Mães de autistas protestam contra esvaziamento do Teamarr em Roraima
Mães de autistas protestam contra esvaziamento do Teamarr

Mães de pacientes do Centro de Acolhimento ao Autista (Teamarr) voltaram a protestar em frente à Assembleia Legislativa de Roraima (Ale-RR) nesta quarta-feira (8). Elas criticam a transformação do programa em uma disputa política e temem os prejuízos com a troca de terapeutas sem aviso.

Relatos de mães

A ex-assistente social Rozilda Penha largou a profissão para cuidar do filho, paciente do programa há dois anos. Uma vez por semana, ela viaja do município de Iracema, no interior do estado, até a capital para garantir a terapia da criança pelo Teamarr. "Nós não viemos por briga política ou para levantar bandeira. Nós lutamos por políticas públicas e direitos aos nossos filhos", desabafou Rozilda. Ela contesta o argumento de reestruturação usado pela gestão da Casa para esvaziar o prédio do Teamarr no bairro São Francisco. "Reestruturação é abrir polos, contratar mais profissionais e estender o serviço ao interior", completou.

A autônoma Danyele Cardoso, mãe de um paciente de 12 anos, soube do esvaziamento do prédio pelas redes sociais. Para ela, a queixa principal é a perda do vínculo com a equipe atual, pois o cenário desconhecido assusta e causa dor às crianças. "A gente não quer novos profissionais, isso atrapalha. Em vez de evoluir, eles vão retrair. Sabemos da briga política, mas o que nós e os nossos filhos temos a ver com isso?", questionou a autônoma.

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A maior preocupação das famílias envolve a substituição dos terapeutas. A quebra de rotina para crianças autistas causa sofrimento e regressos severos no tratamento. "Em vez de evoluir, eles vão retrair", explicou Danyele.

A manicure Jhennifer Souza, mãe de um paciente de 14 anos, diagnosticado com autismo desde os 3, reforçou a dificuldade de adaptação a novos rostos. "Tudo operava de forma correta. O apelo é simples: devolvam os profissionais e deixem tudo como antes. Não havia necessidade de mudança", pediu Jhennifer.

O Teamarr

O Teamarr atende de forma gratuita ao menos 750 famílias. A iniciativa oferta terapias para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e beneficia mais de mil crianças e adolescentes no estado.

Impasse político

A incerteza das famílias ocorre em meio a um impasse sobre quem determinou o esvaziamento do prédio na segunda-feira (6). A Ale-RR publicou uma nota oficial para responsabilizar a deputada Angela Águida Portella (PP), responsável pelo projeto até então, pela ordem de retirada dos materiais. A deputada, por sua vez, divulgou um comunicado onde afirmou ter recebido a notícia com surpresa e por telefone.

Já a Superintendente de Projetos Especiais da Ale-RR, Marília Pinto, trouxe uma terceira versão durante o primeiro encontro com os pais. Marília não soube explicar a origem da ordem, mas isentou o presidente da Casa, deputado Jorge Everton (União Brasil). "A determinação veio de alguém, mas não partiu do deputado Jorge Everton", declarou na ocasião.

Espera por respostas

O grupo buscou a Casa para expor as demandas nesta quarta-feira (8). Após mais de uma hora de espera, a portaria informou que os parlamentares não receberiam as mães e que uma reunião prevista para sexta-feira (10) não aconteceria, devido ao recesso parlamentar iniciado em 26 de junho. Minutos após a negativa da portaria, a Superintendente de Comunicação da Ale-RR, Ana Caroline Maduro, foi ao encontro das famílias. Ela negou a informação inicial e confirmou que a reunião de sexta-feira está mantida e ocorrerá no Plenarinho da Casa, às 11h.

O que aconteceu?

A saída de servidores e a retirada de materiais usados no atendimento a crianças e adolescentes ocorreu nesta segunda-feira (6), após ida de uma comitiva liderada pelo presidente da Ale-RR ao local e anunciar mudança na gestão do programa. A medida ocorreu dias após a exoneração dos servidores comissionados da Casa. Eles deixaram o prédio e retiraram materiais usados nos atendimentos.

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Procurada, a Ale-RR não respondeu sobre as atividades realizadas no prédio, sobre a restrição de entrada e o que está sendo dito aos pais sobre a continuidade nos atendimentos até a última atualização desta reportagem. Na tarde de segunda-feira (6), mães de pacientes atendidos pelo Teamarr protestaram em frente à Ale-RR contra as mudanças. Elas afirmam que a interrupção dos serviços compromete o tratamento dos filhos, que já criaram vínculo com os terapeutas.

Porta trancada

Nesta terça-feira (7), a reportagem encontrou a unidade trancada. Apenas um segurança atendeu a equipe e informou que a entrada não estava autorizada. Uma arquiteta fazia adequações nas salas. O g1 apurou que os servidores, que seguem exonerados, não haviam sido informados sobre a possibilidade de haver obras durante o recesso escolar deste ano.

Reunião com superintendente

Durante o protesto das mães na segunda-feira, a superintendente Marília Pinto organizou uma reunião e chamou o grupo ao plenário. Sobre os materiais retirados do Centro, a médica afirmou que a decisão partiu dos próprios funcionários. "Se os equipamentos são pessoais, aqueles servidores que entenderam que não iriam permanecer levaram os seus materiais", justificou.

Em nota à Rede Amazônica, a Ale-RR informou que realiza "levantamento patrimonial" dos bens que estavam à disposição do programa, e que somente após esse estudo, será possível identificar quais itens pertencem ao patrimônio público e quais são de propriedade particular. A superintendente garantiu o retorno das atividades para o dia 27 de julho. Ela também defendeu que a Ale-RR pretende recontratar os servidores exonerados. Procurado, o presidente da Casa não respondeu aos questionamentos do g1 até a última atualização desta reportagem.

Salas esvaziadas

O g1 acompanhou parte da desocupação do prédio nesta segunda e registrou quando profissionais esvaziaram salas, armários, retiraram brinquedos, materiais lúdicos e equipamentos utilizados nos atendimentos. Nenhum servidor que estava no local quis falar com a reportagem. A reportagem apurou que a equipe do presidente chegou por volta das 8h e informou que haveria uma mudança na gestão do Centro e que por isso todos os exonerados deveriam se retirar com os materiais. Policiais militares que atuam na Ale-RR acompanharam a ação.

Em nota, a Ale-RR negou que a iniciativa de esvaziar a unidade tenha partido direto do presidente e atribuiu à uma "determinação foi adotada pela deputada Ângela Portella" (leia a nota na íntegra da reportagem). Procurada, Ângela não se manifestou sobre a nota enviada pela assessoria de Jorge Everton. A Casa afirmou ainda que houve um planejamento previamente definido e que o programa entra em recesso nesta segunda, em razão do período de férias escolares. "Nesse mesmo intervalo, será realizada uma reorganização do programada na unidade, com duração aproximada de 20 dias, visando melhorar a estrutura e oferecer ainda mais qualidade no atendimento".

Durante a desocupação, servidores recolheram pertences pessoais e materiais utilizados nos atendimentos que haviam sido adquiridos por eles mesmos para auxiliar nas atividades no Centro. Muitos dos produtos foram colocados em sacos de lixo. A mãe de um paciente atendido chorou ao chegar na unidade durante a retirada dos equipamentos. A deputada Angella esteve na unidade local durante a desocupação, mas não quis falar sobre o assunto.