O Brasil registrou em 2025 o maior número de mortes por intervenção policial da última década, com 6.602 vítimas, uma média de 18 mortes por dia. O aumento foi de 55,7% em dez anos, segundo o novo Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quarta-feira.
Recorde histórico de letalidade
Os dados mostram que a letalidade policial atingiu o patamar mais alto desde o início da série histórica, em 2015. Em 2016, foram 4.235 mortes; em 2020, 6.416; e agora, em 2025, 6.602. O crescimento é atribuído a operações em comunidades, especialmente no Rio de Janeiro, como a Operação Contenção, considerada a mais letal da história do estado.
De acordo com o anuário, a Bahia lidera as taxas de violência policial, com 2.134 mortes em 2025, seguida pelo Rio de Janeiro (1.876) e São Paulo (1.012). As vítimas são majoritariamente jovens negros: 78% dos mortos têm entre 15 e 29 anos e 85% são negros ou pardos.
Uso excessivo da força e controle externo
O estudo aponta que o uso excessivo da força por policiais levanta preocupações sobre o controle externo da atividade policial. “É urgente fortalecer os mecanismos de controle, como as corregedorias e o Ministério Público, para evitar abusos”, afirmou Samira Bueno, diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que elabora o anuário.
Operações como a no Complexo do Alemão, que resultou em 28 mortes em maio de 2025, são exemplos do padrão de confronto armado que predomina nas periferias. A pesquisa revela que 92% das mortes ocorreram em ações de rotina, como patrulhamento, e não em confrontos com criminosos de alto risco.
Saúde mental dos policiais em crise
Outro dado alarmante é a saúde mental dos policiais. Em 2025, 142 policiais cometeram suicídio, número superior ao de mortes em serviço (98). “A pressão constante, a falta de apoio psicológico e a violência cotidiana geram um adoecimento profundo”, explicou o psiquiatra forense Daniel Martins, que colaborou com o estudo.
O anuário também destaca que o crime organizado influencia a atuação policial, com facções controlando territórios e desafiando a autoridade do Estado. Em 2025, 67 policiais foram mortos fora de serviço, em represálias ou execuções.
Impacto social e demandas por mudanças
Organizações de direitos humanos criticam a falta de transparência e a impunidade. “Enquanto não houver punição para policiais que matam ilegalmente, o ciclo de violência continuará”, disse Renata Souza, da Anistia Internacional Brasil.
O governo federal anunciou a criação de um grupo de trabalho para revisar protocolos de uso da força, mas especialistas consideram as medidas insuficientes. O anuário conclui que a redução da letalidade exige investimento em prevenção, inteligência e desmilitarização das polícias.



