Brasil registra 40.775 homicídios em 2025, menor número da série histórica
Brasil tem 40.775 homicídios em 2025, menor nível histórico

O Brasil registrou queda nos homicídios pelo quinto ano consecutivo em 2025, segundo dados do Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), divulgado nesta quinta-feira, 23. Foram 40.775 assassinatos, o equivalente a 19,1 casos para cada 100 mil habitantes – uma redução de 8,2% em relação ao ano anterior. Com isso, o país atingiu o menor patamar de ocorrências da série histórica, iniciada em 2012.

Queda expressiva, mas números ainda elevados

Pesquisadores alertam que, apesar da tendência de queda desde 2018 – com exceção de 2020 –, os números seguem em patamar elevado: são ao menos 4 homicídios por hora no país. Sete estados apresentaram alta nos registros, incluindo o Rio de Janeiro. Além disso, estudos indicam que o Brasil concentra cerca de 10% dos assassinatos em todo o mundo.

Influência de facções criminosas na redução

Especialistas apontam que parte da queda dos homicídios se deve à redução de disputas entre facções e ao monopólio de controle territorial imposto em algumas cidades ou comunidades por grupos criminosos, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). "É um pouco do que se vive em São Paulo, que reduziu muito (o número de homicídios), mas com a presença do PCC", afirma Samira Bueno, diretora-executiva do Fórum. "Quando há um único grupo dominando, geralmente há redução. É claro que isso muda: hoje tem um grupo único, amanhã não tem mais."

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Se por um lado impedem execuções, por outro lado esses bandidos estabelecem uma rotina de medo entre os moradores. No Rio de Janeiro, por exemplo, em vários locais o CV tem copiado a milícia e lucrado com a extorsão de moradores, ao cobrar taxas de van, gás e internet nas favelas, e até se envolvido em episódios de tortura.

Expansão do crime organizado e fragilidade do equilíbrio

Com o crescimento do narcotráfico internacional, PCC e Comando Vermelho estão presentes em quase todo o país e até mesmo em outros continentes, além de se infiltrarem na economia formal e em espaços do poder público. Esse equilíbrio, porém, é frágil. Samira exemplifica que, mesmo com o PCC hegemônico em São Paulo, há embates recentes com o CV na região de Rio Claro, no interior. Como mostrou o Estadão, criminosos ligados à facção carioca hoje fazem até viagens de bate-volta do Rio para cometer execuções na cidade paulista, o que eleva a violência na região.

Percepção da presença de grupos armados

Estudo recente do Fórum em parceria com o Instituto Datafolha, publicado em maio, aponta que ao menos quatro em cada dez brasileiros com 16 anos ou mais (41%) – o equivalente a 68,7 milhões de pessoas – reconhecem a presença, no bairro em que moram, de grupos organizados ligados ao tráfico ou a milícias.

Indicador de mortes violentas intencionais

Os casos descritos como homicídios no Anuário correspondem à contabilização de mortes violentas intencionais, criado pelo Fórum de Segurança para o Anuário, uma das mais importantes publicações do setor. Considerado o principal indicador para aferir os níveis de violência do Brasil, ele agrega casos de homicídio doloso, latrocínio, lesão corporal seguida de morte e mortes decorrentes de intervenções policiais.

"Por isso tem de olhar para a redução das mortes violentas com certa desconfiança", afirma Samira. "Ao mesmo tempo que aponta uma boa notícia, de vidas sendo poupadas, mostra que a redução não é necessariamente sustentável no longo prazo se não formos capazes de enfrentar o fenômeno da criminalidade organizada."

Interiorização dos homicídios e perfil das vítimas

Pesquisas anteriores já mostraram que o sobe-desce de homicídios no Brasil nas últimas décadas esteve mais ligado às dinâmicas de conflito ou pacificação entre as facções do que aos efeitos de políticas públicas. A tendência dos últimos anos também tem sido de interiorização dos assassinatos, antes mais restritos aos grandes centros urbanos, e ao avanço de conflitos sangrentos no Norte e no Nordeste. Entre as vítimas, homens jovens negros são o perfil mais comum.

