Áudios mostram agente da Polícia Civil antecipando operações para facção na PB
Áudios: agente antecipava operações para facção na PB

Áudios obtidos durante a investigação que resultou na prisão do delegado Braz Morroni, dos agentes Everton Aires e Eduardo Jorge, todos da Polícia Civil da Paraíba, indicam que informações sigilosas sobre operações policiais eram repassadas a integrantes de uma facção criminosa. Em uma das gravações, o investigador Everton, conhecido como 'Bomba', conversa com João Wicttor Alves de Lima, o 'Vitor', apontado pela Justiça como responsável por armazenar, refinar e vender drogas fornecidas pelos policiais, além de fazer transferências financeiras para o esquema.

No áudio, Everton menciona que uma operação estava prestes a ocorrer e que uma pessoa chamada 'Breno' seria alvo. Ele pede que Vitor avise Breno. A operação seria realizada pela Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE). 'Agora tu fala o seguinte, Vitor, tu fala com o Breno, aí tu diz, conversou comigo e que os meninos da DRE entraram em contato comigo querendo saber onde era a casa da (nome inaudível). Tá entendendo? Pra se ele tiver algum flagroso em casa, alguma coisa, se livrar, ou se for receber alguma coisa, não receber, tão de olho nele', diz ele.

Em outro áudio, Everton comenta com um interlocutor não identificado sobre o resultado de uma operação, afirmando que 'os abestalhados da DRE' prenderam Breno, a quem ele havia orientado a se livrar de provas. 'Falei com ele, aqueles abestalhados da DRE, prenderam o Breno. Eu digo "agora, dê um jeito de tirar". Aí, vão fazer só um TCO (Termo Circunstanciado de Ocorrência) lá e tirar ele. Ô povo leso', disse.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Em uma terceira gravação, o investigador, apontado como principal suspeito de executar o desvio de drogas após operações e a revenda ilegal, fala sobre a Força Integrada de Combate ao Crime Organizado na Paraíba (FICCO), que tem como alvo Breno. 'Hoje teve uma operação da FICCO, a FICCO é a delegacia que Breno é um dos alvos, aí eu tô perguntando se ele já deu notícia de vida hoje, que ele pode ter sido alvo na operação e a gente não sabe. Pra esse abestralhado se ligar, sempre ligado, pra nem ter flagrante em casa e na porra do celular', afirma.

Ao Fantástico, o advogado de 'Bomba' disse que o devido processo legal foi instaurado e que o policial nega as acusações.

Investigação

O secretário de Segurança Pública da Paraíba, Jean Nunes, informou que a investigação durou mais de um ano e analisou mais de 40 mil áudios. 'Mais de um ano de investigação, mais de 40 mil áudios analisados pela Polícia Civil e Gaeco. A gente tá combatendo a chegada do Comando Vermelho no nosso estado e agentes de segurança pública associados com traficantes alimentam essa facção para que possam retornar as drogas para as ruas. É uma gravidade importante de considerar', declarou.

A investigação também cumpriu mandados contra outros cinco suspeitos de integrar a facção. Segundo a Polícia Civil, a apuração começou em fevereiro de 2025, após denúncia de um traficante que relatou desvio de drogas por agentes. Os investigadores reuniram indícios de que o esquema movimentou cerca de R$ 10 milhões em vendas ao longo de quatro anos. Dos nove mandados de prisão expedidos, oito foram cumpridos na operação Perfídus.

Quem é quem no esquema

Braz Morroni - delegado da DCCPAT

Braz Morroni, delegado da Delegacia de Crimes Contra o Patrimônio (DCCPAT), é descrito na decisão judicial como participante ativo do esquema. Segundo o documento, ele não apenas tolerava as ações dos subordinados, mas era beneficiário direto dos lucros das drogas desviadas. A investigação aponta que ele recebia repasses de dinheiro, cobrava rapidez na recuperação de valores de vendas a prazo e usava sua posição para proteger o grupo. A decisão cita transferências de Everton Aires para contas do delegado e conversas que indicavam reserva de parte dos lucros para ele. Em dezembro de 2025, ele teria ido pessoalmente à delegacia receber sua parte. O juiz determinou prisão temporária, afastamento do cargo, bloqueio de bens e suspensão do porte de armas. Em audiência de custódia, a prisão foi mantida, e ele foi encaminhado ao Presídio Especial do Valentina, em João Pessoa.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Everton Rychelyson da Silva Aires - operador do grupo

Everton, conhecido como 'Bomba', é apontado como principal operador do esquema. Segundo a decisão, ele era o elo entre policiais e traficantes, responsável por guardar drogas desviadas, negociar carregamentos de cocaína e skunk, organizar a contabilidade clandestina, orientar sobre lavagem de dinheiro e atuar em esquemas paralelos de importação irregular e venda de anabolizantes. O documento menciona movimentações financeiras incompatíveis com sua renda e transações com suspeitos de tráfico. A prisão temporária foi mantida em audiência de custódia, e ele foi levado ao Presídio Especial do Valentina.

