A psicóloga clínica Anna Lembke, especialista em tratamento de dependências e professora na Universidade Stanford, apresentou em seu novo livro estratégias para regular a dopamina, neurotransmissor ligado ao prazer e à recompensa, como forma de combater vícios comportamentais e químicos. Em entrevista ao jornal Valor Econômico, Lembke destacou que a exposição excessiva a estímulos de gratificação instantânea — como redes sociais, jogos eletrônicos e pornografia — tem elevado o limiar de prazer, tornando atividades cotidianas menos satisfatórias e aumentando o risco de compulsão.
O papel da dopamina no vício
Lembke explica que a dopamina não é apenas a molécula do prazer, mas sim a do desejo e da motivação. Em um cérebro saudável, a liberação de dopamina sinaliza que algo importante está prestes a acontecer, incentivando a repetição de comportamentos benéficos. No entanto, em pessoas com predisposição a vícios, o sistema de recompensa pode se desregular, levando a uma busca incessante por estímulos que liberam grandes quantidades do neurotransmissor.
“A dopamina é como um acelerador. Em excesso, ela nos leva a buscar cada vez mais estímulos, criando um ciclo de tolerância e abstinência”, afirma a psicóloga. Ela cita estudos que mostram que a exposição constante a recompensas artificiais diminui a sensibilidade dos receptores de dopamina, exigindo doses maiores para obter o mesmo prazer.
Estratégias para domar a dopamina
No livro intitulado “Dopamine Nation: Finding Balance in the Age of Indulgence” (ainda sem tradução no Brasil), Lembke propõe uma abordagem baseada na abstinência temporária de estímulos hiper-recompensadores. A técnica, chamada de “jejum de dopamina”, consiste em evitar por um período determinado — que pode variar de 24 horas a uma semana — atividades como uso de redes sociais, consumo de junk food, jogos e pornografia.
“O objetivo é reiniciar o sistema de recompensa, permitindo que o cérebro recupere a sensibilidade natural à dopamina”, explica. A psicóloga recomenda começar com um jejum de 24 horas e, em seguida, reintroduzir gradualmente os estímulos, mantendo limites claros. Ela sugere também substituir atividades viciantes por outras que promovam a liberação moderada de dopamina, como exercícios físicos, meditação e contato com a natureza.
Impactos na saúde mental e na sociedade
Lembke alerta que a epidemia de vícios comportamentais tem contribuído para o aumento de transtornos como ansiedade e depressão. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o uso problemático de internet afeta entre 1% e 9% da população global, com taxas mais altas entre adolescentes. A psicóloga defende que políticas públicas e educação digital são essenciais para mitigar os efeitos nocivos da superexposição a estímulos digitais.
“Precisamos repensar o design das plataformas digitais, que são criadas para maximizar o tempo de uso e capturar a atenção”, afirma. Ela elogia iniciativas como a inclusão de avisos de tempo de tela em smartphones e a regulação de algoritmos em alguns países, mas ressalta que a mudança mais profunda depende de uma conscientização individual e coletiva.
Críticas e limitações da abordagem
Apesar da popularidade do conceito de jejum de dopamina, alguns especialistas questionam sua eficácia a longo prazo. O neurocientista Trevor Robbins, da Universidade de Cambridge, argumenta que a abstinência total pode levar a um efeito rebote, com a pessoa retornando aos hábitos antigos de forma mais intensa. Lembke reconhece essa limitação e enfatiza que a técnica deve ser combinada com terapia cognitivo-comportamental e suporte social.
“O jejum é um ponto de partida, não uma solução definitiva. Para tratar vícios realmente, é preciso abordar as causas subjacentes, como trauma, estresse e isolamento social”, conclui a psicóloga. Ela recomenda que pessoas com dependência grave busquem acompanhamento profissional antes de iniciar qualquer programa de abstinência.



