Mãe luta contra bets e influenciadores após morte do filho em Uberlândia
Mãe luta contra bets e influenciadores após morte do filho

Dois anos após perder o filho Rafael Borges Amaral, aos 26 anos, a professora Vânia de Souza Borges, de Uberlândia (MG), transformou o luto em uma batalha pessoal contra as empresas de apostas e os influenciadores que promovem esse tipo de conteúdo. Para ela, a publicidade massiva das plataformas ajudou a alimentar a dependência que mudou a vida do filho.

Mudança silenciosa e isolamento

Segundo Vânia, antes das madrugadas em claro apostando, das discussões dentro de casa e da tristeza, o jovem era conhecido pelo jeito alegre e acolhedor. "O Rafael era um menino doce, generoso, irradiava alegria por onde passava. Depois ficou isolado, agressivo, já não saía mais com os amigos. Trabalhava muito, mas todo o dinheiro ia para as apostas. Ver um filho perder tudo dessa forma cortava o meu coração", contou ao g1.

A mudança aconteceu de forma silenciosa. No início, Rafael dizia que estava ganhando dinheiro. A família aconselhava que ele parasse, mas as apostas deixaram de ser uma diversão para se tornarem uma rotina. A mãe relembra que o filho trabalhava muito, mas já não conseguia construir patrimônio nem realizar os próprios sonhos. "Ele tinha uma moto linda e perdeu. Já não comprava mais nada para si. Trabalhava muito, mas eu ficava indignada porque todo o dinheiro ia para o vício. Ele não conseguia guardar nada."

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Facilidade de acesso e noites perdidas

Vânia acredita que a facilidade de acesso às plataformas tornou o problema ainda mais grave. "Hoje, apostar é muito mais fácil. Basta ter um celular na mão, disponível 24 horas por dia. Antigamente a pessoa precisava sair de casa para jogar. Agora existe um imediatismo muito grande e uma facilidade enorme para apostar", comentou.

Com o agravamento da dependência, as noites passaram a ser ocupadas pelas apostas. Vânia lembrou que acordava de madrugada e encontrava o filho jogando no celular. Ela pedia que ele desligasse a tela, tentava convencê-lo a parar, mas as conversas quase sempre terminavam em discussões. "Quando percebi que a situação estava se agravando, comecei a conversar com ele. Só que ele não aceitava que tinha um problema. Passava noites inteiras jogando e eu acordava de madrugada, implorava que ele parasse. Quando perdia dinheiro, ficava extremamente nervoso", relatou.

Em uma dessas brigas, Rafael deixou a casa da mãe e foi morar com a avó. "Aquilo me machucou", completou. Ainda segundo a mãe, o jovem chegou a perder o emprego porque passava as noites apostando e começou a faltar ao serviço.

Perdas financeiras e sonhos interrompidos

Rafael vendeu uma motocicleta seminova avaliada em R$ 8 mil, perdeu suas economias e passou a esconder da família a gravidade da dependência. Pouco antes de morrer, ele enviou um áudio a um amigo dizendo que já não conseguia controlar o vício em apostas online, além de relatar as recorrentes perdas financeiras. "Depois descobri que, naquela madrugada, ele fez transferências para plataformas de apostas. Foi quando concluí que provavelmente perdeu tudo o que tinha conseguido economizar", afirmou Vânia.

Ela obteve junto a um banco digital a informação de que, às 1h48 do dia da morte, Rafael realizou uma transferência de R$ 30 para uma conta vinculada à empresa responsável pelo chamado "Jogo do Tigrinho". Vânia contou que o filho dizia estar guardando dinheiro para abrir um lava a jato, mas acredita que o valor também foi perdido para as apostas. As instituições financeiras nas quais Rafael mantinha contas se recusaram a fornecer os extratos completos, sob alegação de sigilo bancário. Por isso, ela ainda não conseguiu calcular o valor total perdido.

Tentativas de responsabilização frustradas

Após a morte do filho, Vânia procurou inicialmente a Promotoria Criminal de Uberlândia. O promotor responsável na época entendeu que a questão não possuía natureza criminal e encaminhou a demanda às promotorias de Defesa do Consumidor e da Saúde. Em maio de 2025, o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) determinou o arquivamento da investigação.

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Na carta enviada ao MP, Vânia afirma que também procurou a Polícia Civil de Minas Gerais para solicitar abertura de inquérito, mas recebeu a informação de que "nada podia ser feito". Para a família, o caso extrapola uma tragédia individual e revela um problema de saúde pública. "Quando soube que não haveria investigação, fiquei extremamente frustrada. Disseram que foi um suicídio e que ninguém o induziu. Mas eu não me dei por vencida. Quero respostas e acredito que quem lucra incentivando pessoas vulneráveis também precisa ser responsabilizado", disse.

A mesma carta enviada ao MPMG constou entre os documentos da CPI das Bets, no Congresso Nacional, no ano passado. O parecer da senadora Soraya Thronicke, que sugeria o indiciamento de influenciadores e empresários ligados a bets, foi rejeitado por 4 votos a 3.

Caso chega ao Ministério da Justiça

Com a nova repercussão do caso, e considerando a documentação apresentada ao Ministério Público e utilizada na CPI das Bets, a deputada Dandara (PT-MG) protocolou representação no Ministério da Justiça e Segurança Pública solicitando que a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) e o Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor investiguem possíveis práticas de publicidade enganosa, estratégias digitais predatórias e falhas na proteção ao consumidor envolvendo plataformas de apostas. O documento também pede uma linha específica de investigação sobre a atuação de influenciadores digitais, afiliados e agências de publicidade.

Ao g1, o Ministério da Justiça e Segurança Pública informou que o processo foi recebido e está em análise pelas áreas técnicas competentes, respeitando os trâmites e procedimentos administrativos previstos.

Questionamentos às autoridades

A reportagem solicitou posicionamento ao MPMG sobre os fundamentos do arquivamento da denúncia, quais diligências foram realizadas e se existe possibilidade de reavaliação diante dos documentos apresentados pela família e dos fatos posteriormente levados ao Congresso Nacional. Também foram encaminhados pedidos de esclarecimento à Polícia Civil de Minas Gerais sobre eventual instauração de inquérito. Não houve respostas até a última atualização desta reportagem.