O grupo preso por promover o salto de rope jump que resultou na morte de Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, de 21 anos, cobrava até o dobro do valor praticado por empresas regularizadas, segundo a Polícia Civil e o Ministério Público. Maria Eduarda pagou R$ 180 pelo salto, além de R$ 110 pela gravação em vídeo. O mesmo grupo tinha saltos agendados para os próximos dias em Rio Claro (SP) por R$ 210 e em Minas Gerais por R$ 250.
Preços abusivos e busca por engajamento digital
De acordo com a Polícia Civil, empresas formais do setor cobram cerca de R$ 90 por salto, metade do valor praticado pelo grupo informal. A estratégia do grupo era promover maior visibilidade nas redes sociais, visando à viralização dos conteúdos. "A atividade era explorada com finalidade lucrativa, sendo constatado que o referido grupo cobrava valores correspondentes ao dobro daqueles praticados pela empresa [nome da empresa]. Tal exploração econômica mostra-se associada à busca por visibilidade em redes sociais, especialmente com o intuito de promover a 'viralização' de conteúdos, em estratégia voltada à obtenção de engajamento digital", diz um dos pedidos de prisão.
Novos presos: câmera retirada, conta excluída e fuga
As investigações avançaram para um segundo inquérito contra três pessoas presas no último fim de semana: João Antônio Pivetta Ribeiro da Silva, Evelyne dos Santos Gonçalves e Gabriel Barros Martins. Segundo a Polícia Civil e o MP, João Antônio retirou a câmera GoPro que estava presa à jovem logo após a queda. A câmera, ainda não encontrada, é considerada essencial para a reconstrução do caso. "João Antônio Pivetta Ribeiro da Silva, posicionado na base da estrutura com função operacional durante o evento, detinha condições objetivas de perceber eventual irregularidade na fixação dos equipamentos da vítima e de comunicá-la à equipe no topo por meio de rádio, comunicação que, em tese, não foi realizada. Ademais, aproximou-se do corpo da vítima imediatamente após a queda e removeu a câmera GoPro que ela segurava, praticando conduta de supressão de elemento probatório central à investigação", disse o Ministério Público.
A delegada Andréa Levy afirmou que João negou ter retirado a câmera. "Assim que aconteceu a queda, uma testemunha teria se aproximado da beirada da ponte e visto a Maria Eduarda com a câmera na mão e, segundos depois, um indivíduo retirando a câmera dela. Contudo, quando ele [João] foi ouvido, ele menciona que ele foi apenas checar o batimento cardíaco e que ele não retirou a câmera. Mas, diante da testemunha presencial que viu ele retirando a câmera da mão da vítima, foi necessária a prisão temporária dele para averiguar os fatos", destaca Levy.
Evelyne, apontada como organizadora do grupo, excluiu a conta de Instagram do grupo imediatamente após a morte. "Evelyne dos Santos Gonçalves, na condição de organizadora e 'CEO' do grupo 'Entre Cordas', detinha o domínio pleno da estruturação do evento, assumindo, em tese, o risco da produção do resultado letal ao permitir a realização de atividade de elevado potencial ofensivo sem observância de protocolos mínimos de segurança. Destruiu prova digital de relevância inequívoca ao excluir a conta de Instagram do grupo imediatamente após o óbito." Gabriel Barros Martins fugiu do local após a tragédia e não se apresentou às autoridades até ser preso.
Primeiros indiciados: instrutores presos
A Polícia Civil concluiu na segunda-feira (22) o primeiro inquérito e indiciou por homicídio com dolo eventual os três instrutores presos no dia da tragédia: Luis Felipe Feliciano Egoroff, 32 anos; Maicon Fernandes Cintra, 42 anos; e Vitor de Freitas Gonçalves, 27 anos. Eles foram transferidos do Centro de Detenção Provisória (CDP) de Piracicaba para o CDP II de Guarulhos para garantir a integridade física, segundo o advogado Rafael Gomes dos Santos, que representa dois deles. A Justiça negou pedido de habeas corpus na semana passada.
Defesas se manifestam
A defesa de Luis Felipe e Maicon Fernandes discorda do enquadramento. "Para a defesa é homicídio culposo. Eles jamais tiveram a intenção ou sequer correram o risco de matar", afirma o advogado Rafael Gomes dos Santos. Já a defesa de Vitor diz que recebe com cautela o indiciamento e que possui "relevantes divergências técnicas" quanto à caracterização do dolo eventual. A defesa de João afirma que ele não participou da execução do salto, prestou auxílio imediato e colaborou com as autoridades. A defesa de Evelyne confia na inocência dela e diz que ela colaborou desde o início. A defesa de Gabriel informou que se manifestará apenas no processo.
A tragédia
Imagens gravadas mostram Maria Eduarda sendo lançada de uma altura de cerca de 40 metros da Ponte do Esqueleto, em Limeira (SP), sem cordas de segurança. Após a queda, ouve-se alguém gritar: "Gente, a corda!" e outra pessoa pergunta: "Como assim, a corda arrebentou?". O rope jump utiliza cordas estáticas, sem elasticidade, gerando um movimento de pêndulo, diferente do bungee jump.



