Uma influenciadora teve um fim de semana de exposição nas redes sociais depois de relatar que foi bloqueada no WhatsApp pela pediatra da filha. O motivo, segundo ela, foi o fato de não ter contratado um pacote de atendimento pelo aplicativo. A mãe afirma que tentava pedir orientação porque a bebê havia acordado com sintomas de resfriado.
No relato, a pediatra já acompanhava a criança e ofereceu um pacote com 12 consultas pagas à vista, incluindo assistência pelo WhatsApp 24 horas por dia. A influenciadora optou por não contratar o serviço, mas diz que perguntou se ainda poderia enviar mensagens em caso de dúvida e recebeu uma resposta positiva. Tempos depois, quando precisou do canal, as mensagens não foram entregues.
Ao ligar para o consultório para marcar uma consulta, já com a filha apresentando piora dos sintomas, ela comentou que a profissional não havia recebido os contatos. A secretária respondeu que o número estava bloqueado porque o serviço de disponibilidade pelo WhatsApp não havia sido contratado. O caso, publicado nas redes, gerou milhares de comentários.
Pais e médicos divergem sobre limite do contato digital
Entre as reações, muitos pais disseram recorrer ao aplicativo para esclarecer dúvidas rápidas sobre a saúde dos filhos. Relataram, por exemplo, que usam o canal para saber se determinado sintoma exige ida ao consultório ou se uma medicação prescrita pode ser ajustada.
Médicos, por outro lado, afirmam que o WhatsApp muitas vezes funciona como um pronto-socorro informal. As mensagens chegam a qualquer hora, sem triagem, e nem sempre correspondem a uma demanda que possa ser resolvida a distância.
Mesmo com a incorporação do aplicativo à rotina dos consultórios, o profissional não é obrigado a fornecer o telefone pessoal nem a manter um canal permanente de atendimento. No entanto, quando oferece esse contato, precisa deixar claros os limites daquele serviço.
WhatsApp complementa, mas não substitui a consulta
De acordo com o Conselho Federal de Medicina (CFM), a consulta é um ato médico completo quando reúne entrevista clínica, exame físico, formulação de hipótese diagnóstica e, quando necessário, prescrição. Isso significa que a prestação daquele serviço se encerra com o atendimento. A continuidade do contato por telefone ou aplicativo depende exclusivamente do que foi acordado entre profissional e paciente.
“É uma gentileza do médico passar o número dele para continuar com orientações complementares depois da consulta. A prestação de serviço já foi cumprida ali. Não existe nada que obrigue o médico a entregar o telefone pessoal para o paciente”, afirma a advogada Ana Paula Tomé, especialista em direito médico.
Segundo ela, o WhatsApp pode ser usado para esclarecer questões pontuais, acompanhar a evolução de um quadro ou reforçar orientações já dadas na consulta. O aplicativo, porém, não deve substituir uma nova avaliação quando há piora dos sintomas, necessidade de exame físico ou suspeita de urgência. Também não há obrigação de o profissional permanecer disponível o dia inteiro. Horários, tipo de demanda aceita e prazo de resposta podem ser definidos pelo consultório.
Procurada pelo g1, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) informou que não se manifesta sobre situações individuais. A entidade destacou que casos dessa natureza envolvem circunstâncias específicas da relação médico-paciente e aspectos éticos e profissionais que precisam ser avaliados conforme o contexto, cabendo aos Conselhos de Medicina essa análise quando necessário.
Médico pode cobrar por atendimento no aplicativo
A oferta de um pacote de consultas que inclui assistência pelo WhatsApp não configura, por si só, irregularidade. De acordo com Ana Paula, o médico pode cobrar por esse acompanhamento desde que informe com clareza o que está incluído. Entre os pontos que devem ser especificados estão:
- dias e horários de disponibilidade;
- prazo previsto para resposta;
- tipo de orientação que pode ser prestada pelo aplicativo;
- situações em que será necessária uma consulta presencial.
“O médico pode vender esse tipo de pacote, mas com o serviço prestado claramente definido. Isso não constitui infração ética, não é ilícito nem atividade mercantil”, diz a advogada. A cobrança remunera o tempo que o profissional reserva para responder aos pacientes fora das consultas.
O problema surge quando as condições não são explicadas ou quando o que foi acordado verbalmente difere do serviço oferecido. No caso relatado pela influenciadora, a mãe afirma que foi autorizada a enviar mensagens mesmo sem contratar o pacote. Não é possível saber, apenas pelo relato publicado, quais foram os termos exatos da conversa. Por isso, a recomendação é que as regras sejam apresentadas desde o início e, de preferência, registradas por escrito — tanto para serviços pagos quanto para contatos complementares.
Bloquear contato não equivale a encerrar o atendimento
O Código de Ética Médica permite que um profissional deixe de atender um paciente quando a relação se torna inviável, desde que não o abandone durante situação de urgência ou emergência. Esse encerramento é chamado de renúncia ao atendimento. O médico deve comunicar a decisão e assegurar que o paciente tenha condições de procurar outro profissional e dar continuidade aos cuidados.
Bloquear um número no WhatsApp, no entanto, não significa necessariamente que o vínculo médico foi encerrado. O aplicativo pode ser apenas um dos canais de comunicação, enquanto consultas e agendamentos continuam disponíveis por outros meios. Foi o que teria ocorrido no episódio relatado: o bloqueio atingia o contato direto, mas as novas consultas poderiam ser marcadas normalmente no consultório.
Ana Paula afirma que não existe norma específica que proíba o médico de bloquear um contato. Ainda assim, considera mais adequado avisar previamente que aquele canal não estará disponível. “Não há uma regra que proíba a médica de bloquear, mas nem tudo que pode convém. Existem outras formas de esclarecer que o paciente não terá mais acesso ao telefone naquelas condições ou, se for o caso, formalizar o encerramento do atendimento”, afirma.
A distinção é importante porque uma dúvida não respondida pelo WhatsApp não caracteriza, isoladamente, abandono. A avaliação muda quando há um compromisso expresso de acompanhamento, uma situação de risco em curso ou a interrupção do atendimento sem possibilidade de continuidade. Para evitar conflitos, médicos e pacientes precisam definir desde o primeiro contato onde termina a consulta e o que pode ser resolvido pelo celular. O WhatsApp encurtou a distância entre os dois, mas não eliminou os limites clínicos, éticos e profissionais dessa relação.



