A SPTrans assumiu o controle da Transunião após a Operação Última Parada, deflagrada na quinta-feira (25) pela Polícia Civil e Ministério Público de São Paulo (MP-SP), que investiga um esquema de lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC) no transporte público. A investigação aponta o uso de 'ônibus fantasmas' para inflar artificialmente o patrimônio da empresa e viabilizar sua participação em licitações na capital paulista.
Esquema de 'ônibus fantasmas' e aumento de capital fictício
Segundo os autos, os 'ônibus fantasmas' não eram veículos inexistentes, mas ônibus que figuravam nos registros societários e contábeis como novos aportes patrimoniais de acionistas para justificar um aumento de capital sem lastro econômico real. Parte desses veículos já integrava a frota operacional da Transunião ou estava vinculada a 'laranjas', como motoristas e cobradores, que não tinham capacidade financeira para adquirir ônibus avaliados em centenas de milhares de reais.
A engenharia societária permitiu que o capital social da Transunião saltasse de R$ 105 mil para R$ 50,2 milhões por meio de boletins de subscrição padronizados, nos quais os veículos eram declarados como bens entregues pelos acionistas em troca de participação societária. O objetivo era atender às exigências da Prefeitura de São Paulo, que passou a exigir comprovação de capacidade econômico-financeira mínima nos editais de licitação.
Titularidade dissociada e cooperados 'laranjas'
As investigações identificaram uma separação deliberada entre proprietários formais dos ônibus e os reais beneficiários econômicos. Planilhas digitais apreendidas, intituladas 'Contato' e 'Contato 3', categorizavam a frota em 'cooperado' (titular formal, frequentemente 'laranja') e 'cooperado oficial' (detentor do domínio econômico e destinatário dos lucros).
Segundo a Polícia Civil, essa estrutura evidenciava que parte significativa da frota estava vinculada a indivíduos que não integravam formalmente a sociedade, mas exerciam influência sobre a gestão, como o vereador Senival Moura (PT), o presidente da Transunião, Lourival Monário, e o diretor informal Jair Ramos de Freitas, o 'Cachorrão'. Irregularidades em notas fiscais da Cooperunião para locação de veículos também foram apontadas, com casos em que ônibus da própria Transunião eram usados para justificar faturamento sem comprovação de serviços prestados.
Operação Última Parada: prisões e bloqueios
A operação cumpriu cinco mandados de prisão temporária e 104 de busca e apreensão. Entre os presos estão Senival Moura, Jair Ramos de Freitas ('Cachorrão') e Devanil de Souza Nascimento ('Sapo'), motorista e homem de confiança do vereador. Também são alvos Lourival Monário ('Orelha'), acusado de ser nomeado pelo PCC, e Leonel Moreira Martins ('Cabeça Branca'), supervisor operacional e interlocutor da facção.
Foram bloqueados 117 veículos, 3 embarcações, 21 imóveis e R$ 194.457.851,90 em contas dos investigados. As acusações incluem organização criminosa, lavagem de dinheiro e fraudes em licitações.
Intervenção da SPTrans e continuidade dos serviços
O prefeito Ricardo Nunes (MDB) anunciou intervenção na Transunião, concessionária responsável por 50 linhas na Zona Leste, transportando cerca de 262 mil passageiros por dia. A gestão e operação passaram a ser administradas pela SPTrans, com o interventor Ângelo Fêde, funcionário de carreira da SPTrans. A medida visa garantir a continuidade do transporte e preservar empregos e contratos.
A Prefeitura informou que a frota segue operando normalmente, sem prejuízo à população. A defesa do vereador Senival Moura afirmou que ele é inocente e que os fatos serão esclarecidos. A Transunião declarou que a intervenção demonstrará que a empresa possui apenas recursos de natureza pública.



