Os registros policiais de bullying e cyberbullying contra crianças e adolescentes no Brasil cresceram 67,3% em 2025 na comparação com o ano anterior, segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) nesta quinta-feira (23). Foram 5.226 ocorrências somando as duas práticas envolvendo vítimas de 0 a 17 anos no ano passado, ante 3.161 em 2024. Foi o maior crescimento entre todos os indicadores de violência contra crianças e adolescentes analisados pela publicação.
Os dois crimes passaram a existir formalmente no Código Penal em 2024, com a Lei nº 14.811/2024, que tipificou a 'intimidação sistemática' (bullying) e a 'intimidação sistemática virtual' (cyberbullying). Apesar do crescimento nos registros policiais, o Anuário destaca que eles captam apenas uma fração do problema. Segundo Cauê Martins, sociólogo e pesquisador no Fórum Brasileiro de Segurança Pública, parte do salto reflete a assimilação da nova lei pelos sistemas de registro e pela sociedade, e não somente um aumento da violência.
Segundo o pesquisador, os boletins de ocorrência tendem a refletir apenas os casos mais graves ou persistentes, que extrapolam a capacidade de resposta das escolas. Martins compara os números policiais com os dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024), do IBGE, que mostram que quatro em cada dez estudantes de 13 a 17 anos afirmam já ter sofrido bullying na escola — um universo muito maior que as pouco mais de cinco mil ocorrências registradas pelas polícias em 2025. 'A gente percebe como ainda é uma parcela mais restrita dos casos que chega à polícia. A tendência é que nos próximos anos os registros de bullying e cyberbullying continuem a crescer por serem tipos penais novos, então tanto as próprias políticas estão se adaptando a esse novo registro, quanto a população brasileira, que ainda está entendendo o fenômeno', analisa Martins.
Crescimento de bullying e cyberbullying por tipo e estado
Separados por tipo de intimidação, o crescimento também ficou acima de 60% nos dois casos: os registros de bullying subiram 68,2%, de 2.736 para 4.549 ocorrências, e os de cyberbullying avançaram 61,4%, de 425 para 677. Juntos, os crimes somaram uma taxa de 11,7 registros por 100 mil crianças e adolescentes em 2025, contra 7,0 no ano anterior.
O avanço dos registros também varia entre os estados. São Paulo, por exemplo, mais que dobrou o número de casos de bullying entre crianças e adolescentes (de 599 para 1.396, alta de 135,9%) e de cyberbullying (de 69 para 145, alta de 112,7%). Estados que partiam de bases muito pequenas em 2024, como Maranhão e Mato Grosso do Sul, registraram os maiores saltos proporcionais — o que, segundo o Fórum, reforça a hipótese de que a expansão decorre, em parte, da consolidação dos novos sistemas de notificação.
Os dados mostram ainda que a violência entre pares se concentra a partir dos 10 anos de idade. As maiores taxas de bullying aparecem entre crianças de 10 a 13 anos (21,0 por 100 mil) e adolescentes de 14 a 17 anos (19,9 por 100 mil). Já o cyberbullying atinge seu pico um pouco mais tarde, aos 14 anos, acompanhando a maior presença de adolescentes nas redes sociais.
Feminicídios batem recorde e assassinatos caem
As conclusões do Anuário de Segurança Pública de 2025 mostram que os feminicídios bateram recorde, indo na contramão da redução das mortes violentas como um todo. Quatro mulheres foram mortas por dia, em média. O Brasil registrou o menor número de assassinatos desde 2012, quando começou o levantamento do Fórum. Foram 40.775 vítimas, queda de 8% em relação a 2024.
Outros indicadores de violência contra a mulher registraram alta: mais casos de violências psicológicas (17%), stalking (30%), descumprimento de medida protetiva (17%) e ameaças (0,5%). O Brasil teve três tentativas de feminicídio para cada crime consumado ao longo de 2025.
As dez cidades mais violentas no país ficam no Nordeste, metade na Bahia. Maranguape (CE) lidera ranking pelo 2º ano seguido e foi o único município a superar a taxa de 100 mortes violentas por 100 mil habitantes. Santa Catarina registrou 7,6 mortes violentas por 100 mil habitantes e se tornou o estado com a menor taxa do país. São Paulo ocupava essa posição desde 2014.
Outros indicadores: mortes por policiais, abuso sexual e sistema prisional
As mortes cometidas por policiais aumentaram 5% no ano passado, enquanto o número de policiais mortos caiu 3%. Os registros de produção, posse ou distribuição de conteúdos de abuso sexual infantil cresceram 25%. Os casos de bullying e cyberbullying cresceram mais de 60% entre jovens, após a criação de tipo penal específico em 2024.
A quantidade de adolescentes que cumprem medida socioeducativa no Brasil caiu 54% em 9 anos: são 12,2 mil jovens, a maioria meninos (93%), negros (74%) e entre 16 e 18 anos (76%). As ocorrências mais comuns são roubo (29%) e tráfico de drogas (28%). O número de pessoas no sistema prisional cresceu 6% e chegou a 964 mil. O estudo prevê que, se mantida a tendência, o Brasil pode bater 1 milhão de presos já em 2027. Há 2,1 milhões de empresas e pessoas autorizadas a ter armas — desse total, 1 milhão têm licença de CAC (Caçadores, Atiradores e Colecionadores) — e 1,6 milhão de armas cadastradas. Três em cada 10 armas estão com registro vencido.



