Médicas depõem sobre morte de criança no Hospital da Criança em São Luís
Médicas depõem sobre morte de criança no Hospital da Criança

Duas médicas do Hospital da Criança prestaram depoimento à Polícia Civil nesta quinta-feira (16) em São Luís, no âmbito do inquérito que investiga a morte de Bernardo, de 4 anos, atendido na unidade. As profissionais foram ouvidas por mais de três horas e deixaram a delegacia no início da tarde.

Morte de Bernardo e do irmão gêmeo Bento

Bernardo morreu no dia 2 de julho, seis dias após dar entrada no hospital, cerca de 13 horas depois da morte do irmão gêmeo, Bento. Segundo os pais, os irmãos foram levados ao Hospital da Criança no dia 27 de junho com sintomas de gripe. Bento chegou durante a madrugada em estado mais grave, foi diagnosticado com bronquiolite e precisou ser intubado, vindo a falecer em um leito de UTI. Bernardo, levado pela manhã, permaneceu por dois dias na sala de medicação e morreu na sala de estabilização, onde foi intubado.

Investigação e coleta de provas

As duas médicas ouvidas participaram do atendimento à criança. A família de Bernardo já havia prestado depoimento no início da semana. O delegado responsável solicitou ao hospital o prontuário médico, que será encaminhado ao Instituto Médico Legal (IML) para análise técnica dos procedimentos adotados. A pedido do Ministério Público do Maranhão (MP-MA), a Polícia Civil também abriu outro inquérito para investigar o suposto aumento do número de mortes nas UTIs do Hospital da Criança.

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Protesto com 101 cruzes

Na manhã desta quinta-feira, 101 cruzes foram colocadas em frente à unidade em um protesto silencioso organizado por conselheiros tutelares de São Luís, homenageando crianças que morreram no hospital. Segundo os organizadores, 113 crianças morreram na unidade desde o ano passado. O ato teve como objetivo prestar solidariedade às famílias e cobrar providências.

Inspeção da Defensoria Pública

O relatório final de uma inspeção realizada pela Defensoria Pública deve ser concluído até segunda-feira (20). Os defensores anteciparam que foram encontradas falhas graves que podem comprometer o atendimento nas UTIs, como apenas um médico trabalhando em cada uma das três UTIs, quando o mínimo seria de dois profissionais por setor. A inspeção também identificou médicos sem especialização em pediatria, falta frequente de medicamentos e demora na transferência de pacientes. A Defensoria informou que deve acionar órgãos estaduais e federais de fiscalização, além dos conselhos de Medicina e Enfermagem, e poderá entrar com ação judicial caso as mudanças não sejam realizadas.

Contratação emergencial e negociações

Um memorando da Secretaria Municipal de Saúde de São Luís solicita abertura de processo de contratação emergencial de médicos intensivistas pediátricos, considerando parâmetros da Anvisa. O documento afirma que o Ibemed, responsável pela administração das UTIs, pediu reequilíbrio econômico-financeiro do contrato, com impacto orçamentário de 114,25%, considerado não vantajoso pela prefeitura. Apesar disso, a secretária municipal de Saúde, Ana Carolina Marques, afirmou que não há contratação emergencial em andamento, que o contrato atual vale até 22 de julho e que negocia uma nova contratação via mediação do Ministério Público.

Denúncias de falhas no contrato

A Defensoria Pública acompanha o processo de contratação desde 2025. Segundo o defensor Davi Veras, a Secretaria Municipal de Saúde foi notificada em agosto de 2025 sobre possíveis falhas no edital. O IBMED começou a administrar as UTIs em 13 de outubro de 2025. Suspeita-se que o contrato considerou os 29 leitos como uma única unidade para calcular o número de profissionais, quando o estudo técnico previa equipe maior. Funcionários afirmam que, antes da troca de gestão, havia 53 médicos na equipe; após, alguns plantões passaram a ter apenas três médicos. Também há relatos de médicos sem especialização em pediatria, erros em receitas e falta de materiais.

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Mortes em 2026 e casos específicos

Documentos internos apontam que 65 crianças morreram no hospital entre janeiro e junho de 2026, sendo 53 nas UTIs, uma alta de 38,89% em relação ao mesmo período de 2025. Outro documento indica que mais da metade de 31 mortes registradas em 2025 poderia ter sido evitada. Um dos casos investigados é o de Otto, de 9 meses, que morreu após 17 dias de internação. A mãe, Leyciane Barbosa, afirma que precisou comprar luvas, sondas e medicamentos, e que o filho morreu por negligência. A declaração de óbito aponta choque séptico.

Resposta das autoridades

O IBMED nega irregularidades, afirmando que atualmente mais de 20 médicos integram a equipe. A Prefeitura de São Luís afirma que a assistência seguiu protocolos, que não há desabastecimento generalizado e que a variação de mortes entre 2024 e 2025 foi de 4,5% (de 112 para 117). O Conselho Regional de Medicina acompanha a situação, o Ministério Público Federal analisa a denúncia e o Ministério da Saúde apura as informações por meio do DenaSUS.