Urbelande dos Prazeres, mãe de uma menina com autismo de 4 anos, relata preocupação com a interrupção das terapias da filha após o esvaziamento de servidores e materiais no Centro de Acolhimento ao Autista (Teamarr), programa da Assembleia Legislativa de Roraima (Ale-RR). A Ale-RR afirma que o programa passa por uma reorganização administrativa e deve retomar as atividades no dia 27 de julho. Urbelane, no entanto, teme que a suspensão das terapias faça a filha perder habilidades que começou a desenvolver nos últimos dois meses, desde que conseguiu uma vaga após quase um ano de espera.
Mãe relata falta de aviso prévio
A mãe afirma não ter sido avisada que o programa entraria recesso, como a Ale-RR tem divulgado. Com a interrupção dos atendimentos sem aviso prévio, a preocupação dela é com a rotina de terapias. "Depois de quase um ano foi que finalmente consegui que a minha filha tivesse atendimento e começasse a se desenvolver para que tenha uma expectativa de vida melhor. E isso foi tirado drasticamente. Hoje ela passou a manhã inteira perguntando que horas iria ver a tia da terapia. Foi difícil ela aceitar o novo e agora vai retroceder", destacou. O receio dela é que o desenvolvimento seja comprometido.
Desenvolvimento conquistado com as terapias
Em razão das terapias, a mãe conta que a filha passou a socializar. A menina também tem hérnia diafragmática congênita (uma condição em que partes do abdômen, como intestinos ou estômago, se movem para dentro do peito através de uma abertura no diafragma) e antes a rotina era apenas de casa para o hospital. "Foi tão difícil conseguir que a minha filha socializasse, sem poder ir em uma praça ou shopping. O único lugar que teve o cuidado que ela precisa foi no Teamarr. Não aceito que tirem isso dela. Hoje ela canta, se interessa por diversas cores. Ela já fala com as pessoas, sendo que ela mal olhava nos olhos", desabafou.
Maya faz terapias há dois meses no Teamarr
Maya faz terapias há dois meses no Teamarr e a mãe conta que o acompanhamento da filha ocorre toda semana. Por ter imunidade baixa, a criança frequentava horário para resguardo, dentro de uma área exclusiva, para que não houvesse contaminação. Uberlane conta que o tratamento ajudou a filha a se desenvolver. "Ela está tão mais desenvolvida, tanto que toda segunda-feira ela já sabe que vai ter o atendimento, que até pergunta 'mamãe tá na hora de ir para a terapia'". A mãe ficou sabendo da paralisação pelas redes sociais, com a reportagem do g1 que denunciou o esvaziamento da sede do Teamarr, após a ida do presidente da Assembleia, Jorge Everton (União Brasil) ao local.
Exoneração em massa gera protestos
No dia 24 de junho, dois dias após o ex-presidente da Assembleia, Soldado Sampaio (Republicanos), perder as eleições suplementares para governo de Roraima, o deputado Jorge Everton assinou um decreto exonerando todos os servidores comissionados. Com a exoneração em massa, os profissionais que cuidavam das crianças com autismo também tiveram que deixar o cargo. Entretanto, o vínculo entre o paciente e o terapeuta é fundamental para o tratamento. "Eu vejo que é por questão de briga política. Por que as nossas crianças devem pagar por isso? As nossas crianças estão sendo punidas! Por que não exoneram as pessoas que só vão assinar a frequência todo final de mês, sendo que eles [terapeutas] estão lá trabalhando. Pegou todo mundo de surpresa e depois vão para a mídia querer distorcer", afirmou.
Unidade trancada e acesso restrito
Na terça-feira (7), a reportagem encontrou a unidade trancada. Apenas um segurança atendeu a equipe e informou que a entrada não estava autorizada. O g1 telefonou para o número pessoal da Superintendente de Programas Especiais da Ale-RR, Marília Pinto. Uma mulher identificada apenas como "Maria", que se apresentou como "diretora", atendeu a ligação. Ela afirmou que o programa cumpre um recesso de férias escolares. Inicialmente, também negou a realização de obras no local. Sobre a presença de carros de refrigeração e construtoras do lado de fora, a servidora mudou a versão. Ela confirmou que uma arquiteta realiza adequações nas salas. O g1 apurou que os servidores, que seguem exonerados, não haviam sido informados sobre a possibilidade de haver obras durante o recesso escolar deste ano.
