Nova regulamentação exige que empresas identifiquem e gerenciem riscos psicossociais no trabalho de motoristas
Empresas brasileiras, incluindo transportadoras, agora são obrigadas a identificar e gerenciar os fatores do ambiente de trabalho que afetam a saúde mental dos motoristas. A exigência faz parte da atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), já em vigor, que ampliou o conceito de segurança ocupacional para incluir os chamados riscos psicossociais — pressão excessiva, jornadas desgastantes, sobrecarga emocional e falta de suporte organizacional. O descumprimento pode resultar em multas que, nos casos mais graves, ultrapassam R$ 100 mil.
A mudança impacta o setor, onde estresse, ansiedade e esgotamento emocional já são preocupações frequentes entre os profissionais das estradas. Em 2025, o Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos por problemas de saúde mental, recorde histórico e alta de 15% em relação ao ano anterior, segundo o Ministério da Previdência Social. No transporte rodoviário, especialistas afirmam que a situação é especialmente grave: longas jornadas longe da família, pressão por prazos, falta de infraestrutura para descanso e insegurança nas estradas formam um ambiente propício ao adoecimento.
Rotina nas estradas favorece o adoecimento
Levantamento citado pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) mostra que 56% dos caminhoneiros permanecem entre 9 e 16 horas por dia ao volante, e quase um quarto da categoria ultrapassa 13 horas diárias. Além disso, a pesquisa também aponta que 43,7% dos caminhoneiros trabalham sem carga horária definida, cenário que contribui para a sobrecarga física e emocional da categoria.
Segundo a psicóloga Michelle Engers Taube, pesquisadora da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), jornadas superiores a 12 horas triplicam o risco de desenvolvimento de transtornos mentais comuns, como ansiedade, depressão e estresse.
Burnout: quando o estresse vira doença
O esgotamento crônico que se desenvolve nessas condições tem nome: síndrome de burnout. Caracterizada por exaustão emocional intensa, distanciamento afetivo do trabalho e sensação de ineficácia profissional, a síndrome é reconhecida pelo Ministério da Saúde como doença ocupacional desde 1999.
Pesquisadores da Universidade do Oeste de Santa Catarina (UNOESC) aplicaram o Inventário de Burnout de Maslach — instrumento padrão internacional para diagnóstico da síndrome — em motoristas do transporte de saúde, categoria que compartilha com os caminhoneiros as jornadas excessivas e a pressão constante por desempenho. O resultado foi alarmante: 93% dos profissionais avaliados apresentaram a síndrome. Embora o estudo tenha amostra reduzida e não possa ser extrapolado diretamente para os caminhoneiros, os pesquisadores concluem que a manifestação ocorre porque “a profissão causa intenso estresse e exposição a fatores nocivos”, condições presentes em outras categorias de motoristas profissionais, incluindo caminhoneiros.
Para as empresas, o custo de ignorar esse quadro é alto. Segundo a Organização Mundial da Saúde, cada dólar investido em saúde mental no trabalho retorna quatro dólares em produtividade. O raciocínio inverso também vale: dados de mercado indicam que o presenteísmo — quando o trabalhador está presente mas produz abaixo da capacidade por problemas de saúde — custa em média três vezes mais do que o afastamento em si, justamente porque não aparece em nenhum relatório. Prevenir o adoecimento, portanto, é financeiramente mais eficiente do que tratar suas consequências.
Saúde mental também afeta a segurança viária
O problema não se limita ao bem-estar dos profissionais. Quadros de ansiedade, depressão, fadiga e privação de sono também aumentam o risco de acidentes nas estradas, alertam especialistas ouvidos pela Agência Brasil.
Outro dado que preocupa é o uso de substâncias estimulantes para prolongar o tempo de direção. Segundo levantamento do MPT, quase 27% dos motoristas testados utilizam anfetaminas — conhecidas no jargão rodoviário como “rebites” — para permanecer acordados durante jornadas prolongadas.
Para Alcides Trentin Junior, psiquiatra da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet), profissionais do transporte precisam de acompanhamento periódico devido ao alto nível de atenção exigido pela atividade. Segundo ele, transtornos mentais podem comprometer diretamente a capacidade de condução dos veículos.
O que muda para as transportadoras
Com a atualização da NR-1, as empresas passam a ter de identificar, registrar e monitorar riscos psicossociais dentro do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR).
Na prática, isso significa mapear situações capazes de afetar a saúde mental dos trabalhadores, registrar esses fatores nos inventários de risco, elaborar planos de ação e implementar medidas preventivas. Entre os aspectos observados pelos auditores fiscais estão jornadas extensas, excesso de demandas, metas abusivas, assédio, falta de autonomia, falhas de comunicação e ambientes de trabalho considerados hostis.
O Ministério do Trabalho e Emprego ressalta que a análise não tem como objetivo diagnosticar doenças individuais, mas verificar se a organização do trabalho apresenta fatores que possam provocar adoecimento coletivo.
Fiscalização e o que muda na prática
A NR-1 entrou em vigor em 26 de maio. Segundo orientações do Ministério do Trabalho, os primeiros 90 dias de fiscalização terão caráter predominantemente educativo. Nesse período, os auditores verificarão se as empresas já iniciaram processos de avaliação dos riscos psicossociais e demonstram esforço para se adequar às novas exigências.
As inspeções poderão ocorrer a partir de denúncias, indicadores de adoecimento, histórico de acidentes e análises setoriais. Após essa fase inicial, empresas que descumprirem as exigências poderão ser autuadas. As multas variam conforme a gravidade da infração, o número de trabalhadores expostos e a reincidência, podendo ultrapassar R$ 100 mil nos casos mais graves.
Desafio se soma à falta de motoristas
A nova obrigação surge em um momento em que o transporte rodoviário enfrenta dificuldades para atrair e reter profissionais. Pesquisa da NTC&Logística divulgada neste ano mostrou que 88% das transportadoras têm dificuldade para contratar caminhoneiros. A idade média dos profissionais ativos já chega a 46 anos, enquanto o interesse dos jovens pela profissão diminui.
Para especialistas, melhorar as condições de trabalho e reduzir os fatores que levam ao adoecimento mental pode ajudar a enfrentar a escassez de mão de obra no setor — e colocar a saúde mental no centro de uma discussão que envolve produtividade, retenção de profissionais e segurança nas estradas.



