Obesidade canina: 40% dos cães no Brasil estão acima do peso
Obesidade canina: 40% dos cães no Brasil estão acima do peso

A obesidade em cães já é considerada a principal doença nutricional entre pets, classificada por veterinários como uma epidemia. Segundo pesquisa da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP, cerca de 40% a 40,5% dos cães no Brasil estão obesos ou acima do peso. Dados globais indicam que até 59,3% dos cães apresentam sobrepeso. A doença reduz a expectativa de vida em aproximadamente dois anos e pode levar a problemas respiratórios, doenças metabólicas e hormonais, como diabetes, além de problemas ortopédicos, como sobrecarga nas articulações, predispondo à osteoartrose e ruptura de ligamentos.

Fatores de risco e percepção dos tutores

A médica-veterinária Ivelize da Costa Mello, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia Veterinária (SBDV), explica: “A obesidade canina é consequência de uma combinação de fatores relacionados ao estilo de vida dos animais e aos hábitos de seus tutores. Atualmente, os cães vivem mais tempo, permanecem grande parte do dia dentro de casa e apresentam níveis reduzidos de atividade física.”

Muitos tutores subestimam o sobrepeso de seus pets, confundindo “forte” com “fora do peso”. Um estudo do Dog Aging Project, em parceria com a Texas A&M University e a University of Washington, analisou dados de mais de 13.800 famílias e descobriu que apenas 18% dos tutores consideram seus cães acima do peso. No entanto, a concordância entre tutores e veterinários é de apenas 76%, indicando que muitos donos não percebem o problema.

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Critérios para diagnóstico de obesidade

Um cão é considerado obeso quando tem de 15% a 20% a mais do peso ideal. A avaliação profissional utiliza o Escore de Condição Corporal (ECC), escala de 1 a 9 pontos. O ideal é que o cão esteja entre 4 e 5 pontos: costelas palpáveis sem excesso de gordura e cintura visível. Sobrepeso corresponde a 6 e 7 pontos (costelas difíceis de sentir e cintura apagada). Obesidade é diagnosticada com 8 ou 9 pontos, quando as costelas são impossíveis de palpar, cobertas por grossas camadas de gordura, e não há cintura.

A cirurgiã veterinária Mariana Tiemi afirma: “Nós conseguimos avaliar a olho nu e pelo toque. Conseguimos ver quando os ossos aparecem, o flanco, a barriguinha dele e por meio de perguntas para os próprios tutores, como: como ele se alimenta, com que frequência, se há fornecimento de petiscos ao longo do dia ou se o cão se exercita.”

Sinais comportamentais e impacto na qualidade de vida

Cães com sobrepeso ou obesidade frequentemente apresentam mudanças de comportamento: falta de vontade de brincar, cansaço excessivo após pequenos esforços, dificuldade para subir escadas ou pular em móveis, menor tolerância ao exercício e sonolência. Alguns animais demonstram irritabilidade ao serem manipulados devido ao desconforto do excesso de peso.

“O controle do peso deve fazer parte da medicina veterinária preventiva, por meio de alimentação balanceada, prática regular de exercícios, acompanhamento veterinário e, quando indicado, utilização de estratégias nutricionais complementares que auxiliem no manejo do peso corporal”, orienta Mello.

Alimentação adequada: quantidades por porte

O primeiro passo é oferecer alimentação equilibrada, respeitando a quantidade diária recomendada para o porte, considerando peso, idade, nível de atividade física e tipo de alimento. Não existe quantidade única. Recomendações gerais para ração seca super premium:

  • Cães pequenos (2 a 5 kg): 50g a 100g por dia.
  • 5 a 10 kg: 100g a 170g por dia.
  • Médio porte (10 a 20 kg): 170g a 290g por dia.
  • Grande porte (20 a 30 kg): 290g a 390g por dia.
  • 30 a 40 kg: 390g a 480g por dia.

Esses valores são aproximados para cães adultos saudáveis e variam conforme a densidade energética de cada alimento. É essencial evitar excesso de petiscos e alimentos humanos, ricos em calorias.

“Um dos maiores problemas em relação ao aumento de peso dos cães está nesse excesso de ingestão calórica. Muitos tutores ficam contra a ração, porque preferem uma alimentação natural, porém elas são indicadas por já terem todo o suporte nutricional. Não é necessário dar petiscos a mais, porque se há comida em excesso sem exercício físico, o ganho de peso é certeiro”, alerta Tiemi.

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Ração vs. alimentação natural

O médico veterinário Flávio Lopes, gerente de relacionamento científico da PremieR, não é contra a alimentação natural, mas recomenda cautela na obesidade. “Cães obesos precisam perder peso. Os ingredientes devem ser baixos em gordura, ricos em proteína para fortalecer a musculatura, e com maior quantidade de fibras, porque o intestino funciona melhor e ele defeca mais, perdendo peso.”

Ele exemplifica: “Vamos supor que seu cachorro está com sobrepeso e você quer dar salmão. É uma proteína saudável, porém gordurosa. Pode não ser adequado sem acompanhamento profissional.”

Castração e ganho de peso

A castração reduz a produção de hormônios sexuais, diminuindo a taxa metabólica basal e a disposição para atividades. “O cão fica menos ativo, sem disposição para correr ou brincar. Se o tutor não reduz as calorias, o animal ingere a mesma quantidade de comida sem fazer exercício, acumulando gordura”, explica Lopes.

O cão Buddy, da raça pug, de 14 anos, do personal trainer Roberto Stefani, 47 anos, exemplifica o problema. Após castração aos 2 anos, Buddy tornou-se sedentário. “Ele não gosta de andar, correr, caminhar, nada, só de comer”, relata Beto. Buddy pesa entre 14 e 16 kg, enquanto o ideal para a raça é no máximo 9 kg. “Ele tem muita dificuldade para respirar, ronca demais. Parece que é dificuldade para respirar mesmo.”

A veterinária Mariana Tiemi confirma: “A parte respiratória é bastante afetada. A qualidade de vida melhora após a perda de peso: respiração melhor, mais disposição, menor risco de diabetes, colesterol e triglicerídeos altos, e menores complicações em cirurgias.”

Suplemento para controle de peso

A marca Wigow, fundada por Roberto Funari, lançará em setembro um suplemento nutricional para cães com L-carnitina, proteínas de salmão, fibras e sais minerais. A veterinária Ivelize da Costa Mello, que acompanhou o desenvolvimento, explica: “A L-carnitina transporta ácidos graxos para as mitocôndrias, onde são convertidos em energia, favorecendo o metabolismo das gorduras e auxiliando no controle do peso.”

“As fibras ocupam espaço no trato intestinal, promovendo saciedade por mais tempo. Dietas enriquecidas com fibras e proteínas de alta qualidade promovem redução de até 27% na ingestão calórica. A suplementação com L-carnitina esteve associada a redução de até 6,4% no peso corporal, por favorecer o metabolismo das gorduras e preservar massa magra”, detalha Mello.

O CEO Roberto Funari testou o suplemento em seus cães Sebastião e Teodoro, cavalier king charles spaniel. “Cuido da minha saúde com disciplina, mas não tinha nada parecido para eles.”

Mudança cultural é necessária

Veterinários ouvidos pela reportagem destacam a necessidade de combater o paradigma cultural de achar “fofo” um cão acima do peso. Ao perceber cansaço, falta de vontade de brincar ou dificuldade respiratória, o tutor deve procurar um profissional para investigar se o problema é apenas excesso de peso ou doença endócrina, e receber o tratamento adequado.