Protesto e reunião com superintendente
Durante o protesto das mães na segunda-feira, a superintendente Marília Pinto organizou uma reunião e chamou o grupo ao plenário. Pressionada sobre quem deu a ordem para esvaziar o prédio, ela afirmou que a ordem não foi do presidente da Casa, mas não informou de quem foi. "Houve uma determinação que não foi do deputado Jorge Everton de que todos os servidores pegassem os seus objetos pessoais e saíssem. A determinação veio de alguém, mas não foi do deputado", disse Marília, sem identificar de quem foi a ordem. Sobre os materiais retirados do Centro, a médica afirmou que a decisão partiu dos próprios funcionários. "Se os equipamentos são pessoais, aqueles servidores que entenderam que não iriam permanecer levaram os seus materiais", justificou.
Nota da Ale-RR e da deputada
Em nota à Rede Amazônica, a Ale-RR informou que realiza "levantamento patrimonial" dos bens que estavam à disposição do programa, e que somente após esse estudo, será possível identificar quais itens pertencem ao patrimônio público e quais são de propriedade particular. A superintendente garantiu o retorno das atividades para o dia 27 de julho. Ela também defendeu que a Ale-RR pretende recontratar os servidores exonerados. "Em nenhum momento ele [Jorge Everton] disse que as pessoas que estão aqui não participarão mais. Ele entende a importância e o vínculo que esses servidores têm", declarou. Responsável pelo Teamarr até então, a deputada Angela Águida Portella (PP) disse em nota ter sido surpreendida com a mudança. Marília Pinto destacou que a comitiva que esteve no prédio foi "apenas conhecer o fluxo". Procurado, o presidente da Casa não respondeu aos questionamentos do g1 até a última atualização desta reportagem.
Salas esvaziadas e materiais retirados
O g1 acompanhou parte da desocupação do prédio nesta segunda e registrou quando profissionais esvaziaram salas, armários, retiraram brinquedos, materiais lúdicos e equipamentos utilizados nos atendimentos. Nenhum servidor que estava no local quis falar com a reportagem. A reportagem apurou que a equipe do presidente chegou por volta das 8h e informou que haveria uma mudança na gestão do Centro e que por isso todos os exonerados deveriam se retirar com os materiais. Policiais militares que atuam na Ale-RR acompanharam a ação. Em nota, a Ale-RR negou que a iniciativa de esvaziar a unidade tenha partido direto do presidente e atribuiu à "determinação foi adotada pela deputada Ângela Portella". Procurada, Ângela não se manifestou sobre a nota enviada pela assessoria de Jorge Everton. A Casa afirmou ainda que houve um planejamento previamente definido e que o programa entra em recesso nesta segunda, em razão do período de férias escolares. "Nesse mesmo intervalo, será realizada uma reorganização programada na unidade, com duração aproximada de 20 dias, visando melhorar a estrutura e oferecer ainda mais qualidade no atendimento".
Impacto sobre as famílias
Ao menos 750 famílias são atendidas gratuitamente pelo Teamarr, o que corresponde a mais de mil crianças e adolescentes beneficiados. Criada em 2022, a iniciativa oferta terapias e acompanhamento contínuo para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no estado. Na tarde desta segunda-feira (6), mães de pacientes atendidos pelo Teamarr protestaram em frente à Ale-RR contra as mudanças. Elas afirmam que a interrupção dos serviços compromete o tratamento dos filhos, que já criaram vínculo com os terapeutas. A mãe de um paciente atendido chorou ao chegar na unidade durante a retirada dos equipamentos. A deputada Angella esteve na unidade local durante a desocupação, mas não quis falar sobre o assunto.



