Um trabalhador de 65 anos foi resgatado de condições análogas à escravidão em uma fazenda isolada no sudoeste do Pará, no interior da Estação Ecológica Terra do Meio, em Altamira. O resgate, ocorrido em 14 de julho, só foi possível com o uso de um helicóptero da Polícia Federal, que levou duas horas para chegar ao local a partir do centro de Altamira. As imagens divulgadas pelo Ministério Público do Trabalho do Pará (MPT-PA) mostram o isolamento extremo da propriedade, acessível apenas por barco ou via aérea.
Condições degradantes e isolamento total
Segundo a Auditoria-Fiscal do Trabalho, desde 2018 o idoso vivia na fazenda sem água potável, com alimentação precária e em moradia degradante. Ele consumia água retirada diretamente de um rio, armazenada em recipientes reutilizados de óleo lubrificante de motor, e esperava a decantação do barro antes de beber, mas a água ainda permanecia turva e imprópria. A casa tinha goteiras, madeiras desalinhadas e piso de terra batida; a cama era coberta de detritos e dividia espaço com lixo acumulado. Não havia banheiro — as necessidades eram feitas no mato — e o banho era tomado no rio, onde o trabalhador já foi ferroado por arraias.
O idoso foi picado duas vezes por jararacas e precisava matar morcegos que atacavam os porcos à noite. Ele era responsável pela manutenção e conservação da propriedade, vigilância da fazenda, manutenção da pista de pouso, manejo dos animais e cultivo de pequenas lavouras para subsistência. Quando precisou de atendimento médico por fortes dores nos rins, caminhou 27 quilômetros em mata fechada durante cerca de um dia e meio até alcançar o local onde morava outro trabalhador.
Alimentação precária e longos períodos sem mantimentos
A cozinha era uma estrutura rústica de madeira, aberta em duas laterais, exposta a animais e vetores. Os alimentos eram preparados em um fogão a lenha improvisado, coberto por fuligem. Mantimentos abertos e frutas ficavam armazenados diretamente sobre uma mesa suja, junto a ferramentas de trabalho. Segundo o trabalhador, a alimentação era composta basicamente por arroz, feijão, óleo, sal e alguns temperos enviados esporadicamente pelo empregador. Ele passou anos sem consumir carne bovina ou de frango; do rio, pescava piranhas e consumia apenas a cabeça, destinando o restante aos porcos. Em 2025, ficou cerca de três meses sem receber mantimentos, sobrevivendo apenas de abóboras que cultivava e das piranhas que pescava, preparadas somente com óleo e sal.
Resgate e reparação
Após o resgate, o MPT informou que o trabalhador foi inserido na rede de proteção socioassistencial de Altamira, recebeu atendimento médico e psicológico. "O idoso está em um abrigo e, em breve, deve encontrar-se com familiares para retornar ao município onde residem familiares que não tinham notícias por anos do trabalhador", informou o MPT. A força-tarefa providenciou emissão de nova carteira de identidade, inscrição no CPF, encaminhamento para atendimento médico e início dos procedimentos para requerimento de benefício previdenciário ou assistencial. Foram adquiridas roupas, produtos de higiene, alimentos e um telefone celular, que permitiram restabelecer contato com familiares.
Um Termo de Ajustamento de Conduta foi firmado no valor de R$ 120 mil, entre verbas rescisórias e reparação de danos morais. A operação contou com a participação do MPT, da Defensoria Pública da União (DPU) e da Polícia Federal. As denúncias tiveram origem em inspeções anteriores do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e do próprio MPT. Casos de trabalho análogo à escravidão podem ser denunciados anonimamente pelo Sistema Ipê, no site da Secretaria de Inspeção do Trabalho.



