Haddad defende operação contra vereador do PT preso por ligação com PCC
Haddad defende operação contra vereador do PT preso por PCC

O pré-candidato do PT ao governo de São Paulo, Fernando Haddad, defendeu nesta quinta-feira (25) a operação que prendeu o vereador Senival Moura, do seu partido, por suposta ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC). Durante a coletiva em que anunciou Márcio França (PSB) como vice na chapa para outubro, Haddad disse que "questões éticas não são partidárias" e que "ninguém está imune a investigações".

Haddad critica investigação seletiva

"Questão ética não é partidária. As pessoas são responsáveis pelos seus atos e ninguém pode estar imune às investigações. Torço para que tudo seja passado a limpo no Brasil e não deve haver investigação seletiva, com busca e apreensão ou operação só de um lado. Ideologia não é salvaguarda pra nada e ninguém", declarou Haddad. Ele também citou as relações do governo de São Paulo com o Banco Digimais, do bispo Edir Macedo, e defendeu que o Ministério Público investigue a gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos) sobre o assunto. "Qualquer ato ilícito tem que ser punido, sem perseguição seletiva", afirmou.

Questionamentos sobre contratos públicos

Haddad questionou a mudança de critérios para o consignado de servidores estaduais que favoreceu o Digimais. "A gestão Tarcísio também precisa esclarecer o motivo de ter mudado os critérios de adesão do consignado dos servidores estaduais para favorecer o Digimais. Depois do assunto ter sido indeferido na Fazenda, mudou para a Secretaria de Gestão. Foi um revés para salvar a situação de um banco que todo mundo sabia que estava em dificuldade?", indagou. O petista também defendeu a investigação do contrato de wi-fi livre da Prefeitura de SP com a ONG Instituto Conhecer Brasil (ICB), da empresária Karina da Gama. "Hoje mesmo saiu na 'Folha' que a ONG deu R$ 12 milhões para uma empresa cujo dono é do PCC e está preso. O que a Polícia e o Ministério Público vão fazer sobre a gestão do Ricardo Nunes? Tem que investigar também", sentenciou.

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PT se posiciona sobre prisão

O presidente do Diretório Municipal do PT em São Paulo, Hélio Rodrigues, afirmou que "o PT não compactua com o crime organizado" e que ficou "surpreso" com a prisão do vereador Senival Moura. Em nota, o Diretório Municipal informou que "acompanhará atentamente o desenrolar das investigações" e que "a direção partidária determinou o encaminhamento do caso à Comissão de Ética, nos termos do Estatuto do PT. O procedimento poderá resultar nas medidas disciplinares cabíveis, inclusive no afastamento cautelar e na eventual expulsão do filiado, assegurados o amplo direito de defesa, o contraditório e o devido processo legal". O vereador não aparecia no quadro de diretores formais da viação, mas tomava decisões, até mesmo financeiras. Ele foi identificado em mensagens de celular e planilhas pelo codinome 'véio', segundo o documento. O g1 procurou a defesa do vereador, mas não recebeu retorno.

Operação Última Parada

A Polícia Civil e o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) deflagraram na manhã desta quinta-feira a Operação Última Parada, contra um esquema de lavagem de dinheiro do PCC no transporte público. Foram cumpridos cinco mandados de prisão temporária e 104 de busca e apreensão. Os presos são o vereador Senival Moura (PT), Jair Ramos de Freitas ("Cachorrão"), diretor informal da empresa, e Devanil de Souza Nascimento ("Sapo"), motorista e homem de confiança do vereador. Também são alvos Lourival Monário ("Orelha"), atual presidente, acusado de ser nomeado pelo PCC para garantir o escoamento de recursos ilícitos, e Leonel Moreira Martins ("Cabeça Branca"), supervisor operacional que atuava como interlocutor direto do PCC dentro da empresa.

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Impacto no transporte público

A operação determinou o bloqueio de 117 veículos, 3 embarcações, o sequestro de 21 imóveis e o bloqueio de R$ 194.457.851,90 em contas dos alvos. Os investigados são acusados de organização criminosa, lavagem de dinheiro e fraudes em licitações. A diretoria da Transunião foi afastada e a Prefeitura de São Paulo foi comunicada. Em nota, a Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana e Transporte (SMT) e a SPTrans informaram que "a operação dos ônibus da empresa Transunião segue funcionando, com a frota atendendo normalmente as linhas sob sua responsabilidade e sem prejuízo ao atendimento da população". O prefeito Ricardo Nunes (MDB) afirmou estar acompanhando os desdobramentos e que "as medidas cabíveis em relação à empresa Transunião serão tomadas assim que a administração for notificada pelos órgãos competentes". A Transunião opera 51 linhas e transporta 389 mil passageiros por dia, principalmente na Zona Leste.

Origens da investigação

O inquérito começou a partir da investigação do assassinato de Adauto Soares Jorge, ex-presidente da Transunião, executado em 2020. Documentos manuscritos do PCC ("salves") revelaram que Adauto e o vereador Senival haviam sido condenados à morte por supostos desvios de valores da facção. "A facção teria descoberto que Adauto desviava dinheiro da empresa para subsidiar uma espécie de 'caixa dois' para as eleições de 2020, privilegiando diretamente Senival em sua campanha à reeleição", diz trecho da manifestação do MP. As investigações apontam que Senival concordou com a execução de seu braço-direito e foi "perdoado" em razão de sua influência política e capacidade de ressarcir o prejuízo. Após o crime, o PCC nomeou Lourival Monário e Jair Ramos de Freitas para assumir a presidência e direção da Transunião. Jair é apontado como executor dos disparos que mataram Adauto. A viação recebeu mais de R$ 300 milhões do sistema de transportes paulistano apenas em 2025.

Esquema de lavagem e conexões

Segundo o MP-SP e a Polícia Civil, a Transunião tinha um núcleo paralelo que tomava decisões operacionais e autorizava transferências para criminosos ligados ao PCC. A fraude atingiu a constituição da empresa: o capital social saltou de pouco mais de R$ 100 mil para mais de R$ 50 milhões sem comprovação de origem. Essa elevação fraudulenta permitiu à Transunião participar e vencer licitações da Prefeitura. O esquema tem ligação com outras investigações, como a Carbono Oculto, a Vérnix e a Operação Mafiusi, que expôs a ligação direta entre o PCC e a máfia italiana 'Ndrangheta. Em 2024, a Operação Fim da Linha já havia desarticulado grupos suspeitos de lavar dinheiro através da Upbus e da Transwolff, que transportavam cerca de 700 mil passageiros por dia e receberam mais de R$ 800 milhões em 2023.