automação de contas a pagar.

Gargalos nos sistemas e prazos

A V360 estima que 70% dos títulos gerados em fluxos de antecipação de recebíveis da plataforma atendem aos critérios para duplicatas escriturais, representando 75% do volume transacionado anualmente, estimado em R$ 600 bilhões. No entanto, cerca de 10% dos títulos apresentam erros cadastrais, como cálculo equivocado de impostos ou CNPJ divergente.

Em média, as empresas levam 22 dias para validar uma nota e lançá-la como título no contas a pagar. Pelo regime escritural, os compradores terão apenas 10 dias para aceitar ou rejeitar a duplicata; se não houver manifestação, a duplicata será considerada aceita. “Esse é um dos principais gargalos, porque o pagador demora muito para validar a nota fiscal”, alerta Miguel.

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