O médico brasileiro da Fifa na Copa do Mundo de 2026, André Pedrinelli, compara o corpo humano a uma máquina que precisa ser resfriada. "Nós somos uma máquina. Para funcionar, ela esquenta. Imagina um radiador do carro. Para que ele serve? Para resfriar o motor", explica. Em um Mundial marcado por altas temperaturas — a final entre Espanha e Argentina neste domingo, às 15h locais (16h de Brasília), tem previsão de 28°C —, uma sigla complicada guiou a medicina esportiva e as pausas para hidratação: WBGT (Temperatura de Globo de Bulbo Úmido).
O que é o índice WBGT e como é medido
O WBGT é um termômetro especial que combina temperatura, umidade e velocidade do vento para avaliar o estresse térmico. "A regra da Fifa é para adulto 32° de WBGT. E categoria de base é 28° de WBGT", detalha Pedrinelli, que também preside a Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte (SBMEE). A temperatura de WBGT geralmente fica cerca de 4 graus abaixo da temperatura convencional. As medidas são combinadas à umidade do local e à sensação térmica, resultando no Índice de Bulbo Úmido, que avalia o estresse térmico real no corpo humano.
"Só que a sensação térmica também implica em saber se o cara está na sombra ou se está exposto ao sol, que roupa usa, se ele tomou líquido antes. Você tem que entender o contexto das medidas", lembra o médico. As medições começaram a ser feitas 1h a 1h30 antes do jogo, no centro do gramado, para refletir a temperatura de jogo dos atletas. Essa prática veio do atletismo, que mede para decidir se a competição pode acontecer ou se deve ser interrompida.
Pausas para hidratação e recursos de resfriamento
Com temperaturas beirando os 40°C no termômetro convencional, a pausa para hidratação de três minutos serviu para recondicionar os atletas. "A pausa serviu para resfriar o motor. O nosso pulmão é esse radiador. Essa troca gasosa equilibra a temperatura. Se você tem temperatura, umidade e radiação muito altas, vai usar mais a máquina de regulagem, gastando energia e perdendo capacidade física. Se consegue resfriar o atleta e diminuir a sudorese, ganha capacidade física", explica Pedrinelli.
"A pausa de hidratação cumpriu sua necessidade. Existem vários aspectos: médico, financeiro, técnico, tático. Da parte médica, funciona e ajuda. É necessário em todas as partidas? Provavelmente não", conta. Foi comum nesta Copa o uso de coletes e capacetes de gelo para resfriar o corpo, adquiridos pelas próprias seleções. A Fifa providenciou ar condicionado em todos os bancos de reserva e uma banheira portátil para casos de "heat stroke" (lesão térmica por calor). "Que eu saiba não foi usado, mas na banheira a gente põe água, gelo, mede temperatura do atleta. Ficava na sala de atendimento médico", diz Pedrinelli.
Papel do match doctor e preparação
Como um dos "match doctors" escalados pela Fifa, Pedrinelli cuidou da área médica em Monterrey, desde treinamento das equipes de emergência até checagem de equipamentos, plano de evacuação e rota até o hospital indicado. Ele também trabalhará na Copa do Mundo feminina de 2027. O calor extremo nos Estados Unidos, onde parte do torneio foi sediada, gerou preocupação, mas as medidas adotadas garantiram a segurança dos atletas.



