Vídeo mostra delegado e agentes presos na PB com suspeito de tráfico
Vídeo mostra delegado e agentes presos na PB com suspeito

Um vídeo de circuito de câmeras de segurança, utilizado na investigação que resultou na prisão do delegado da Polícia Civil da Paraíba, Braz Morroni, e dos agentes Everton Aires e Eduardo Jorge, mostra o grupo entrando em uma residência no Conde, na Grande João Pessoa, acompanhados de um suspeito de tráfico de drogas. A TV Cabo Branco teve acesso ao material da denúncia nesta sexta-feira (19).

As defesas de Braz Morroni, de Everton Aires, conhecido como 'Bomba', e de Eduardo Jorge, conhecido como 'Mão Branca', informaram que ainda não tiveram acesso à denúncia. Já a defesa do suspeito de tráfico apelidado de 'Galinha' não foi localizada até o momento.

Nas imagens, os agentes Bomba e Mão Branca chegam à residência e entram, seguidos pelo suspeito Galinha, que usa uma touca preta. Em seguida, o delegado Braz Morroni é visto entrando na casa vestindo uma camisa laranja. Cerca de 15 minutos depois, os quatro e mais um homem de camiseta azul, não identificado pela TV Cabo Branco, saem do imóvel e partem em uma caminhonete branca.

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Denúncia e investigação

De acordo com a denúncia, os policiais foram até a casa no Conde alegando ter recebido uma denúncia anônima sobre tráfico de drogas. No local, teriam intimidado uma mulher grávida, questionando sobre entorpecentes na residência. Os agentes também teriam ido à casa da avó da mulher. A vítima afirmou que um dos policiais tinha um relacionamento com uma vizinha com quem ela possuía um desentendimento, incluindo um processo judicial por um vídeo íntimo vazado, o que, segundo a investigação, levantou suspeitas sobre a motivação da ação policial.

Quando a Polícia Civil acessou as câmeras de segurança do local, identificou, além dos policiais e do delegado, o suspeito Galinha, apontado como informante do esquema criminoso. Em um dos áudios obtidos, Bomba comentou: 'Por causa de uma ******** que denunciou o cara, que o cara entrou na casa dela (...). E ela filmando. Eu disse “eu quero ver a filmagem, eu quero ver se sou eu que estou comendo essa ********”'.

Investigação de mais de um ano

O secretário de Segurança Pública da Paraíba, Jean Nunes, afirmou que a investigação durou mais de um ano e envolveu a análise de mais de 40 mil áudios. 'Mais de um ano de investigação, mais de 40 mil áudios analisados pela Polícia Civil e Gaeco. A gente está combatendo a chegada do Comando Vermelho no nosso estado e agentes de segurança pública associados com traficantes alimentam essa facção para que possam retornar as drogas para as ruas. É uma gravidade importante de considerar', disse.

A investigação também cumpriu mandados contra outros cinco suspeitos de integrar uma facção criminosa. Segundo a Polícia Civil, as apurações começaram em fevereiro de 2025, após a denúncia de um traficante que relatou desvio de drogas apreendidas por agentes da corporação. Ao longo do processo, os investigadores reuniram indícios de que o esquema movimentou cerca de R$ 10 milhões em vendas ao longo de quatro anos. Dos nove mandados de prisão expedidos pela Justiça, oito foram cumpridos na operação Perfídus.

Quem é quem no esquema

Braz Morroni - delegado

Braz Morroni era delegado da Delegacia de Crimes Contra o Patrimônio (DCCPAT). No documento judicial, ele é descrito como tendo participação ativa no esquema, não apenas tolerando as ações dos subordinados, mas sendo beneficiário direto dos lucros com a venda de drogas desviadas. A investigação sustenta que ele recebia repasses de dinheiro das negociações, cobrava rapidez na recuperação de valores de drogas vendidas a prazo e usava sua posição para oferecer proteção institucional ao grupo. A decisão cita transferências financeiras de Everton Aires para contas ligadas ao delegado e conversas que indicavam reserva de lucros para ele. Em dezembro de 2025, ele teria ido pessoalmente à delegacia receber sua parte. O juiz determinou prisão temporária, afastamento do cargo, bloqueio de bens e suspensão do porte de armas. Em audiência de custódia, a prisão foi mantida, e ele foi encaminhado ao Presídio Especial do Valentina, em João Pessoa.

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Everton Rychelyson da Silva Aires - operador do grupo

Everton, conhecido como 'Bomba', é apontado como o principal operador do grupo criminoso. Segundo a decisão judicial, ele seria o elo entre policiais e traficantes, responsável por guardar drogas desviadas, negociar carregamentos de cocaína e skunk, organizar a contabilidade clandestina, orientar sobre lavagem de dinheiro e atuar em esquemas paralelos de importação irregular e venda de anabolizantes. O documento menciona movimentações financeiras incompatíveis com sua renda e transações com suspeitos de tráfico. A prisão temporária foi mantida em audiência de custódia, e ele foi levado ao Presídio Especial do Valentina.

