Um sistema inovador de monitoramento de velocidade em rodovias federais está expondo um comportamento preocupante dos motoristas brasileiros. Dados recentes revelam que o excesso de velocidade é a infração mais comum e uma das mais perigosas, com mais de 800 multas registradas por hora em todo o país. Contudo, a fiscalização tradicional, baseada em radares pontuais, pode estar subestimando a gravidade do problema.
Monitoramento por trecho: uma nova perspectiva
Na BR-050, próximo a Uberaba, em Minas Gerais, a concessionária Ecovias implementou um projeto-piloto que monitora a velocidade média dos veículos entre dois radares distantes 11 km. A análise revelou um dado alarmante: enquanto 1,5 mil motoristas foram flagrados acima do limite em um dos radares no primeiro semestre de 2026, o número de infrações por velocidade média no trecho foi 66 vezes maior. Isso indica que muitos condutores freiam diante do equipamento, mas aceleram imediatamente após passar por ele.
“Então, o projeto consistiu em monitorar a velocidade do usuário em toda aquela extensão e não apenas a velocidade no momento do radar”, explica Matheus Fernandes, diretor-superintendente da Ecovias.
Legislação defasada e projeto de lei
Atualmente, o Código Brasileiro de Trânsito não prevê multas por velocidade média. A infração só pode ser autuada no instante em que o veículo passa pelo radar. Essa lacuna legal tem motivado discussões na Câmara dos Deputados, onde tramita um projeto de lei para regulamentar a prática. Enquanto isso, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) atua apenas com ações educativas, que já mostraram resultados positivos: em quatro anos, o trecho monitorado registrou zero mortes e uma redução de 50% nos acidentes.
“A gente entende que esse projeto tem mais eficiência quando a gente alia ele aos pontos críticos. Então, pegar de fato um trecho onde tem mais números de acidentes, para que a velocidade seja controlada e, a partir disso, a gente tenha a redução específica naquele ponto”, afirma Fernandes.
Expansão do sistema e preocupação noturna
A concessionária já instalou radares de velocidade média em um trecho de 9 km da Ponte Rio-Niterói, um dos principais acessos ao Rio de Janeiro. A maior preocupação é o período noturno, quando as vias ficam mais livres e muitos motoristas aumentam a velocidade, elevando a gravidade dos acidentes. Somente no primeiro semestre, o número de vítimas à noite foi três vezes maior que durante o dia.
Até o fim de 2026, a expectativa é expandir o monitoramento para trechos perigosos em vários estados, utilizando o mesmo sistema de cálculo de velocidade média.
Especialistas defendem rigor na lei
O especialista em trânsito Rodolfo Rizzotto, coordenador do SOS Estradas, defende uma legislação mais severa para coibir a prática. “A maioria das pessoas respeita a lei. Então, ou nós aplicamos a lei com o máximo rigor, beneficiando a maioria, ou então a gente atua sempre beneficiando a minoria infratora, que coloca vidas em risco. É uma escolha da sociedade”, alerta.
Com a iminente aprovação do projeto de lei, a tendência é que o monitoramento por velocidade média se torne uma ferramenta crucial para reduzir acidentes e salvar vidas nas estradas brasileiras.



