A mãe de uma criança gaúcha que teve as imagens utilizadas em falsas campanhas de arrecadação na internet detalhou o impacto da fraude na família. Os criminosos usaram inteligência artificial (IA) para forjar vídeos em que a menina, em tratamento contra o câncer, pedia dinheiro para pagar medicamentos. 'Usaram nossa dor para ganhar dinheiro', desabafou Kelen Santos, mãe da vítima.
Como o golpe funcionava
Nos anúncios falsos, uma voz gerada por IA simulava a criança fazendo apelos emocionais aos doadores. 'O remédio que pode me ajudar é muito caro. E a mamãe disse que a gente já vendeu tudo. Se você puder ajudar, qualquer valor já me dá mais um dia com a minha mãe. Se você puder me ajudar, clica no botãozinho aqui embaixo', dizia a mensagem falsa.
Segundo o delegado João Vitor Herédia, da Delegacia de Repressão aos Crimes Patrimoniais Eletrônicos (DRCPE), o grupo utilizava ferramentas de inteligência artificial, deepfake e clonagem de voz para alterar campanhas verdadeiras e dar veracidade aos anúncios. As publicações eram feitas por páginas falsas com nomes como 'Clube de Doadores' e 'Unidos pelo Amor'.
Descoberta e sofrimento da família
Kelen Santos relatou que a descoberta gerou sofrimento. 'Foi horrível. A gente perdeu o sono, eu chorei muito porque não era só questão da imagem dela. Mas eles estarem usando a nossa dor para se aproveitar, para ganhar dinheiro e principalmente pelas pessoas que estavam doando', afirmou.
Ela explicou que doadores procuravam a família nas redes sociais para comemorar a contribuição, sem saber que o dinheiro havia sido desviado. 'A pessoa dizia 'eu doei', feliz da vida que tinha contribuído para o tratamento dela. E daí a gente acabava dizendo para a pessoa 'não, a gente não tem nenhuma vaquinha, você acabou doando para um golpe'.'
Valores desviados e operação policial
Apenas na campanha falsa envolvendo a imagem da menina, a polícia rastreou R$ 294,5 mil desviados. A investigação também identificou uma empresa que funcionava como núcleo financeiro do grupo e que movimentou mais de R$ 1,7 milhão no período apurado.
Ao clicar nos anúncios, as vítimas eram direcionadas para sites que imitavam plataformas legítimas de arrecadação, como o Vakinha. Nessas páginas, era gerado um código Pix, e o dinheiro caía em contas de empresas de fachada controladas pelos criminosos.
Tratamento da criança e investigação
Apesar do uso indevido da imagem, a criança alvo dos criminosos teve uma campanha de arrecadação legítima no passado. A vaquinha verdadeira foi encerrada pela família após o valor necessário ser atingido. O tratamento foi realizado e a menina apresenta melhora no quadro de saúde.
A polícia ainda não sabe quantas crianças com doenças graves foram usadas pelo grupo para enganar doadores em todo o país. O caso é investigado pela Polícia Civil do Rio Grande do Sul, que deflagrou uma operação em cinco estados na terça-feira (14). Os suspeitos criavam páginas falsas para desviar os valores e devem responder por estelionato, organização criminosa e lavagem de dinheiro.
Presos e abrangência da operação
Na terça, 16 pessoas foram presas. As ordens judiciais foram executadas no Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul e Pernambuco. Além de Passo Fundo, no RS, a operação acontece nas cidades de Dourados (MS), Vitória de Santo Antão (PE), Francisco Beltrão e Cruzeiro do Iguaçu (PR), Piracicaba, São Paulo, São Vicente, Catanduva, Santana de Parnaíba e Sorocaba (SP).
Orientações da Polícia Civil
A Polícia Civil orienta que a população verifique a veracidade de campanhas de arrecadação antes de transferir valores. A recomendação é confirmar os dados diretamente com a família ou instituição e checar se o nome do destinatário do Pix corresponde ao beneficiário real.



