Os números confirmam um movimento já observado por urologistas britânicos: a vasectomia está cada vez mais popular entre homens de todas as idades, inclusive os mais jovens. Dados compilados pelo NHS England apontam 26.385 vasectomias em hospitais e clínicas da Inglaterra no período de 2024-2025. O total foi 16% maior do que o registrado em 2023-2024. A faixa etária entre 35 e 39 anos respondeu pela maior parte, com aproximadamente 8.400 procedimentos. Cerca de 950 homens com menos de 30 anos também procuraram o método contraceptivo em 2024-2025, uma leve alta em relação ao ano anterior.
Uma decisão após parto traumático
Alex West, de 33 anos, é um dos homens que entraram nessas estatísticas. Ele trabalha como corretor de crédito imobiliário e vive em Kent, na Inglaterra. O primeiro filho do casal nasceu depois de um parto difícil, que deixou Alex abalado. "Tive um ataque de pânico e desabei. Eu não tinha conseguido... Não tinha a capacidade de processar aquilo", relembra. Quando a esposa engravidou do segundo filho, ele esperava uma experiência mais tranquila. O parto em si foi melhor para ela, mas não para ele.
O trauma não resolvido do primeiro parto se somou a uma depressão pós-parto que Alex desenvolveu depois do nascimento dos dois filhos. Ele descreve os meses seguintes como "cinzentos". "A vida era desprovida de cor e repleta de pessoas dizendo que ser pai devia ser uma experiência fantástica. Eu não sentia esse amor e essa conexão que todo mundo diz que eu deveria sentir", conta. O casal planejava ter quatro filhos, mas, após essa vivência, decidiu parar em dois. Como a decisão tinha partido dele, Alex achou que não seria justo colocar o peso sobre a esposa, fazendo-a usar anticoncepcional. A alternativa que encontrou foi a vasectomia.
O procedimento consiste em cortar e depois pinçar ou selar os canais deferentes, um tubo em cada testículo que leva os espermatozoides até a uretra. Alex procurou o NHS ainda no final dos seus 20 anos, mas o médico recomendou esperar até os 30 para ter certeza. Quando a consulta finalmente chegou, em maio de 2024, ele e a esposa pegaram um trem de Kent para Londres. A operação foi rápida e indolor, segundo ele. "Coloquei meus fones de ouvido e escutei umas três músicas antes de me dizerem que estava tudo pronto", afirma. "Ridículo — rápido demais."
Quando a decisão é ainda mais cedo
Aos 22 anos, Sam Knight, que mora nos Estados Unidos, já sabia que não queria ter filhos. "Eu estava me colocando em situações em que ter filhos poderia ser uma possibilidade, e isso começou a meio que me apavorar", conta. Quando uma namorada da época engravidou, ela optou por fazer um aborto. Sam sentiu que precisava mudar algo. "Eu tive a consciência do que tinha feito outra pessoa passar, e simplesmente não queria que aquilo acontecesse de novo."
Ele procurou uma clínica de urologia em Nova York e, assim como Alex, teve de explicar aos médicos os motivos da escolha. Foi alertado de que a vasectomia deve ser encarada como permanente, pois a reversão só é possível em algumas circunstâncias. As perguntas foram as esperadas: não é cedo demais? E se você mudar de ideia? A reversão é cara e nem sempre dá certo. "O médico disse que tinha mudado de opinião recentemente", conta Sam. "E que, se eu tivesse aparecido lá seis meses antes, ele teria me dispensado na hora."
O procedimento foi realizado alguns meses depois do primeiro contato. Hoje com 25 anos, Sam trabalha como designer de som para videogames. Ele garante ao médico que, apesar de gostar de crianças e ter tido uma infância feliz, não tinha espaço mental, tempo ou desejo para a paternidade. "Dediquei minha vida a isso e, para mim, ser pai também é algo a que você dedica a vida", explica. "Eu simplesmente não tenho espaço mental, tempo ou mesmo desejo para isso." Ele diz que tem inveja de quem quer ser pai ou mãe, porque a experiência "claramente tem" beleza e amor. "Mas eu encontro isso na música, na arte e nessas coisas que eu faço."
Especialistas orientam e fazem alertas
A vasectomia é considerada um método muito seguro e eficaz, mas exige reflexão. Sarah Salkeld, ex-clínica geral e hoje diretora médica da MSI Reproductive Choices, rede de clínicas que atende pacientes do NHS e da rede particular, afirma que é preciso "pensar muito bem" sobre a escolha. "Oferecemos a todos um acompanhamento para conversar sobre isso, se quiserem, só para garantir que tenham todas as informações necessárias para tomar essa decisão."
Salkeld ressalta ainda que a reversão não está disponível de forma rotineira no NHS. Segundo o serviço público de saúde inglês, há critérios rigorosos para o procedimento reverso. O site do NHS também lembra que existem outros métodos contraceptivos para homens, como a camisinha e o reconhecimento da fertilidade, que evita relações ou usa preservativo nos dias férteis da parceira. Homens com menos de 30 anos, conforme orientações do NHS Scotland, têm maior probabilidade de se arrepender da vasectomia. Por isso, as clínicas costumam fazer perguntas como as que Sam ouviu.
Custo e prevalência nos Estados Unidos
Sam realizou a vasectomia em 2024. O procedimento, incluindo os cuidados posteriores, custou cerca de US$ 1.200 (o equivalente a R$ 6.100). Ele ainda estava no plano de saúde da família. Uma semana depois da cirurgia, Sam teve uma crise de dor intensa, um efeito colateral conhecido, mas incomum, na avaliação de Salkeld. O desconforto passou em algumas horas. "No geral, vale o dinheiro e vale a dor", diz Sam.
Ele está entre menos de 1% dos homens norte-americanos de 18 a 29 anos que já fizeram vasectomia, de acordo com a Pesquisa Nacional de Crescimento Familiar, que analisou respostas de cerca de 4 mil homens em 2022-23. A faixa com maior adesão nos EUA é a de 45 a 49 anos: 15% afirmaram já ter feito o procedimento. Na Inglaterra, outro homem, de 27 anos, disse ter optado pela vasectomia por causa dos sacrifícios e das incertezas de ser pai, especialmente sobre como seriam seus filhos.
De volta a Kent, Alex e a esposa avaliaram a decisão ao longo de vários meses. Para eles, a vasectomia foi a forma de contracepção mais justa e mais eficaz disponível. Hoje, os filhos já têm idade para jogar futebol com o pai. "Eu amo demais meus filhos", diz Alex. "Se eu tivesse adicionado mais pessoas no time, não teria sido a coisa certa para mim."



