Por décadas, identificar uma linha de ônibus no Rio era questão de contar três dígitos — ou quatro, no caso dos modelos frescões, de tarifa mais alta. Nos últimos anos, porém, a Secretaria municipal de Transportes (SMTR) passou a incrementar o letreiro com letras. Hoje, um terço das 433 linhas cadastradas na cidade tem siglas ao lado dos números. A mudança faz parte de uma reorganização do sistema, mas exige do passageiro um novo aprendizado.
LECD: a sigla das linhas experimentais
O acrônimo mais recente é LECD, de Linha Experimental de Coleta de Dados. A prefeitura usa a nomenclatura para identificar, no sistema e nos validadores do Jaé, linhas recém-criadas ou que tiveram o trajeto alterado. Cada uma passa por um período de testes de 180 dias, renováveis por igual período, durante o qual são colhidas informações sobre a demanda. Se aprovada, a nova linha recebe a numeração convencional de três dígitos.
No fim do ano passado, por exemplo, foi criada a LECD 129 (Central—Alvorada, via Túnel Santa Bárbara) para suprir a 309, que também ligava os dois terminais. A linha antiga foi retirada do mapa em janeiro deste ano, quando a operadora Real Auto Ônibus foi lacrada pela prefeitura. “Eu mesmo já puxei fila de 40 passageiros, que estavam esperando o 309, para cá”, conta o despachante da então LECD 129. “De início, o pessoal ficou confuso, mas agora já entendeu.” Hoje, a linha é a 319, com a variante SV 319, que faz parte do trajeto pela Praia do Flamengo.
Na região de Vila Isabel, as LECDs 150 (Grajaú—Siqueira Campos), 154 (Grajaú—Leblon) e 155 (Grajaú—Gamboa) nasceram para substituir, respectivamente, as linhas 433, 439 e 222. A sigla também aparece quando o trajeto de uma linha existente é encurtado ou esticado. Foi o que ocorreu em junho com a 435, que virou LECD 151 (Grajaú—Antero de Quental) e deixou de ir até a Gávea. Segundo a SMTR, o objetivo é avaliar se a mudança torna a linha mais ágil, com intervalos menores, ao livrá-la do engarrafamento entre o Leblon e a Gávea — trecho que, na avaliação da pasta, já tem cobertura de outros serviços. “No primeiro dia foi muito ruim essa sopa de letras, pois os passageiros estavam esperando o 435, que nunca passava”, lembra a atendente de farmácia Sandra Gomes, que também reclama dos intervalos: “Depois das 22h, só vai passar outro lá para 22h40.”
SE, SP, SR e SN: serviços que mudam o percurso
A sigla SE (serviço excepcional) é reservada para alterações pontuais de trajeto. Foram exemplos recentes as mudanças no réveillon e no show de Shakira, quando linhas do Centro foram esticadas até Copacabana para atender o público. Nessa encarnação momentânea, o 232 (Lins—Castelo) circulou como SE 232 (Lins—Copacabana).
Já os antigos “expressos” hoje são SR (serviço rápido). Na Avenida Brasil, essa modalidade segue pela pista seletiva, enquanto as linhas comuns avançam pela pista lateral, como a SR 397 (Candelária—Campo Grande). Há ainda o SP (serviço parcial), usado quando o trajeto original não é percorrido por completo: a 918 (Bangu—Bonsucesso) tem a SP 918 (Bangu—Deodoro), e a 265 (Marechal Hermes—Castelo) tem a SP 265 (Marechal Hermes—Gentileza). Também são SP as linhas que, na ida para o trabalho, saem de pontos de alta demanda, como a SP da 343 (Jardim Oceânico—Candelária) com saída de Rio das Pedras pela manhã.
O SN (serviço noturno) roda no fim da noite e de madrugada, com rotas alteradas. No Centro, as linhas SN são esticadas até a Lapa; na Ilha do Governador, vão até o Galeão.
SV: quando a variante precisa de letra
A sigla SV (serviço variante) indica que aquele ônibus tem uma pequena mudança no trajeto original. Um exemplo é a 606 (Engenho de Dentro—Gentileza), que percorre toda a Rua Dias da Cruz, no Méier. Seu SV deixa essa via em determinado trecho para atender os moradores do Lins. Em alguns casos, a prefeitura determina a adoção da sigla para evitar que o passageiro erre o coletivo, como aconteceu neste ano com a 483 (General Osório—Penha): a variante via Parque União passou a circular como SV 483.
Se a linha tiver mais de uma variante, o alfabeto entra em ação. A 665 (Saens Peña—Pavuna) tem SVA, via Parque Colúmbia, e SVB, via Costa Barros. Uma variante também pode se transformar em linha definitiva. No ano passado, a SV 779 — que se diferenciava da 779 (Madureira—Pavuna) ao percorrer a Rua Marina, em Bento Ribeiro — foi rebatizada como 780. Isso costuma ocorrer quando o trajeto se diferencia muito da linha principal ou quando a oferta de ônibus é grande demais e pode confundir o usuário.
TRO, INT e o futuro da numeração
No início dos anos 2010, linhas com versões via Autoestrada Grajaú-Jacarepaguá e via Linha Amarela receberam numerações diferentes. À época, ficou definido que ônibus entre o Centro e a então Zona Sudoeste teriam números iniciados em “3”. Um dos casos foi a 268 (Candelária—Riocentro), que deu origem às linhas 348 (via Linha Amarela) e 368 (via autoestrada).
Nesse mesmo período surgiram as linhas Troncal (TRO) e Integrada (INT), ligando a Zona Sul ao Centro e à Zona Sudoeste, respectivamente. A nomenclatura, porém, vem caindo em desuso. Há cerca de três anos, a SMTR determinou que esses serviços exibissem também o número de três dígitos cadastrado no sistema, depois de perceber que aplicativos usados por passageiros buscavam as linhas pelo número, não pela sigla. Assim, a TRO 7 (Central—Cosme Velho) passou a mostrar 117 no visor, e a INT 8 (Recreio—Rio Sul), 553. A TRO 9, que passou um tempo sem rodar, voltou como 109 (São Conrado—Gentileza).
Já a TRO 1 (Central—General Osório) virou 100, mas muitos ônibus ainda exibem a antiga numeração 125. “É a antiga 125. Trocou para 100, e o pessoal sabe que vem para o Centro, tanto que esses ônibus só andam cheios”, comenta o motorista Alan Fernandes. Segundo a SMTR, a empresa será oficiada a alternar apenas entre TRO1 e 100, sem menção ao número antigo. As siglas TRO e INT ainda devem ser usadas por mais alguns anos; depois, aos poucos, serão substituídas definitivamente pelo número de três dígitos — ou por alguma nova receita ainda a ser inventada.
Glossário das siglas
- LECD: Linha Experimental de Coleta de Dados, para linhas novas ou com trajeto alterado.
- SE: Serviço Excepcional, para alterações pontuais de percurso.
- SN: Serviço Noturno, com rotas alteradas de madrugada.
- SP: Serviço Parcial, quando o ônibus percorre só parte do trajeto.
- SR: Serviço Rápido, o antigo “expresso”.
- SV: Serviço Variante, quando há pequena mudança no trajeto.
- TRO e INT: Troncal e Integrada, ligações da Zona Sul ao Centro e à Zona Sudoeste, respectivamente.



