Um levantamento da Pluxee com mais de 2 mil brasileiros revelou que 47% dos trabalhadores se sentem sozinhos no trabalho, seja frequentemente ou às vezes. O estudo também mostrou que 78% consideram essencial ter amizades verdadeiras no ambiente profissional, indicando que a qualidade das relações influencia diretamente a experiência no emprego. Além disso, em uma escala de 1 a 5, os entrevistados atribuíram nota média de 3,39 ao impacto das amizades na decisão de permanecer ou deixar uma empresa, evidenciando que as conexões ajudam na retenção de talentos.
O que é a solidão corporativa?
O conceito de solidão corporativa não significa necessariamente trabalhar sozinho, mas sentir-se isolado mesmo em meio a colegas. Ela é caracterizada pela falta de vínculos significativos, de relações de confiança e de senso de pertencimento no ambiente de trabalho. "O problema não é estar sozinho fisicamente, mas sentir-se desconectado, mesmo cercado de colegas", explica Camilla Pádua, sócia-líder da área de consultoria em gestão de pessoas da KPMG no Brasil.
Segundo ela, esse sentimento costuma surgir quando o profissional não consegue construir relações, trabalha em ambientes excessivamente competitivos ou sente que não pode ser autêntico. "Os líderes têm um papel central em construir ambientes em que a conexão humana não seja vista como algo secundário, mas como parte da estratégia do negócio", afirma Camilla Pádua.
Marcela Zaidem, fundadora da consultoria Cultura na Prática, afirma que o fenômeno ganhou visibilidade nas redes sociais, mas já vinha sendo identificado por pesquisas internacionais há muitos anos. "Não estamos falando de gente 'carente de escritório'. Estamos falando de um ambiente em que muita gente está cercada de reunião, meta, canal, call e cobrança, mas ainda assim se sente sozinha", explica.
Impactos na saúde mental e na carreira
O isolamento pode comprometer a saúde mental e a trajetória profissional. Muller Gomes, gerente da consultoria de recrutamento Robert Half, destaca que "o ser humano é biopsicossocial. A gente precisa do outro. Ter com quem conversar, compartilhar e até desabafar ajuda a lidar melhor com os problemas". Segundo ele, a falta de interação afeta a produtividade, a saúde mental e até o desenvolvimento profissional, já que o networking é fundamental para novas oportunidades de carreira. "O ser humano não foi feito para viver isolado", afirma.
Um estudo da Vittude em parceria com o Opinion Box reforça esse cenário. Entre os trabalhadores que atuam 100% em home office, 11,4% apresentam níveis críticos de sofrimento mental. Para 30,8% dos entrevistados, o senso de equipe e a interação social são os principais motivos para preferir o trabalho totalmente presencial.
Home office ampliou o desafio
Especialistas afirmam que a expansão do trabalho remoto reduziu os momentos espontâneos de convivência entre colegas. "Perdemos aquela conversa de corredor, o café depois do almoço ou o comentário sobre o tempo. São esses pequenos momentos que geram proximidade", afirma Lucimara Costa, diretora de Recursos Humanos da Nexti.
Para Bruno Gonçalves, especialista em experiência do colaborador e felicidade corporativa, o problema não é o home office em si, mas a falta de adaptação das empresas. "No trabalho remoto, esses momentos precisam ser desenhados intencionalmente. Produtividade depende de pessoas conectadas de verdade, e não apenas monitoradas."
Apesar disso, Geovanna Santos, de 28 anos, que viveu a solidão corporativa na prática, acredita que o formato de trabalho, sozinho, não explica a sensação de isolamento. Durante a pandemia, ela conta que trabalhou por um ano em home office e nunca se sentiu sozinha. "Mesmo no home office eu tinha uma ótima conexão com o time. A gente falava o tempo todo", conta. "O problema é a cultura, é a forma como as pessoas acolhem ou não."
Cultura organizacional faz diferença
Na avaliação dos especialistas, combater a solidão corporativa depende menos de happy hours e eventos esporádicos e mais da construção de ambientes em que as pessoas se sintam acolhidas desde o primeiro dia de trabalho. Isso passa por processos de integração mais estruturados, lideranças mais próximas das equipes, espaços para diálogo e uma cultura baseada em confiança, pertencimento e segurança psicológica.
"Quando a empresa não constrói esse contexto, a solidão aparece. E, quando aparece, ela não é um detalhe emocional. É sintoma de liderança fraca, vínculos frágeis e uma cultura insuficiente para sustentar as pessoas", resume Marcela Zaidem.
Geovanna Santos, que passou por essa experiência, conta que sua mesa ficava isolada em uma sala, enquanto o gerente, único colega no ambiente, passava boa parte do dia fora. As outras três funcionárias da equipe trabalhavam juntas em outro ambiente. Ela tentou se aproximar, mas as conversas não evoluíram. No horário de almoço, os grupos saíam juntos para restaurantes, deixando-a para trás. "Eu ia sozinha. Nem para comer me chamavam", lembra. A situação começou a afetar sua saúde mental: ela passou a acordar sem vontade de ir ao trabalho, acumulou atrasos e desenvolveu crises de ansiedade, síndrome do pânico e sintomas físicos relacionados ao estresse. "Eu me sentia invisível. Não tinha ninguém para olhar e reconhecer o meu esforço", conta. Depois de três meses de desgaste emocional, ela pensou em pedir demissão, mas foi desligada logo após apresentar um atestado médico. "Foi péssimo", resume.
Como perceber que você está vivendo a solidão corporativa?
Segundo especialistas, alguns sinais podem indicar que o problema está afetando sua rotina:
- Você sente que não faz parte da equipe, mesmo trabalhando cercado de colegas;
- Evita interações ou percebe que raramente é incluído em conversas e atividades do grupo;
- Tem dificuldade para criar vínculos ou sente que não pode ser autêntico no ambiente de trabalho;
- Perde a motivação para ir ao trabalho e sente que seus esforços passam despercebidos;
- Apresenta sintomas como ansiedade, estresse, desânimo ou esgotamento relacionados ao trabalho.
Quando procurar ajuda?
Se a sensação de isolamento for persistente e começar a afetar sua saúde mental, seu desempenho ou sua qualidade de vida, especialistas recomendam conversar com a liderança, com o RH ou buscar apoio psicológico. Em ambientes saudáveis, o acolhimento e o senso de pertencimento também fazem parte das responsabilidades da empresa.



