Entregadores no Rio: até 18 horas por dia para sustentar a família
Entregadores no Rio: rotina de até 18 horas por dia

Marcos de Jesus, de 33 anos, conhecido como MC Chefinho da Nova, é um dos milhares de motociclistas que dependem das entregas por aplicativo para sustentar a família no Rio. "Descanso é sentado na moto. O descanso é esse. Tenho 2 filhos, tenho que ir pro 'corre'", resume. Para aumentar a renda, ele chega a trabalhar entre 16 e 18 horas por dia — e, em alguns casos, até mais.

Rotina que começa antes do sol nascer

O segundo episódio da série especial do RJ2 sobre o avanço das motos no Rio mostra como o crescimento dos aplicativos de entrega transformou a cidade. A expansão criou nova fonte de renda para milhares de trabalhadores, mas também elevou o número de motocicletas nas ruas e, com ele, a insegurança no trânsito. A frota de motos cresceu 65% no Rio em dez anos, mudando a mobilidade urbana.

Chefinho entrou nesse mercado durante a pandemia, em 2020. Com a população isolada em casa, as entregas explodiram, assim como o contingente de entregadores. "Vi como uma rota de escape para sustentar minha família e tentar melhorar minha vida." Hoje, ele trabalha em um ponto de apoio em Botafogo, na zona sul da cidade.

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O pagamento é por entrega. O valor mínimo é de R$ 8, e as gorjetas ajudam a complementar a renda. Em meses melhores, ele afirma conseguir ganhar entre R$ 6 mil e R$ 8 mil, mas ressalta que o faturamento oscila e depende diretamente das horas trabalhadas.

Mulheres também enfrentam jornadas exaustivas

Dávila Heloisa Alves, de 23 anos, trabalha exclusivamente para uma plataforma de entregas e percorre uma área que vai da Barra da Tijuca a Jacarepaguá. "Moto faz parte de mim", diz. Além da liberdade de organizar a própria rotina, ela encontrou nos aplicativos uma forma de ganhar dinheiro — mas a jornada é marcada por dificuldades.

Durante um único dia de trabalho, Dávila relata que teve o uso do banheiro negado por estabelecimentos. Ela reclama da falta de empatia com quem passa o dia nas ruas. "Água, comida e banheiro não se negam a ninguém. Ainda mais sendo mulher. Imagina você precisar trocar um absorvente e tomar vários nãos na cara?"

Setor já representa 2% da força de trabalho

O economista Daniel Duque, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), afirma que esse tipo de ocupação se consolidou nos grandes centros urbanos na última década. O setor já representa cerca de 2% da força de trabalho no país, chegando a até 5% em algumas cidades. O crescimento acompanha a expansão dos aplicativos e a mudança de hábitos dos consumidores, que passaram a pedir cada vez mais produtos para entrega em casa.

Reivindicações e desrespeito às leis

Ao mesmo tempo em que ampliou oportunidades de trabalho, o modelo trouxe novos desafios. Sem jornada definida, muitos entregadores passam o dia inteiro conectados aos aplicativos para aumentar o faturamento. Associações da categoria reivindicam reajustes na remuneração, mais transparência na distribuição das corridas e melhores condições de trabalho.

A busca por mais entregas também ajuda a explicar um cenário cada vez mais comum nas ruas. Para ganhar tempo, muitos motociclistas desrespeitam regras de trânsito, aumentando a sensação de insegurança entre motoristas, ciclistas e pedestres. O RJ2 fez flagrantes de "bandalhas" e conversou com a população. "É bem caótico. Aumentou bastante de um tempo pra cá, e eu acho que eles não respeitam as leis de trânsito, tanto para os motoristas quanto para pedestres", diz a farmacêutica Rebeca Catanhede.

Economia do bico e a falta de proteção

Para Daniel Duque, o fenômeno faz parte da chamada gig economy, ou "economia do bico", em que a demanda é intermediada por plataformas digitais. Os trabalhadores têm flexibilidade, mas pouca previsibilidade sobre a renda e praticamente nenhuma proteção trabalhista. "Ela não oferece uma estabilidade em relação ao futuro de um, dois anos pra frente. Então, você acaba maximizando o seu trabalho, o que dá pra fazer enquanto você pode. E aí elas acabam indo para esse tipo de trabalho para poder maximizar o quanto elas trabalham, porque no trabalho regular isso é muito menos permitido, muito mais regulado", explica o pesquisador.

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Enquanto roda pela cidade atrás da próxima corrida, Chefinho já pensa no futuro. "Vivo um dia após o outro para ter uma casa própria. Minha meta é viver tranquilo."