O Comando Vermelho (CV) utilizava um clube recreativo na Zona Norte do Rio e uma pousada em Armação dos Búzios para lavar dinheiro do tráfico de drogas, em um esquema que movimentou mais de R$ 11 milhões, conforme a Polícia Civil. A corporação deflagrou, nesta terça-feira, a Operação Quimera, com mandados de busca e apreensão para desarticular a estrutura financeira da organização criminosa.
Investigação aponta domínio informal de clube
As investigações revelaram que aliados da facção chegaram a assumir, de forma informal, a administração do Várzea Country Clube, em Água Santa, Zona Norte do Rio. Eles controlavam eventos, movimentações financeiras e decisões internas, sem qualquer vínculo jurídico ou estatutário com a instituição.
A operação é conduzida por agentes da 52ª DP (Nova Iguaçu), com apoio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ). Os policiais cumprem mandados em dez endereços na capital fluminense e na Região dos Lagos, incluindo o Várzea Country Clube, imóveis ligados aos investigados e a pousada em Búzios. A Justiça também determinou o bloqueio de valores e ativos financeiros, a indisponibilidade de bens móveis e imóveis, restrições sobre veículos e participações societárias, além da quebra dos sigilos bancário e fiscal.
Ameaças e extorsão a clube
De acordo com a investigação, o caso começou após dirigentes do Social Clube Marabú denunciarem ameaças para deixar a administração da entidade e entregar o controle a pessoas ligadas ao tráfico. As intimidações teriam sido determinadas por Jeam Carlos do Nascimento Santos, conhecido como “Jeam do 18”, apontado como liderança do tráfico local. O grupo exigia pagamento mensal de R$ 6 mil para permitir o funcionamento do estabelecimento sem represálias.
No decorrer das apurações, os agentes identificaram esquema semelhante no Várzea Country Clube, que se tornou o principal alvo da Operação Quimera. Pessoas de confiança da organização criminosa teriam assumido informalmente a administração do local, controlando eventos, finanças e decisões internas, mesmo sem vínculo formal.
Núcleo familiar na gestão financeira
As apurações identificaram um núcleo familiar responsável pela gestão financeira paralela do clube. Amauri Paixão Ferreira, Rayane Ferreira Santos de Souza Paixão e Átila Paixão Ferreira atuavam como administradores de fato. Amauri aparece como um dos principais elos financeiros, enquanto Rayane teria atuado conjuntamente na administração paralela. Átila movimentou cerca de R$ 2,4 milhões em apenas seis meses, apesar de não possuir atividade empresarial formal compatível.
Outro investigado, Jonathan Paixão Baptista, primo de Amauri e Átila, realizou 44 transferências via PIX que somaram cerca de R$ 240 mil para Átila. Ele figura como autor em pelo menos 20 procedimentos policiais, muitos relacionados a roubos de carga, e não possui atividade formal compatível com os valores movimentados.
Movimentações incompatíveis com renda declarada
A investigação também identificou a atuação de Michele Arnoso, que movimentou aproximadamente R$ 2,23 milhões em seis meses, embora declarasse exercer a função de recepcionista, com renda de cerca de R$ 3,2 mil. Ela recebeu cerca de R$ 253 mil de Amauri em seis transferências no mesmo período.
A análise dos Relatórios de Inteligência Financeira (RIF) revelou movimentações milionárias incompatíveis com a renda oficialmente declarada. Os documentos apontam intensa circulação de recursos entre familiares, empresas e pessoas físicas, por meio de transferências bancárias, depósitos em espécie e operações fracionadas via PIX.
Pousada em Búzios como destino de recursos
As investigações identificaram ainda a ligação do grupo com uma pousada em Armação dos Búzios, que pode ter sido usada para lavar dinheiro do tráfico. O estabelecimento tem 16 quartos, cinco funcionários e diárias de aproximadamente R$ 540 na alta temporada. Apesar disso, movimentou cerca de R$ 3,44 milhões em pouco mais de seis meses e registrou 602 depósitos em espécie, totalizando aproximadamente R$ 955 mil.
Segundo a investigação, a pousada tem ligação direta com o núcleo do Várzea Country Clube. Embora outra pessoa figure formalmente como sócia, o e-mail cadastrado contém o nome de Rayane, apontada como administradora informal do clube. Os investigadores também identificaram transferências entre Rayane, a sócia formal e a empresa, indicando um circuito financeiro entre a administração informal do Várzea e o empreendimento em Búzios.
A hipótese da Polícia Civil é que parte dos valores tenha sido direcionada à pousada para ingressar no circuito empresarial formal, dificultando a identificação da origem. Somadas, as movimentações ultrapassam R$ 11 milhões e apresentam características típicas de ocultação patrimonial, pulverização de recursos, mescla patrimonial e lavagem de dinheiro.
A ação conta com apoio do Departamento-Geral de Polícia da Baixada Fluminense (DGPB) e da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), integrando a Operação Contenção, estratégia do Governo do Estado para conter o avanço territorial do Comando Vermelho.