Eduardo Jorge Ferreira - agente da Polícia Civil

Eduardo Jorge, conhecido como 'Mão Branca', é apontado como participante direto das subtrações de drogas, monitoramento de carregamentos de facções, manipulação de rastreadores em veículos e armazenamento de entorpecentes em sua residência. O documento destaca movimentações financeiras milionárias, relações comerciais suspeitas e ocultação patrimonial por meio de empresas e terceiros. A prisão temporária foi mantida, e ele foi encaminhado ao Presídio Especial do Valentina.

João Wicttor Alves de Lima, Brendo Roberth e Paulo Ricardo

João Wicttor, conhecido como 'Vitor', é apontado como responsável por armazenar, refinar e comercializar drogas fornecidas pelos policiais, além de fazer transferências financeiras. Brendo Roberth, o 'Breno', seria subordinado de João Wicttor, atuando na guarda, refino e distribuição de entorpecentes. Paulo Ricardo, o 'Galinha', é informante dos policiais e distribuidor de drogas, fornecendo informações sobre depósitos de facções rivais em troca de parte das cargas desviadas e participando da movimentação financeira do grupo.

José Alexandrino de Lira Júnior - chefe de distribuição

Conhecido como 'Júnior Lira', ele é descrito como líder da distribuição de grandes carregamentos de drogas no Sertão da Paraíba e no Rio Grande do Norte, financiando remessas interestaduais e mantendo relações diretas com Everton.

Vanessa Dantas Fernandes - tesoureira

Esposa de Júnior Lira, Vanessa é apontada como tesoureira do esquema no sertão paraibano, disponibilizando contas para receber, fracionar e pulverizar recursos do tráfico, enviando valores aos policiais. A investigação aponta que ela realizava depósitos fracionados em dinheiro em lotéricas e terminais, seguidos de saques sistemáticos para blindagem patrimonial.

Dankennedy Vieira - integrante de facção

Dankennedy, conhecido como 'Babau', é integrante da facção Nova Okaida. Ele teria sido vítima do desvio de drogas e divulgou imagens nas redes sociais que deram origem às investigações. Foi o único alvo de mandado de prisão que não foi preso.

Outros suspeitos

Três outras pessoas, sem mandados de prisão preventiva, foram citadas por relações financeiras suspeitas: Diego Ernesto Pereira Barros (ex-policial militar), Fabiano de Matos Farias (o 'Galego') e Jobson Rodrigo da Silva. Eles foram alvo de mandados de busca e apreensão. Fabiano está preso por outros crimes. O ex-policial militar foi preso em flagrante por obstrução de Justiça e posse ilegal de arma, mas liberado após audiência de custódia. A defesa dele classificou a prisão como 'excessiva' e 'desproporcional'.

A defesa do delegado Braz Morroni destacou 'o direito constitucional à presunção de inocência' e afirmou que 'irá analisar os autos visando a adoção das medidas pertinentes para restaurar a liberdade do delegado' e que 'no momento oportuno, irá provar sua inocência'. O g1 não localizou a defesa dos outros citados.

Como funcionava o esquema

Segundo as investigações, a organização criminosa contava com agentes públicos que usavam a estrutura do Estado para favorecer atividades criminosas, incluindo o desvio de drogas para revenda. Traficantes informavam aos policiais a localização de drogas armazenadas por outros grupos; os agentes faziam a apreensão e repassavam aos criminosos que forneceram as informações. O delegado Rafael Bianchi detalhou: 'Traficantes de confiança dos policiais informavam onde havia essa droga armazenada. Os policiais iam até o local, realizavam a subtração e repassavam essa droga para esses traficantes de confiança, que são todos da mesma organização criminosa'. O delegado André Rabello acrescentou que drogas que seriam incineradas também foram desviadas. Além dos nove mandados de prisão, foram cumpridos 24 mandados de busca e apreensão, e a Justiça determinou o bloqueio de cerca de R$ 10 milhões dos investigados.

Quem é o delegado preso

Braz Morroni de Paiva Júnior tem mais de 20 anos de atuação na Polícia Civil. Foi nomeado delegado em 12 de agosto de 2004, após concurso público. Atuou nas delegacias de Cuité, Itabaiana, na 4ª delegacia distrital de Campina Grande e como plantonista na Segunda Delegacia Regional. Em 2017, começou a atuar na Delegacia de Repressão a Entorpecentes e, em 2019, assumiu a DCCPAT.