Documentos obtidos pelo Jornal Nacional revelam como o governo dos Estados Unidos identificou os primeiros brasileiros sancionados por suposta ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC). A investigação aponta que a quadrilha utilizava entregadores de dinheiro vivo para fazer depósitos em bancos americanos, lavando recursos do tráfico de drogas. O ponto de partida foi o indiciamento de cinco brasileiros que moravam em Orlando, na Flórida, presos em janeiro de 2026. Na Justiça, eles confessaram ter lavado dinheiro para o tráfico.
Confissão leva a novo núcleo no Brasil
Segundo a Polícia Federal americana, o FBI, os acusados fazem parte de uma sofisticada organização de lavagem de dinheiro espalhada por vários países, inclusive por estados americanos. O núcleo criminoso era comandado nos Estados Unidos por Ygor Saviolli. As autoridades afirmam que o grupo atuava em 12 cidades americanas, formado por entregadores que recolhiam o dinheiro do tráfico e faziam depósitos em espécie em várias agências bancárias, para depois ocultar e devolver os valores a fornecedores de drogas. Ao todo, o grupo movimentou o equivalente a R$ 156 milhões em pouco mais de dois anos. Os brasileiros indiciados podem pegar até 20 anos de prisão.
A confissão dos entregadores poderia encerrar o caso, mas para a inteligência americana rastrear os depósitos era apenas o primeiro passo. Seguindo o rastro do dinheiro, os investigadores descobriram outro núcleo da rede no Brasil: quem recebia as quantias milionárias e como os valores saíam dos Estados Unidos para chegar a traficantes de drogas no país. Foi assim que surgiram os nomes de Victor Shimada e Stella de Oliveira — os principais alvos das sanções anunciadas na quarta-feira (1º). Para despistar as autoridades, os dois usavam apelidos: Shimada era "o Japa"; Stella, "Lara Croft".
Uso de criptomoedas e empresas de fachada
Segundo a acusação, Stella organizava a coleta do dinheiro, e Shimada era o elo com os traficantes ligados ao PCC no Brasil. Ele transformava os milhões de dólares em dinheiro em moedas virtuais, que depois eram lavadas em empresas de fachada, até chegar aos criminosos brasileiros sem deixar rastro. Como o PCC é classificado como grupo terrorista pelos Estados Unidos, o Tesouro americano bloqueou os bens de Stella, Shimada e suas empresas — as mesmas já investigadas pela Polícia Civil de São Paulo por lavagem de dinheiro e fraudes no Brasil. Shimada já foi condenado por lavar dinheiro retirado ilegalmente de um banco e também é réu no caso dos desvios do patrocínio entre Corinthians e a empresa de apostas Vai de Bet.
Reações oficiais
Em nota, a Secretaria Nacional de Justiça afirmou que o combate ao crime organizado não deve servir de pretexto para medidas unilaterais que desconsiderem a cooperação jurídica e os tratados internacionais, e que as medidas podem gerar efeitos indiretos sobre instituições financeiras estrangeiras, inclusive brasileiras. O advogado de Vítor Shimada disse que o empresário nega qualquer envolvimento com organização criminosa e com a prática de lavagem de dinheiro. O Jornal Nacional não conseguiu contato com as defesas de Stella de Oliveira e Ygor Saviolli.



