Uma série de pesquisas científicas recentes revela que a paternidade transforma o cérebro e o corpo masculino de maneira tão profunda quanto a maternidade, desafiando estereótipos e abrindo caminho para novas políticas públicas. Estudos conduzidos por universidades dos Estados Unidos e de outros países mostram que homens que se tornam pais experimentam quedas significativas nos níveis de testosterona, aumentos na ocitocina e alterações na atividade cerebral, especialmente quando assumem papel ativo nos cuidados com os filhos.
Queda de testosterona: o primeiro sinal
As primeiras evidências vieram de observações em outros mamíferos, mas foi o antropólogo Lee Gettler, da Universidade de Notre Dame, que liderou um estudo pioneiro com 624 homens nas Filipinas. Em 2005, a equipe coletou amostras de saliva e, quatro anos depois, repetiu o teste. Os resultados, publicados em 2011, mostraram que os homens que se tornaram pais apresentavam níveis de testosterona significativamente mais baixos do que os que não tiveram filhos, e que aqueles que dedicavam mais tempo aos cuidados infantis tinham as maiores quedas.
“Acho que foi a primeira mensagem clara na literatura científica de que os homens têm essa capacidade de se preparar para a paternidade”, afirmou Gettler em entrevista. Ele explica que essa é uma preparação biológica para o cuidado, e não apenas uma consequência do estilo de vida.
Mudanças hormonais antes do nascimento
James K. Rilling, diretor do Laboratório de Neurociência Social Humana da Universidade Emory, inicialmente supunha que as alterações hormonais ocorressem após o nascimento. No entanto, sua equipe descobriu que, apenas quatro meses após a concepção, os futuros pais já apresentavam níveis mais baixos de testosterona e vasopressina em comparação com o grupo de controle. “Quanto menor a testosterona, mais eles se envolvem com a mãe e o bebê após o nascimento”, disse Rilling, autor do livro Father Nature (2024).
Esses achados sugerem que o corpo masculino se prepara para a paternidade ainda durante a gestação, possivelmente por meio de sinais químicos da parceira ou de mudanças psicológicas. Ainda não se sabe o mecanismo exato, mas a descoberta abre novas perguntas sobre a biologia do cuidado.
O papel da ocitocina e da vasopressina
A ocitocina, conhecida como hormônio do amor, também aumenta nos pais. Estudos mostram que pais que participam de brincadeiras e contato físico com os filhos apresentam níveis mais altos do hormônio, e que isso potencializa o instinto paterno. Em um experimento com spray nasal de ocitocina, Rilling observou que os pais movimentavam a cabeça mais rapidamente ao interagir com os bebês, indicando maior envolvimento.
A vasopressina, associada à territorialidade e agressividade em animais, também sofre redução em futuros pais, como demonstrou um estudo de 2025. Já a prolactina, mais conhecida pela lactação, aparece em níveis elevados em pais com forte vínculo com os filhos ainda não nascidos, prevendo maior envolvimento nos cuidados, segundo pesquisa de 2023 liderada pela psicóloga Darby Saxbe.
O cérebro paterno: uma segunda adolescência
Saxbe, autora do livro Dad Brain (2025), tem investigado as mudanças cerebrais em pais de primeira viagem. Em parceria com colegas espanhóis, sua equipe escaneou o cérebro de homens antes e depois do nascimento dos filhos e encontrou adaptações neurais semelhantes às da adolescência, outra janela crítica de desenvolvimento. “Os homens vivenciam as transformações da parentalidade sem passar pela gravidez biológica”, explicou Saxbe, o que permite separar os efeitos da gravidez dos efeitos do cuidado.
Um estudo de acompanhamento revelou que homens com maior vínculo com o bebê ainda não nascido ou que planejavam licença parental mais longa apresentavam mudanças cerebrais mais significativas. Em 2026, Rilling também relatou evidências de alterações cerebrais em pais de primeira viagem, confirmando a transição neurológica.
Uso ou perca: quanto mais envolvido, mais mudanças
A antropóloga Sarah Blaffer Hrdy, autora de Father Time, argumenta que todos os cérebros humanos possuem uma capacidade latente para cuidar de crianças, um “substrato aloparental”. Ela compara a natureza a uma “dona de casa econômica” que guarda ingredientes não utilizados. “A Mãe Natureza é uma senhora idosa com alguns hábitos muito ruins”, disse Hrdy, referindo-se à evolução do cuidado coletivo como essencial para a prosperidade da espécie.
Um estudo de 2014 liderado por Ruth Feldman, em Israel, mostrou que homens gays que eram cuidadores primários apresentavam atividade cerebral na amígdala semelhante à das mães heterossexuais, indicando que a paternidade reconfigura o cérebro independentemente do sexo ou orientação sexual.
Impactos na família e políticas públicas
Os especialistas concordam que essas descobertas devem orientar políticas públicas. Saxbe defende licenças parentais mais robustas para facilitar o vínculo entre pais e filhos. Gettler sugere envolver os homens desde o início, como em ultrassonografias e consultas médicas. “Sabemos que essa biologia potencialmente começa a entrar em ação durante o período da gravidez”, afirmou.
Os benefícios são claros: mães com parceiros participativos relatam melhor saúde mental, e um estudo de 2026 com 292 famílias mostrou que filhos de pais atentos têm melhor saúde cardiovascular, um efeito não observado com o comportamento das mães. “A biologia da paternidade fornece uma base para a formação de famílias fortes e saudáveis desde o início”, concluiu Gettler.



