Facções criminosas e milícias impõem regras e controlam o cotidiano de milhares de moradores em periferias brasileiras. Segundo pesquisa Datafolha, 41% dos brasileiros afirmam notar a presença do crime organizado em seus bairros. O dado revela a extensão do poder paralelo que dita desde a circulação de pessoas até a cobrança de taxas ilegais.
Como o crime organizado atua nas comunidades
No Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, a rotina dos moradores é pautada por toques de recolher, proibição de certos tipos de transporte e cobrança de 'taxas' para serviços básicos. A situação se repete em outras regiões metropolitanas, como São Paulo, Belo Horizonte e Salvador. O controle territorial é exercido por facções como o Comando Vermelho (CV), o Primeiro Comando da Capital (PCC) e milícias que atuam principalmente no Rio.
A governança criminal substitui o Estado em áreas onde a presença oficial é frágil. Moradores relatam que a entrada de entregadores, vendedores e até mesmo parentes é monitorada e condicionada à autorização dos grupos armados. A violência e a extorsão comprometem a cidadania e a economia local, com pequenos comerciantes sendo obrigados a pagar 'pedágios' para funcionar.
Impacto na soberania e debate sobre terrorismo
O avanço do crime organizado reacendeu discussões sobre soberania nacional após os Estados Unidos classificarem grupos como o PCC e o CV como organizações terroristas. A medida, anunciada pelo governo norte-americano, gerou reações no Brasil, onde autoridades debatem os limites da interferência estrangeira e a eficácia das políticas de segurança pública.
Para o sociólogo Luiz Eduardo Soares, a classificação como terrorismo pode ter efeitos ambíguos: 'Por um lado, reconhece a gravidade da atuação desses grupos; por outro, pode justificar intervenções externas que ferem a soberania brasileira'. A pesquisa Datafolha também aponta que 67% dos entrevistados consideram a violência do crime organizado um problema 'muito grave'.
Desafios para o Estado e a sociedade
A presença do crime organizado não se limita ao controle territorial. Facções influenciam eleições, cooptam agentes públicos e expandem seus negócios para o tráfico de drogas, armas e até mesmo exploração de serviços como internet e gás. Em algumas comunidades, os criminosos oferecem 'proteção' em troca de lealdade e silêncio.
Especialistas apontam que a solução passa por políticas integradas de segurança, inteligência e desenvolvimento social. 'Não basta reprimir; é preciso ocupar o território com Estado de direito, serviços públicos e oportunidades', afirma a pesquisadora Aline Ribeiro, autora de estudo sobre o CV na Amazônia. Enquanto isso, os 41% de brasileiros que convivem com o crime organizado seguem reféns de um poder que desafia o Estado.



