A baiana Nilza Carla Leal transformou a necessidade do filho em uma inovação médica. Mãe de João Pedro Leal, de 20 anos, que tem paralisia cerebral e necessita de gastrostomia, ela criou o JO+, um absorvente dérmico que protege a pele ao redor da sonda de alimentação. O dispositivo, desenvolvido ao longo de dez anos, já teve protótipos testados em campo e conta com patente oficializada.
Estudo durante internações
Sem rede de apoio contínua, Nilza Carla acompanhava o filho em todas as internações, levando livros e apostilas. Foi assim que conseguiu conciliar o cuidado com os estudos, tornando-se técnica de enfermagem, bióloga e, atualmente, mestranda. Ela deixou o emprego e o curso de administração em recursos humanos para se dedicar ao filho, que nasceu com paralisia cerebral devido a uma demora no parto.
“Nós identificamos algo logo no início. Ele tinha dificuldade na amamentação e tremia muito. No mesmo dia do parto, a médica recolheu ele do meu colo e levou pra UTI neonatal da maternidade. Só depois de cinco meses que veio o diagnóstico de paralisia cerebral”, contou Nilza Carla.
Apesar dos desafios, ela afirma ter encarado a situação com tranquilidade. “Para mim, foi tudo tranquilo, porque eu queria ter um filho. Quando você tem uma festa de aniversário, você não cria expectativa se vai ganhar presente ou não. Se vier, ótimo; se não, está tudo bem. Então, eu só queria ter um filho para ter uma família”, destacou.
O problema da gastrostomia
A gastrostomia cria um canal da parede abdominal ao estômago, por onde uma sonda é inserida para alimentação e medicamentos. O médico Luiz Almeida, gastroenterologista do Hospital Mater Dei Emec, explica que o procedimento é alternativa à sonda nasal para uso prolongado. No entanto, o local da incisão requer atenção constante, pois ferimentos podem surgir com o vazamento de líquidos ou atrito da sonda.
Foi ao ser acusada de maus-tratos por causa desses ferimentos que Nilza Carla buscou capacitação e, posteriormente, a solução: o JO+. “O objetivo é cobrir a pele, evitar o atrito do aparelho e, antes do suco gástrico tocar na pele, ele absorve e muda de cor à proporção que vai absorvendo. Assim, a pessoa vê o momento de troca”, explicou.
O dispositivo JO+
O absorvente dérmico é feito de poliuretano, material flexível importado da China por intermédio de um amigo brasileiro. O custo de produção por unidade é de R$ 4,90. Pacientes podem necessitar de até seis absorventes por dia, dependendo da vazão gástrica. Atualmente, além de João Pedro, mais três pessoas já utilizaram o dispositivo.
Nilza Carla busca financiamento para iniciar a produção em escala e comercialização. “Hoje, o que dificulta o JO+ estar no mercado é que os editais que participamos têm um critério de faturamento anual de R$ 100 mil. E a gente ainda não fatura porque a gente ainda não vende. Isso desclassifica a gente, faz com que a gente fique batalhando com amigos, porque temos que pagar patente todo ano, CNPJ, e eu não tenho esse recurso”, lamenta.
Ela também planeja construir uma fábrica para produzir sua própria matéria-prima, o que tornaria o dispositivo mais barato. “Eu me orgulho do desafio de ter um filho deficiente e dizer não à sociedade, quando diziam que eu era louca por buscar os direitos dele, me orgulho da minha segunda filha, que hoje é uma pessoa que me apoia, e tenho orgulho de ter voltado a estudar”, finaliza Nilza Carla.



