Luciana Ferreira, de 34 anos, perdeu a primeira filha, Helena, após três dias de idas e vindas ao Hospital de Planaltina, no Distrito Federal. Ela registrou boletim de ocorrência por possível violência obstétrica. O atestado de óbito da bebê apontou parada cardiorrespiratória e hipoxia intrauterina, ou seja, falta de oxigênio.
Caso de Helena é a quinta denúncia da semana
Esta é a quinta denúncia de negligência relacionada a mortes em hospitais públicos do DF divulgada na última semana. Os outros casos incluem: Maria Aparecida Galdino dos Santos, de 25 anos, morreu durante o parto no Hospital Regional de Samambaia na segunda-feira (13); Rodrigo Resende Prado, de 46 anos, morreu na calçada da porta do Hospital de Base, em Brasília, no domingo (12); Maria Graciana Andrade Alves, de 36 anos, morreu durante o parto no Hospital de Samambaia na sexta-feira (10); e Maria Vitória, de 5 meses, morreu depois de ser extubada de forma acidental na transferência entre o Hospital de Planaltina e o Hospital da Criança de Brasília.
Relato de Luciana: orientações contraditórias e procedimento questionável
No dia 26 de junho, Luciana procurou o Hospital de Planaltina sentindo dores e em trabalho de parto. A primeira médica que a atendeu disse que a bebê estava na transversal e, por isso, o parto deveria ser feito por cesariana. Ela voltou para casa por orientação da equipe de saúde. Como continuou sentindo dores, a mãe retornou ao hospital. No local, a equipe recomendou parto normal, mesmo com as reclamações da gestante e com a orientação anterior de cesárea.
"Chegou essa enfermeira, 'deu' o toque em mim e falou 'mãezinha, vamos colocar bebê pra nascer?' Estourou minha bolsa com uma escovinha e começou [a falar] 'faz força'. Até que ela reparou que colo do útero inchou, daí ela parou", conta Luciana. Ela relata que foram três dias de idas e vindas ao hospital. No entanto, a bebê não resistiu e saiu da barriga da mãe já sem vida.
"Teve falha, negligência médica, falta de empatia. Fui trazer minha filha e não trouxe. Foi pro cemitério. Eu queria só justiça pela minha filha. Ela não merecia isso", diz Luciana.
Resposta da Secretaria de Saúde e atuação do MP
A Secretaria de Saúde apresentou resposta ao Ministério Público com um plano de contingência. Em relação aos médicos ginecologistas obstetras, informou a previsão de contratação temporária de profissionais, já que não é possível fazer concurso durante período eleitoral. O Ministério Público defende uma solução estrutural, com a restruturação das carreiras de médicos obstetras, enfermeiros obstetras e técnicos de enfermagem. Além disso, o MP acompanha a necessidade de realocação de enfermeiros obstetras que foram para outras unidades durante a pandemia e ainda não retornaram aos centros obstétricos.
Reação da governadora e do Ministério da Saúde
Nesta quarta-feira (15), a governadora Celina Leão (PP) comentou os últimos casos dizendo que reconhece o sucateamento na rede pública de saúde. Já o Ministério da Saúde afirmou, em nota, que está em contato com a Secretaria de Saúde do DF para acompanhar a apuração e apoiar na análise técnica.