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Homicídios sobem em 7 estados, incluindo o Rio de Janeiro

O Anuário aponta que todas as regiões apresentaram queda nos homicídios, mas há discrepâncias. Ao todo, sete estados tiveram alta nos assassinatos no ano passado: Rio Grande do Norte (19,6%), Rondônia (7,5%), Acre (6,3%), Roraima (5,8%), Distrito Federal (5,8%), Mato Grosso do Sul (4,9%) e Rio de Janeiro (2,1%), marcado no ano passado pela Operação Contenção, ofensiva contra o CV que deixou mais de 120 mortes nos complexos da Penha e do Alemão, na zona norte carioca.

Os dados do anuário apontam que, na contramão desse recuo dos homicídios, a taxa de mortes cometidas em decorrência de intervenção policial cresceu 5,4% no ano passado, com 6,6 mil registros. Amapá, Bahia e Sergipe concentraram os maiores índices. "São estados que vêm há anos com uma taxa muito elevada", afirma Samira.

Sobre os homicídios de modo geral, os pesquisadores indicam que o caso do Rio Grande do Norte chama a atenção pelo "expressivo aumento dos homicídios dolosos no estado, de 655, em 2024 (taxa de 24,4 por 100 mil habitantes), para 843 em 2025 (taxa de 29,1)". O avanço da facção local Sindicato do Crime, formado a partir de uma dissidência do PCC, demanda atenção do governo do estado.

Meta de homicídios antecipada em dois anos

Um ponto considerado positivo pelos pesquisadores é que, quando se observa os dados desagregados por cada tipo criminal, houve 32.914 casos de homicídios dolosos no ano passado no país, o que equivale a uma taxa nacional de 15,4, queda de 10% em relação a um ano antes. A redução se deu mesmo diante de um aumento de 4% nos feminicídios, que também são incluídos nesse indicador.

"A Política Nacional de Segurança Pública e Defesa Social, revisada em 2021 e que é a norma orientadora para a implementação do Sistema Único de Segurança Pública vigente, havia definido uma meta de 16 homicídios por 100 mil habitantes até 2027", aponta o estudo. "Ou seja, pelos índices apresentados nesta edição do Anuário e considerando apenas os homicídios dolosos, o Brasil antecipou em dois anos o cumprimento da meta."

É preciso combater 'andar de cima' das facções, diz pesquisadora

Segundo Samira, além do comportamento das facções, outros fatores que ajudam a explicar a redução dos homicídios são a mudança demográfica da população, que tem se tornado mais velha – pesquisas indicam que são os jovens os principais envolvidos com o crime organizado. Também influenciam medidas adotadas pelos estados para incrementar as investigações relacionadas a homicídios, embora a taxa de resolução de crimes no país ainda seja muito baixa.

A pesquisadora, no entanto, cobra que é preciso ir além. "O principal é pensar uma estratégia nacional de enfrentamento ao crime organizado", afirma. "A lógica do controle territorial armado, que há 10 anos falava-se sobre o contexto do Rio de Janeiro, espalhou-se pelo Brasil. Em grande medida porque, com a difusão do Comando Vermelho, o CV passou a implementar seu modus operandi de controle territorial armado em outros territórios", acrescenta. Hoje a facção carioca é vista como a principal força do crime na Região Norte. Estados como Amazonas e Pará, apesar de terem visto menos homicídios em 2025, são marcados pela forte presença do crime organizado, pois são considerados estratégicos para a importação de cocaína e outros produtos ilícitos de países como Peru, Bolívia e Colômbia.

Diante desse avanço, a pesquisadora defende intensificar a discussão de medidas para retomar territórios dominados pelo crime organizado - onde muitas vezes o uso de barricadas impede até o acesso de serviços públicos, como ambulâncias - e o investimento em ações interagências. A Carbono Oculto, megaoperação realizada no ano passado para combater a infiltração do crime organizado na economia formal, é citada por ela como um exemplo. Essa ação desarticulou um esquema de fraudes e desvio de dinheiro que envolvia o PCC, fundos de investimento e uma infiltração no setor de combustíveis.

"O Ministério Público de São Paulo, a Receita Federal e o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) têm trabalhado de forma muito coordenada nessas ações contra o PCC, muitas vezes com as polícias estaduais, às vezes com a Polícia Federal, com ações focadas na lavagem de dinheiro", exemplifica. "Só vamos, de fato, enfraquecer esses grupos criminosos chegando no andar de cima da facção. Ficar nessa lógica de fazer operação em favelas, que é um pouco do que se tem historicamente no Brasil, não só não funcionou, como resultou no espalhamento desses grupos."