Eduardo Jorge Ferreira - agente da Polícia Civil

Eduardo Jorge, o 'Mão Branca', é apontado como participante direto na subtração de drogas, monitoramento de carregamentos, manipulação de rastreadores e armazenamento de entorpecentes em sua residência. A decisão destaca movimentações financeiras milionárias, relações comerciais suspeitas e ocultação patrimonial por meio de empresas e terceiros. A prisão temporária foi mantida, e ele foi encaminhado ao Presídio Especial do Valentina.

João Wicttor Alves de Lima, Brendo Roberth e Paulo Ricardo

João Wicttor, o 'Vitor', é apontado como responsável por armazenar, refinar e comercializar drogas fornecidas pelos policiais, além de fazer transferências financeiras. Brendo Roberth Fernandes Sobral, o 'Breno', seria subordinado de João Wicttor, atuando na guarda, refino e distribuição. Paulo Ricardo Barbosa de Souza, o 'Galinha', é informante dos policiais e distribuidor de drogas, fornecendo informações sobre depósitos de facções rivais em troca de parte das cargas desviadas e participando da movimentação financeira.

José Alexandrino de Lira Júnior - chefe de distribuição

José Alexandrino, o 'Júnior Lira', atua principalmente no Sertão da Paraíba e no Rio Grande do Norte, liderando a distribuição de grandes carregamentos de drogas, financiando remessas interestaduais e mantendo relações diretas com Everton.

Vanessa Dantas Fernandes - tesoureira

Esposa de Júnior Lira, Vanessa é apontada como tesoureira do esquema no sertão, disponibilizando suas contas para receber, fracionar e pulverizar recursos do tráfico internacional e interestadual, enviando valores aos policiais. A investigação revela volumosa rotina de depósitos fracionados em dinheiro seguidos de saques sistemáticos.

Dankennedy Vieira - integrante de facção

Dankennedy Vieira Brito da Silva, o 'Babau', da facção Nova Okaida, teria sido vítima do desvio de drogas e divulgou imagens nas redes sociais que deram origem às apurações. Ele foi o único que não foi preso.

Outros suspeitos

Três pessoas não alvo de prisão preventiva foram citadas na decisão: Diego Ernesto Pereira Barros (ex-policial militar), Fabiano de Matos Farias (o 'Galego') e Jobson Rodrigo da Silva. Eles foram alvo de mandados de busca e apreensão. Fabiano está preso por outros crimes na Penitenciária de Segurança Máxima Criminalista Geraldo Beltrão. Diego foi preso em flagrante por obstrução de Justiça e posse ilegal de arma, mas liberado após audiência de custódia. A defesa dele considerou a prisão 'excessiva' e 'desproporcional'.

A defesa do delegado Braz Morroni afirmou que 'é preciso ressaltar o direito constitucional à presunção de inocência' e que 'irá analisar os autos visando a adoção das medidas pertinentes para restaurar a liberdade do delegado', provando sua inocência. O g1 não localizou a defesa dos outros citados.

Como funcionava o esquema

Segundo as investigações, a organização criminosa contava com agentes públicos que usavam a estrutura do Estado para favorecer atividades criminosas, incluindo desvio de drogas para revenda. O delegado Rafael Bianchi detalhou que traficantes informavam aos policiais a localização de drogas de outros grupos; os agentes apreendiam e repassavam aos criminosos que informaram. O delegado André Rabello acrescentou que as investigações duraram 15 meses e que drogas destinadas à incineração também foram desviadas. Foram cumpridos 24 mandados de busca e apreensão, e a Justiça determinou o bloqueio de cerca de R$ 10 milhões dos investigados.

Quem é o delegado preso

Braz Morroni de Paiva Júnior tem mais de 20 anos de atuação na Polícia Civil, nomeado em 12 de agosto de 2004. Atuou nas delegacias de Cuité, Itabaiana, 4ª distrital de Campina Grande, plantão na Segunda Delegacia Regional, DRE em 2017 e DCCPAT em 2019.