Árbitras no CE denunciam chefe de arbitragem por assédio sexual e estupro
Árbitras denunciam chefe de arbitragem por assédio no CE

Quatro árbitras do quadro da Federação Cearense de Futebol (FCF) denunciaram o presidente licenciado da Comissão de Arbitragem, Paulo Sílvio dos Santos, 55 anos, por assédio sexual e, em um dos casos, estupro. Em entrevista exclusiva ao Globo Esporte, as mulheres, que tiveram os nomes preservados, descreveram uma prática sistemática de importunação, constrangimento e perseguição iniciada em 2018. Paulo Sílvio nega todas as acusações por meio de sua defesa.

Relatos de assédio e abuso de poder

Uma das denunciantes afirmou que o dirigente utilizava sua posição para pressioná-las. "A cada escala era um convite. Para beber, para almoçar... Dizia que estava me trabalhando para ser uma árbitra Fifa. Aí, começou a me dar várias escalas. Quando ele viu que não iria conseguir o que queria, passou a atrapalhar o meu processo", relatou. Segundo ela, Paulo Sílvio fazia comentários como: "vocês sabem o caminho das flores, não estão onde vocês poderiam chegar porque não querem".

Outra vítima contou que foi ameaçada após buscar outras possíveis vítimas. "Ele chegou a me ameaçar, porque segundo ele, soube que eu estava procurando meninas para saber se tinham sido assediadas por ele. Falou que se isso fosse verdade, eu nem no quadro local ficaria", disse. O episódio ocorreu na sala da comissão, na presença de todos os membros homens e de um psicólogo.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Condutas abusivas e humilhações

Uma árbitra descreveu situações constrangedoras durante atividades físicas. "Você acha normal chegar em uma árbitra na Areninha, na atividade física, e acochar por trás e tirar do solo? [...] Você acha normal, uma árbitra estar no vestiário ajeitando o material do jogo dela e você achar que o short está curto e puxar o short?", questionou.

Outra denunciante lembrou de uma escalação incomum: "Lembro que ainda era aluna e fui escalada para a final da Série C do Campeonato Cearense. Quando saiu a escala, eu fiquei me perguntando: 'Como assim? Ainda sou aluna'. [...] Mas era dessa forma que ele fazia. 'Ah, vou fazer ela crescer aqui para ver que está subindo e, se ceder ao que eu quero, as coisas podem melhorar'. Só que aí, quando as coisas não saíam como ele esperava, ele achava uma forma de começar a punir".

Medo de retaliação e pedido de proteção

As árbitras solicitaram medida protetiva ao registrar boletim de ocorrência. "Pedimos uma medida protetiva quando fizemos o BO porque é um cara vingativo, é um cara vaidoso e ele tem muito como uma vaidade: 'sou gestor'. [...] a gente já viu que quando mexe com o ego dele, ele é capaz de tudo", afirmou uma delas.

Providências da Federação Cearense de Futebol

A FCF informou que instaurou, na terça-feira (14), o Procedimento Interno de Apuração (sindicância nº 01/2026), conduzido por uma comissão independente. "A presidência dos trabalhos será exercida por uma mulher, a quem caberá conduzir a apuração e coordenar as diligências necessárias", comunicou a entidade. A federação também disse estar prestando apoio psicológico às árbitras.

Defesa de Paulo Sílvio dos Santos

A defesa do investigado afirmou que tomou conhecimento das denúncias por redes sociais e não por comunicação oficial. Paulo Sílvio "nega, de forma veemente, as alegações que lhe são atribuídas e afirma que jamais praticou qualquer conduta de assédio sexual, importunação sexual, violência sexual ou qualquer outro ato ilícito". A defesa pede que o caso seja tratado com reserva e que se observe a presunção de inocência.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar