FAB divulga relatório final da queda da Voepass em Vinhedo após 713 dias
FAB divulga relatório final da queda da Voepass em Vinhedo

A Força Aérea Brasileira (FAB) levou 713 dias para concluir a investigação sobre a queda do avião da Voepass, que matou 62 pessoas, em Vinhedo, no interior de São Paulo, em agosto de 2024. A instituição vai divulgar nesta quinta-feira, 23, o relatório final das causas do desastre.

Investigação mais rápida que a média

A análise do episódio foi mais rápida do que a média das 2.051 investigações concluídas desde 2007, quando os casos passaram a ser digitalizados e tabelados. Não há prazo para a conclusão. Em média, a Aeronáutica leva 1.012 dias para investigar um acidente aéreo, o que equivale a 2 anos e 9 meses. Na tragédia da Voepass, levou um ano, 11 meses e 14 dias.

“A FAB reforça sua transparência e seu compromisso com toda a sociedade em concluir as investigações no menor prazo possível”, informou a instituição em nota.

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Trabalho do Cenipa e inquérito policial

A apuração é conduzida por técnicos do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) da FAB. O objetivo não é apontar um “culpado”, mas identificar as causas do acidente para evitar que casos semelhantes se repitam. O Cenipa considera desde o cenário climático no dia da ocorrência até os fatores psicológicos da tripulação para chegar à conclusão. Ao mesmo tempo, um inquérito policial apura as responsabilidades civis e criminais.

O trabalho do Cenipa começa no próprio dia do acidente, indo à cena para coletar informações e entrevistar testemunhas. Um relatório preliminar, com as informações iniciais, é divulgado em um prazo de 30 dias. As causas e os fatores que contribuíram são divulgados no relatório final sobre o acidente, junto a recomendações para evitar novos episódios similares.

Comparação com acidentes anteriores

Na tragédia do avião da TAM em julho de 2007, quando 199 pessoas morreram no Aeroporto de Congonhas, o Cenipa levou 837 dias para apresentar as conclusões. Entre as recomendações, estavam: Anac deveria intensificar a fiscalização, aprimorando exigências de segurança para pistas molhadas e para áreas de escape nas pistas dos aeroportos, e requisitar a aprovação prévia e posterior de obras aeroportuárias; Infraero (à época responsável por Congonhas) deveria implementar áreas de escape das pistas e garantir a manutenção rigorosa das condições adequadas para pousos e decolagens; TAM deveria melhorar o treinamento das tripulações e cumprir toda a lista de equipamentos mínimos; Airbus deveria melhorar as sinalizações da aeronave sobre equipamentos com erros.

Estatísticas de acidentes aéreos no Brasil

O Cenipa investiga todos os acidentes aeronáuticos no País, seja em voos comerciais, privados, militares ou de instrução. Nos últimos 10 anos, de janeiro de 2016 a julho de 2026, o Brasil registrou 1.644 acidentes aéreos, dos quais 384 foram fatais. Houve 799 mortes no período. O Ministério de Portos e Aeroportos afirma que as investigações “são fundamentais para o aperfeiçoamento de procedimentos e condutas”. Já a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) afirma exigir e fiscalizar um conjunto de normas de segurança, de acordo com os padrões internacionais. As medidas ainda incluem a obrigatoriedade de treinamentos e certificação de empresas e profissionais para poderem atuar no setor.

Definição de acidente aeronáutico

São considerados acidentes aeronáuticos os seguintes casos: ferimento grave ou morte de pelo menos um passageiro ou tripulante em decorrência direta de estarem dentro de uma aeronave (não inclui morte por causas naturais que ocorra durante voos); danos ou falhas estruturais que afetem o voo ou que exijam grandes reparos na nave, mesmo que sem registro de feridos; e o desaparecimento de aeronaves.

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Relatório parcial aponta falhas múltiplas

Um relatório parcial do Cenipa apontou que a queda do avião foi causada por um conjunto de falhas de pilotos, da empresa e da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). O documento foi revelado pela Folha de S. Paulo e confirmado pelo Estadão, no início deste mês. De acordo com a versão preliminar, a Voepass ignorou falhas de segurança. O Cenipa também identificou um contexto organizacional deficiente na empresa, que tolerava desvios e desprezava alertas, como em relação a problemas no sistema de degelo da aeronave que já tinham sido detectados em viagens anteriores.

O documento parcial também diz que houve “distração” dos pilotos durante o voo que partiu de Cascavel (PR), com destino a Guarulhos, em São Paulo, no dia 9 de agosto de 2024. A conduta, marcada por conversas informais durante procedimentos críticos, teria oferecido elevado risco ao voo. Em relação à Anac, o relatório diz que a agência não foi capaz de tomar decisões que mitigariam os riscos, apesar de fiscalizações terem apontado a ausência de padrões técnicos na manutenção das aeronaves da companhia. A agência informou que ainda não teve acesso ao documento e que só vai se posicionar quando houver um relatório final oficialmente enviado para ela. Procurada, a Voepass não se manifestou ao Estadão. Em resposta à Folha, a companhia afirmou que não comentaria os apontamentos e que segue colaborando com as autoridades de forma transparente e diligente.

Detalhes do acidente

O voo com origem em Cascavel, no Paraná, tinha como destino Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo. No início da tarde de 9 de agosto de 2024, o avião ATR-72-500 da Voepass caiu em Vinhedo, matando 62 pessoas. Os quatro tripulantes e seus 58 passageiros morreram após o impacto do avião bimotor contra o quintal de uma casa em um condomínio. Alguns corpos ficaram carbonizados. A aeronave despencou 13 mil pés (4 mil metros) em dois minutos. O registro de voo no Flight Radar mostrou que o avião estava a 17 mil pés de altitude às 13h20 e a 4 mil pés (1,22 km) às 13h22, quando o sinal de GPS foi perdido pela plataforma. O avião caiu cerca de 20 minutos antes de pousar e atingiu casas do condomínio residencial. O piloto do avião, Danilo Santos Romano, comentou sobre uma falha no sistema de degelo da aeronave. A informação foi divulgada em relatório preliminar apresentado pelo Cenipa, no dia 6 de setembro daquele ano. Foram registrados também alertas de baixa velocidade de cruzeiro e de desempenho degradado — quando o avião encontra condições que reduzem sua capacidade de voo, já que o acúmulo de gelo prejudica a sustentação da aeronave.