Os confrontos entre facções rivais ganharam um novo campo de batalha: os céus do Rio. Desde março, foram pelo menos sete casos de explosão de artefatos lançados por drones, seja em treinamentos de criminosos, seja em ataques. A maioria ocorreu nos últimos três meses, período em que as disputas territoriais se intensificaram. O episódio mais recente aconteceu no sábado, quando duas pessoas que montavam brinquedos em uma festa infantil de rua ficaram feridas após uma bomba ser lançada por um equipamento desse tipo na Favela dos Dourados, em Cordovil, na Zona Norte.
Ataque na Favela dos Dourados
A comunidade, que tem a maior parte de seu território controlada pelo Comando Vermelho (CV), vem sendo alvo de ataques feitos por traficantes do Terceiro Comando Puro (TCP) ligados a Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão. O criminoso, um dos chefes da facção, domina favelas vizinhas — Parada de Lucas, Cidade Alta, Vigário Geral, Pica-Pau e Cinco Bocas —, região apelidada por ele de Complexo de Israel.
Treinamento frustrado no Complexo da Penha
Antes do ataque à Favela dos Dourados, na madrugada do dia 31, uma granada explodiu e atingiu um imóvel no Complexo da Penha durante um suposto treinamento para o uso de drones em guerras ou no monitoramento de rivais e da polícia. O conjunto de favelas tem o tráfico de drogas comandado por Edgar Alves de Andrade, o Doca ou Urso. Segundo a polícia, ele é suspeito de integrar a cúpula do CV e de ordenar ataques a territórios controlados por outras facções.
A polícia investiga a informação de que um “aulão” para ensinar como usar esses equipamentos chegou a ser marcado no Complexo da Penha. O evento foi anunciado em uma postagem feita nas redes sociais por uma pessoa ligada a um traficante da região. Imagens recebidas pela Polícia Civil mostram homens armados com fuzis caminhando em direção ao suposto local de treinamento. À frente deles, uma mulher, que carregava uma criança, abria caminho para a passagem dos suspeitos. Em outra imagem, oito fuzis podem ser vistos encostados em uma parede.
Cancelamento por causa do vento
A aula para operar os drones, marcada para 17 de julho, no entanto, acabou não ocorrendo. O cancelamento teria ocorrido devido às condições meteorológicas desfavoráveis: ventos fortes. Um policial que investiga o tráfico no Complexo da Penha revelou que os bandidos, além de utilizarem drones para lançar granadas, também têm veículos não tripulados capazes de localizar outras aeronaves do mesmo tipo.
— Eles usam os drones para fazer monitoramento. O equipamento funciona como se fosse um radar. Ele é capaz de informar se há outro drone na área e de onde a aeronave está sendo operada — explicou o investigador.
Vítimas dos ataques com drones
Os feridos na explosão ocorrida na Favela dos Dourados não são as únicas vítimas do perigo que vem do céu. No dia 29 de maio, um adolescente de 15 anos sofreu uma fratura exposta em uma das pernas. Ele estava no Morro da Caixa D’Água, na Penha, quando um drone teria lançado uma granada no local. Quase dois meses antes, no dia 30 de março, outro explosivo atingiu um imóvel na Vila do Sapê, em Curicica, na Zona Sudoeste. O caso aconteceu durante um ataque de traficantes do CV a uma área com territórios dominados pela milícia.
Os outros casos ocorreram em junho e julho. Os que mais chamaram a atenção foram o de um prédio atingido por um artefato no Parque Dois Irmãos, em Curicica, e o de uma granada encontrada sobre uma creche na Favela do Dique, no Jardim América, na Zona Norte. Neste último episódio, o explosivo foi encontrado intacto e precisou ser detonado por policiais do Esquadrão Antibombas.
Moradores traumatizados
Um morador de uma comunidade de Curicica, que não teve o nome divulgado por questão de segurança, contou estar traumatizado com as explosões de bombas lançadas por drones:
— Parece que estamos num campo de guerra. Vivemos traumatizados com bombas que são lançadas por drones sobre as nossas casas.
Equipamentos chineses e resposta policial
No fim de março, a Polícia Civil anunciou a compra de drones chineses de seis modelos diferentes — entre eles, os que têm sensores térmicos para localizar suspeitos escondidos em áreas de mata e aqueles capazes de captar imagens noturnas. Na mesma ocasião, a corporação informou ter criado a Coordenadoria de Operações com Aeronaves Não Tripuladas (Coant). O novo setor, subordinado à Subsecretaria de Integração Operacional, dará apoio a operações policiais e ajudará em ações de inteligência, como, por exemplo, o mapeamento de determinadas áreas.
Os drones estão incluídos em um pacote de aquisição de equipamentos de inovação tecnológica para a Polícia Civil. Nos dois últimos anos, os gastos — que incluem ainda a compra de softwares para extração de dados telemáticos — chegaram à casa de R$ 2,1 milhões.
Em nota, a Polícia Militar informou que “não possui, até o momento, um levantamento estatístico específico sobre ocorrências envolvendo o lançamento de granadas por drones”. Acrescentou que o uso desses equipamentos por organizações criminosas “representa uma evolução das táticas utilizadas por esses grupos”.
Procurada, a Polícia Civil afirmou que monitora “o uso de tecnologias empregadas por essas facções para dificultar a ação das forças de segurança”. Segundo a polícia, as delegacias “realizam diligências contínuas para mapear o uso de drones por criminosos”.



