PF investiga milícia digital financiada com R$ 25 milhões na Prefeitura de Macapá
PF investiga milícia digital com R$ 25 milhões em Macapá

A Polícia Federal identificou uma estrutura dentro da Prefeitura de Macapá que, segundo os investigadores, usava recursos públicos para financiar produção de conteúdo político nas redes sociais, ataques a adversários e pagamentos a influenciadores digitais. O esquema, alvo da Operação Palanque Digital, teria movimentado mais de R$ 25 milhões.

Estrutura operava dentro da prefeitura

De acordo com relatório da PF, a estrutura funcionava dentro da Prefeitura de Macapá e reunia agentes públicos, produtores de conteúdo e influenciadores digitais. O grupo produzia publicações favoráveis ao então prefeito Antônio Paulo de Oliveira Furlan e ataques a adversários. A PF aponta o ex-prefeito e atual pré-candidato ao Governo do Amapá como principal beneficiário, com indícios de que tinha conhecimento e concordava com a atuação.

O núcleo de coordenação era composto por pessoas ligadas diretamente à administração municipal: José Furlan Neto (irmão do ex-prefeito), mencionado como um dos coordenadores políticos do grupo; José Ivo Melo Souza, então secretário de gabinete; Gleidson Alves Barros, que administrava páginas e produzia conteúdo; Juarez Pantoja Menescal de Sousa, ex-secretário de comunicação; e Diego Cesar dos Santos Silva Trajano, ex-secretário de comunicação. O relatório também cita duas servidoras da Secretaria Municipal de Comunicação responsáveis pela formalização e prorrogação de contratos com uma empresa de comunicação que teria dado suporte financeiro à rede.

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Áudios revelam orientações para ataques

Além dos depoimentos, a investigação reúne conversas analisadas pela PF entre Gleidson Alves Barros, Juarez Menescal e um influenciador digital. Os diálogos mostram orientações para produção de conteúdos contra adversários políticos, discussões sobre alvos das publicações e negociações de pagamentos. Em um áudio, Gleidson diz: "Tu cria a página aí. Cria bacana. Bota ela no padrão de portal de notícias e tal. (...) Da forma que tu acha que ela vai ter engajamento. Aí tu me manda. (...) Eu vou dizer pro Juarez, olha, essa página aqui é minha. Vê se tu aumenta mais mil, mais mil e quinhentas aí."

Segundo a PF, Gleidson considerou insuficiente o valor sugerido e afirmou que Juarez costumava pagar mais pelas publicações: "Bora mano, a gente divide essa ração aí, não dá em nada, pega aí, mas tá muito baixo, o Juarez paga mais, tem que valorizar mais essa página aí."

Perícia encontrou montagens contra adversários

A perícia da Polícia Federal analisou áudios que mostram a elaboração de peças de ataque contra adversários políticos, incluindo uma montagem do governador “com as mãos cheias de sangue”. Os elementos apontam para uma estrutura formada por gestores públicos, produtores de conteúdo e influenciadores digitais.

PF afirma que recursos públicos financiavam o esquema

Em entrevista à Rede Amazônica, o superintendente da PF no Amapá, Milton Neves, afirmou que a estrutura era financiada com recursos públicos por meio de contratos com uma agência de publicidade, responsável pelos repasses a administradores de páginas. “Desinformação, fake news, conteúdos depreciativos e conteúdos elogiosos à pessoa do ex-prefeito, deixando transparecer que ele era um herói, enquanto os demais seriam vilões. E tudo isso pago com recurso público de uma maneira muito clara, sem qualquer preocupação. A ousadia era tão grande que esses repassavam dinheiro para a agência de publicidade e ela pagava para todos esses comunicadores digitais”, disse. Segundo ele, contratos superiores a R$ 25 milhões foram destinados à agência, enquanto pessoas ligadas ao grupo também ocupavam cargos na Prefeitura de Macapá.

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Relatos de ameaças e invasões

Pessoas ligadas à investigação relataram à Rede Amazônica episódios de ameaças, invasões e intimidações após o avanço das apurações. Um dos relatos é do psicólogo Gleidson Alves Barros, apontado pela PF como operador da estrutura. Segundo ele, um homem armado invadiu seu apartamento em busca do celular onde estariam armazenadas informações relacionadas ao funcionamento do grupo. "A minha casa foi monitorada. Tinha um carro passando, gravando o meu apartamento o tempo todo. E a minha casa também foi invadida por uma pessoa desconhecida, querendo o celular onde tinha informações, e estava armado. Eu achei que naquele momento ia morrer. Eu estava amarrado em cima da cama e ele ficava insistindo e pedindo o celular. Queria saber se eu tinha informações contra o prefeito", afirmou.

O jornalista investigativo Juan Monteiro também afirmou que um colaborador que possuía informações sobre a estrutura teve a casa invadida: "Um colaborador que eu contratei para minha empresa como freelancer, e que passou pela gestão, que tinha muitas informações sobre a milícia digital, teve a casa invadida, foi ameaçado e tentaram capturar ilegalmente o celular dele, porque no aparelho tinham muitas informações. Mas o que eles não sabiam é que o aparelho já estava em posse da Polícia Federal para extração dessas informações que comprovam a existência de uma milícia digital que é bancada com dinheiro público para esmagar reputações, para perseguir pessoas e para desgastar qualquer um que se opõe ao projeto de poder."

Defesas negam irregularidades

Em nota, a defesa de Dr. Furlan afirma que até o momento nenhuma das suspeitas levantadas foi comprovada. "Dr. Furlan segue trabalhando e focado na pré-campanha ao Governo do Amapá, construindo um projeto sério para o estado. Desde o início da Operação Palanque Digital, nenhuma das suspeitas levantadas contra ele foi comprovada. Atribuir a ele a chefia de qualquer grupo investigado é uma afirmação grave e sem fundamento, que não corresponde à realidade dos fatos."

Juarez Menescal também se manifestou através de nota, afirmando confiar na Justiça e nas investigações. "Diante da divulgação de conversas privadas de WhatsApp no contexto da Operação Patrulha Digital, venho esclarecer que os diálogos divulgados não revelam qualquer prática ilegal ou irregular. Trata-se de recortes retirados de contexto, que refletem a rotina de trabalho de quem atua com comunicação, marketing político e consultoria para agentes públicos, portais de notícias e empresas."

Governador do Amapá repudia esquema

O governador do Amapá, Clécio Luís, emitiu nota de indignação sobre o assunto. "O governador do Amapá, Clécio Luís, recebe com profunda indignação, mas com total confiança na Justiça, os desdobramentos da Operação Palanque Digital, deflagrada pela Polícia Federal. Mais do que um ataque sistemático a mandatos legítimos e à honra de homens públicos, o que as investigações revelam é um crime grave contra a própria população e a democracia. O desvio estimado em R$ 25 milhões de recursos que deveriam ser aplicados na saúde, na educação e no bem-estar dos cidadãos para financiar uma indústria de mentiras e assassinatos de reputação é inadmissível."