Doméstica resgatada após 55 anos sem salário em condomínio de luxo no CE
Doméstica resgatada após 55 anos sem salário no CE (08.07.2026)

Resgate após 55 anos de trabalho não remunerado

Uma mulher de 62 anos foi resgatada em condições análogas à escravidão em um condomínio de luxo no município de Eusébio, região metropolitana de Fortaleza, após 55 anos de trabalho doméstico sem receber salário. A vítima, que começou a trabalhar aos 7 anos, cuidava da casa e das crianças da família empregadora, composta por advogados, médicos veterinários e servidores públicos.

Rotina exaustiva e falta de autonomia

A rotina da mulher começava diariamente por volta das 4h30, quando preparava o café da família e organizava a saída das crianças para a escola. Segundo a Auditoria-Fiscal do Trabalho (AFT), ela realizava limpeza, preparo dos alimentos, organização da residência e acompanhamento dos menores. A vítima não tinha vida pessoal, não sabe ler, não possui conta bancária e nunca namorou. “Ela vivia em uma prisão induzida. Não sabe se locomover na cidade, tem medo da violência lá fora. Ela se sentia 'paga' pelos trabalhos porque recebia roupa, comida e moradia”, descreveu Maria Neuzeli, auditora fiscal do Trabalho e coordenadora do Grupo Especial de Fiscalização Móvel (GEFM) para erradicação do trabalho escravo doméstico.

Histórico de exploração desde a infância

De acordo com a AFT, a mãe da vítima trabalhou para a família exploradora até os 14 anos. Ao casar, voltou para Padre Marcos, no Piauí, onde teve seis filhos. Anos depois, a matriarca da família foi até lá e trouxe a ex-funcionária e duas filhas, incluindo a vítima. A mãe morreu, mas antes teria “dado” a menina de 7 anos a uma das filhas da matriarca. A criança cresceu na primeira residência até 1982, quando a filha da matriarca casou e teve filhos, e a empregada foi morar com ela. Em 2014, a neta da matriarca casou e a vítima passou a cuidar dos bisnetos.

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TAC prevê indenização e imóvel

Os empregadores firmaram um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) com o Ministério Público do Trabalho (MPT), assumindo obrigações como regularização dos recolhimentos previdenciários, pagamento de R$ 50 mil em verbas rescisórias e aquisição de um imóvel residencial no valor mínimo de R$ 150 mil, além de mobiliário e eletrodomésticos. O acordo também prevê custeio das contribuições previdenciárias até a aposentadoria e complementação financeira de até R$ 12 mil caso ela complete 64 anos sem acesso ao benefício. Estima-se que os créditos trabalhistas ultrapassem R$ 1,5 milhão.

Família nega acusações

Em nota, a família empregadora, representada pelo escritório BFB Advogados Associados, “nega com veemência as acusações divulgadas até o momento, que não retratam a relação de convivência, cuidado e afeto construída ao longo de décadas”. A defesa afirma que “em nenhum momento houve resgate” e que a mulher recebeu remuneração, férias, plano de saúde e contribuições previdenciárias. A família diz que firmou o TAC para colaborar com as autoridades e que apresentará provas documentais.

Acompanhamento psicossocial

A vítima permanece temporariamente na casa dos empregadores, sob acompanhamento da equipe psicossocial do Centro de Referência em Direitos Humanos da Secretaria dos Direitos Humanos do Ceará (CRDH/Sedih). Segundo a AFT, “a permanência temporária da vítima no imóvel, por razões relacionadas ao acompanhamento psicossocial e à construção de sua autonomia, não altera a caracterização do resgate”. A mulher passará por processo de escolarização. A família biológica já foi identificada, mas o contato será gradual para não prejudicar a reaproximação.

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