O policial penal Paulo dos Santos Silva é investigado pela Polícia Civil de Roraima por agiotagem, perseguição e ameaça contra uma professora que atua no sistema prisional em Boa Vista. O g1 teve acesso ao inquérito nesta segunda-feira (20). O caso chegou à Justiça em maio de 2026, após a vítima atrasar o pagamento de um empréstimo com juros abusivos e acima do permitido por lei.
Detalhes do empréstimo e cobranças abusivas
A professora pegou R$ 5 mil emprestados com o policial cerca de seis meses antes da denúncia. O acordo verbal previa juros de 20% ao mês. As primeiras parcelas do empréstimo chegaram a ser pagas no prazo. No entanto, um imprevisto financeiro impediu a quitação de parte do valor em abril e foi nesse período que Paulo passou a cobrar taxas excessivas e alegar que ela devia R$ 25 mil para ele.
Intimidações e ameaças constantes
As intimidações do agente ocorriam principalmente pelo aplicativo WhatsApp. Em uma das mensagens enviadas à vítima, o policial diz: "Não se queime comigo minha amiga. Eu não tenho coração, sempre te falei isso". Para pressionar a servidora, o policial tentava impor medo e ameaçava invadir a privacidade da família. "Preciso falar com você agora, se vc não me atender eu vou lá na sua casa", escreveu. Em outro momento, ele diz: "Vc fez negócio foi com o HOMEM".
O inquérito detalha que o servidor fazia ligações em horários inoportunos, como às 4h. Ele também passou a procurar o marido e a irmã da vítima. Ao marido da servidora, o policial penal afirmou que já tinha a rotina dela "mapeada", e que localizaria a mulher em qualquer lugar. O agente também passou a ir aos locais de trabalho da professora e fez cobranças na frente de clientes. Em uma das ocasiões, o filho da servidora, um adolescente de 14 anos, presenciou os gritos do policial. O adolescente, que usava uniforme escolar, sentiu medo de que o investigado fosse procurá-lo na escola. Na ocasião, o policial chegou a dizer à vítima que "com polícia ninguém brinca".
Impacto na saúde da vítima e medidas protetivas
A pressão fez com que a vítima desenvolvesse síndrome do pânico e precisasse de acompanhamento psicológico. O Ministério Público (MP) de Roraima apoiou o pedido de medidas protetivas de urgência, aceito pela Justiça. O juiz negou a suspensão do porte de arma do agente em razão da profissão, mas alertou que o descumprimento das medidas restritivas pode resultar em punições mais graves. A Sejuc recebeu ofício sobre o caso para tomar providências.
Defesa do policial e andamento da investigação
Em nota, a defesa de Paulo dos Santos Silva informou que as acusações são falsas. Disse ainda que a própria vítima reconheceu a existência da dívida financeira em depoimento à polícia, e a denúncia seria uma tentativa de evitar o pagamento do empréstimo. Segundo o pronunciamento, o servidor apresentou documentos à Justiça para comprovar a legalidade do acordo financeiro, afirmou que está à disposição para colaborar com as investigações e que adotará medidas judiciais contra as acusações.
A Polícia Civil informou que abriu inquérito para investigar o caso. O Tribunal de Justiça de Roraima (TJRR) determinou, em julho, que o policial mantenha distância mínima de 300 metros da mulher e da família dela. O juiz também proibiu qualquer tipo de contato por parte do investigado. A Secretaria de Justiça e Cidadania (Sejuc) confirmou que recebeu notificação judicial sobre as restrições impostas ao policial. Também declarou que não há ordem da Justiça para afastar o servidor do cargo ou abrir processo disciplinar. A Corregedoria disse que acompanha o caso e aguarda o fim da apuração para tomar as medidas administrativas, caso a Justiça assim determine.



