Um técnico de enfermagem de 28 anos, identificado como Caio Ribeiro Mota, foi preso suspeito de torturar um adolescente de 14 anos com deficiência severa durante atendimentos domiciliares em Campo Grande (MS). Imagens de câmeras de segurança registraram as agressões. O suspeito permanece detido após audiência de custódia realizada nesta sexta-feira (17).
Família desconfiou após piora do estado de saúde
O pai da vítima, Carlos Roberto Silveira, contou ao g1 que a família começou a suspeitar das agressões quando o adolescente passou a apresentar mais convulsões, maior número de internações por broncoaspiração e dificuldades para dormir. “Ele acordava em pânico e chorando”, relatou. O adolescente tem encefalopatia crônica, é cego, não se comunica verbalmente e depende de cuidados integrais. Prematuro extremo, nasceu com cerca de cinco meses de gestação, não anda, não fala e permanece acamado na maior parte do tempo. Devido à dificuldade para engolir, a alimentação precisa ser liquidificada e espessada para evitar broncoaspiração, complicação que pode causar pneumonia.
Técnico trabalhava há seis meses com a família
Segundo o pai, o técnico começou a trabalhar com a família há aproximadamente seis meses. Com a piora dos sintomas e o aumento das internações — situação que não ocorria antes — a família chegou a trocar a medicação. Com o tempo, os pais perceberam que as crises aconteciam principalmente após os plantões do técnico.
O pai também relatou falhas nos cuidados básicos. Em uma visita, perguntou ao técnico se o filho havia tomado água. Após resposta positiva, ofereceu mais água ao adolescente, que bebeu cerca de 200 mililitros de uma só vez. “É um exagero de uma vez só para o tamanho dele. Quer dizer, se ele tomou essa quantidade de água comigo, é porque ele não tinha tomado antes”, disse.
Vítima demonstrava medo
Outro comportamento que chamou a atenção foi a reação do adolescente quando alguém se aproximava. “Quando eu ia vê-lo, chegava pertinho dele, ele demonstrava, dava sinais que ele estava com medo, fechava os olhos. Qualquer pessoa hoje que chega perto dele, a reação dele é fechar os olhos, como se ele enxergasse alguma coisa. Mas não, ele tem medo. Ele tá demonstrando medo”, afirmou o pai.
Câmeras flagraram agressões e tortura
Diante das suspeitas, o pai pediu que a mãe analisasse as imagens das câmeras de segurança instaladas na casa. As gravações mostram o técnico inclinando a cadeira de rodas do adolescente para deixar a cabeça voltada para baixo, aumentando o risco de broncoaspiração. As imagens também registram agressões com tapas na cabeça e no rosto em diferentes momentos. A investigação aponta ainda que o suspeito fumava perto do adolescente, apesar de conhecer o histórico de graves problemas pulmonares da vítima.
Prisão e medidas legais
Após tomar conhecimento do caso, a Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (DEPCA) pediu a prisão preventiva do técnico. A Justiça autorizou a medida, e o mandado foi cumprido na manhã de quinta-feira. Além de registrar a denúncia na polícia, a família informou que comunicou o caso ao Conselho Regional de Enfermagem (Coren) e pediu a apuração da conduta do profissional.
Família abalada busca justiça
Abalado, o pai afirmou que a prioridade agora é buscar justiça e evitar que outras pessoas em situação de vulnerabilidade passem pela mesma situação. “A mãe já tá sem trabalhar há uma semana, ela tá extremamente abalada. Eu com toda certeza também estou me mantendo […] o momento é de muita angústia, de muito desassossego, de sensação de impotência”, lamentou. A família espera que o responsável seja punido e que o caso sirva de alerta para que situações semelhantes sejam denunciadas.



