A rotina de quem convivia com dor crônica no Brasil passou a ter uma nova perspectiva com a sanção, em junho, da lei que estabeleceu diretrizes para ampliar a assistência a esses pacientes. A norma previu atendimento integral pelo Sistema Único de Saúde (SUS), tornou obrigatório o ensino sobre dor crônica nos cursos da área da saúde e criou o Dia Nacional de Conscientização e Enfrentamento da Dor Crônica, celebrado em 5 de julho. Para quem enfrenta diariamente uma das doenças mais incapacitantes, a expectativa é que as mudanças reduzam anos de sofrimento até o diagnóstico e o tratamento adequado.
O caso de Carolina Arruda
É o caso de Carolina Arruda, moradora de Bambuí, no Centro-Oeste de Minas Gerais. Há quase 13 anos, ela convive com a neuralgia do trigêmeo, doença neurológica que provoca dores intensas e incapacitantes na face e é frequentemente descrita por especialistas como uma das condições mais dolorosas da medicina. Carolina ganhou projeção nacional ao compartilhar a rotina nas redes sociais e conceder entrevistas sobre os desafios de conviver com a doença. Em 2024, a história dela repercutiu após tornar pública a decisão de buscar a eutanásia no exterior por causa da intensidade da dor e da falta de resposta aos tratamentos disponíveis. Desde então, ela também passou a atuar na conscientização sobre a neuralgia do trigêmeo e outras condições de dor crônica.
Impacto da nova legislação
Para Carolina, a nova legislação representa um marco para milhões de brasileiros que convivem com doenças semelhantes. "Se essa garantia realmente sair do papel, ela vai mudar completamente a vida de quem convive com dor crônica. Hoje, muitas pessoas passam anos indo de consulta em consulta, fazendo exames, tentando tratamentos diferentes, sem conseguir um atendimento organizado. A dor acaba sendo tratada de forma isolada, quando, na verdade, ela afeta todas as áreas da vida", disse. No caso da neuralgia do trigêmeo, Carolina afirma que é comum o paciente passar por diferentes especialidades médicas até encontrar um profissional que identifique a doença. "Eu convivo com a neuralgia do trigêmeo há quase 13 anos e sei o quanto é desgastante lutar não só contra a dor, mas também para conseguir acesso aos profissionais certos, aos medicamentos e aos tratamentos disponíveis."
Dificuldades no acesso ao diagnóstico
Segundo Carolina, essa dificuldade faz com que muitos pacientes desistam de buscar atendimento. "Muita gente acaba ouvindo que não há mais o que fazer ou que não existe tratamento. Vejo pessoas chegando até mim completamente perdidas, sem diagnóstico e sem saber qual caminho seguir. Um atendimento realmente integral pode diminuir esse tempo de espera, evitar anos de sofrimento e trazer mais qualidade de vida."
Falta de preparo dos profissionais
Entre os principais problemas enfrentados pelos pacientes, Carolina aponta a falta de formação específica dos profissionais de saúde sobre dor crônica. Para mudar esse cenário, a lei sancionada determina a inclusão do ensino sobre dor crônica na grade curricular dos cursos da área da saúde. Na avaliação dela, muitas doenças ainda recebem pouca atenção durante a graduação. Isso contribui para diagnósticos tardios e tratamentos inadequados. "Sem dúvida, a falta de preparo ainda é um dos maiores desafios para quem vive com dor crônica. Muitas dessas doenças são pouco abordadas durante a formação dos profissionais. Isso faz com que muitos pacientes demorem anos para receber um diagnóstico."
Atendimento de urgência e preconceito
Segundo Carolina, a falta de preparo dos profissionais também é percebida nos atendimentos de urgência. "Durante uma crise intensa, muitas pessoas chegam ao pronto-socorro e a equipe nem sempre reconhece que aquela dor está relacionada a uma condição crônica específica. Às vezes, o paciente ainda é visto com desconfiança por precisar de medicamentos para controlar uma dor que faz parte da própria doença."
Campanhas de conscientização
A nova legislação também institui uma campanha nacional anual de conscientização. Para Carolina, a iniciativa pode ajudar a reduzir o preconceito enfrentado por pessoas que convivem com doenças invisíveis. "Quem vive com dor crônica enfrenta dois desafios: a própria dor e a dificuldade de fazer com que as pessoas entendam que ela existe. Como muitas dessas doenças são invisíveis, ainda é comum ouvir que é exagero, ansiedade ou que a pessoa precisa ser mais forte." Carolina acredita que ampliar o acesso à informação pode ajudar a mudar esse cenário. "As campanhas ajudam familiares, empregadores e até profissionais da saúde a entenderem que dor crônica é uma condição de saúde e não um exagero".
Desafios da implementação
Embora considere a lei um avanço importante, Carolina afirmou que o principal desafio agora é garantir que as medidas previstas sejam colocadas em prática. "Ela mostra que a dor crônica finalmente começa a ocupar o espaço que merece dentro das políticas públicas de saúde. Mas o desafio começa agora. A lei só fará diferença quando realmente sair do papel", destacou. Por fim, Carolina reforçou que a principal meta deve ser garantir acesso igualitário ao tratamento para todas as pessoas com dor crônica. "Não basta reconhecer a dor crônica. É preciso garantir que o paciente consiga acessar especialistas, medicamentos, tratamentos e uma equipe multiprofissional, independentemente de onde mora, se é na capital ou no interior, como eu", finalizou.



