Jovem de 25 anos sofre AVC após trombose venosa cerebral e relata experiência de quase morte
Jovem sofre AVC após trombose venosa cerebral: quase morte

Tayla Sanchez, hoje com 35 anos, quase morreu aos 25 anos devido a um acidente vascular cerebral (AVC) isquêmico desencadeado por trombose venosa cerebral. Ela ficou em coma induzido por dias, intubada, após múltiplas convulsões. Na sexta-feira de setembro de 2016, um fisioterapeuta ligou chorando para a prima de Tayla, informando que a paciente não passaria do fim de semana. Na segunda-feira seguinte, ela abriu os olhos. "Literalmente morri", diz Tayla. "As pessoas pensam que é no sentido figurado da palavra, mas não. Eu morri e voltei."

O que é trombose venosa cerebral e como leva ao AVC

O sangue chega ao cérebro pelas artérias, irriga os tecidos e sai pelas veias, percorrendo os seios venosos até a veia jugular. A trombose venosa cerebral é a formação de um coágulo dentro de um desses seios venosos, impedindo a drenagem do sangue. Como o crânio é uma caixa rígida, o acúmulo de sangue aumenta a pressão intracraniana, explica o neurocirurgião Helder Picarelli, do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp). Esse aumento de pressão provoca o AVC: partes do cérebro deixam de receber oxigênio e nutrientes, caracterizando um AVC isquêmico (infarto cerebral). A pressão também pode romper vasos menores, causando AVC hemorrágico (derrame). O AVC isquêmico responde por 80% a 85% dos casos; o hemorrágico, por 15% a 20%. No caso de Tayla, os exames sugeriram uma combinação dos dois.

Por que isso acontece em jovens

O AVC costuma ser associado a idosos com hipertensão, mas o perfil mudou. Uma causa frequente entre mulheres jovens é a trombose venosa cerebral associada ao uso de anticoncepcionais hormonais à base de estrogênio, que favorece a coagulação. O risco se multiplica com tabagismo, obesidade, sedentarismo ou predisposições genéticas, segundo o neurocirurgião Feres Chaddad, da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo. Tayla não fumava, mas usava a pílula havia dez anos e tinha predisposição genética à trombose, identificada depois. Picarelli afirma que o rastreamento de alterações genéticas da coagulação é obrigatório em casos de trombose em jovens.

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Sintoma ignorado: dor de cabeça intensa

Dor de cabeça intensa está presente em 80% a 90% dos casos de trombose venosa cerebral. É uma dor súbita, que não melhora com analgésicos e pode vir acompanhada de náusea, vômito, confusão mental ou perda de força. Piora com esforço físico e, se o coágulo cresce, evolui para sonolência, convulsões e coma. Tayla relatou esse padrão por um ano e meio, mas foi diagnosticada com enxaqueca. Chaddad afirma que toda dor de cabeça que muda de padrão precisa de exame de imagem. "Se tivessem feito o exame na época, teriam diagnosticado a trombose venosa nela", diz. "Imediatamente ela tinha que ter sido colocada numa UTI e feita a anticoagulação plena. É a única forma de salvar a vida dela."

Três experiências de quase morte

Tayla não se lembra dos 20 dias de internação (18 em UTI). A irmã conta que ela passou da enfermaria para a semi-UTI, depois UTI, até ser intubada. Teve cinco convulsões e dois ciclos de intubação. Em coma, viveu três experiências de quase morte: uma como um sonho de casamento; outra como um céu estrelado e sensação de estar no útero da mãe; a última foi acolhedora, com a sensação de que morrer estava bem. Na sexta-feira em que o fisioterapeuta ligou, a família decidiu esperar até segunda-feira para contar aos parentes. Tayla acordou na segunda.

Recuperação e sequelas

Ao acordar, Tayla havia perdido o movimento do lado direito do corpo. Precisou reaprender a falar, andar, escrever e digitar. A velocidade de digitação nunca voltou. A recuperação foi possível pela neuroplasticidade do cérebro jovem, explica Picarelli. Dez anos depois, ela mantém acompanhamento com hematologista e nunca mais usou anticoncepcional hormonal.

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Anticoncepcional é inseguro?

O risco de trombose está associado a anticoncepcionais combinados (estrogênio e progesterona). Segundo a Anvisa, mulheres que usam esse tipo têm cerca de três vezes mais chance de desenvolver tromboembolismo venoso. O risco é maior nos primeiros três meses. Para a maioria, o risco absoluto é baixo, mas se somam fatores como tabagismo, obesidade e predisposições genéticas. Alternativas seguras incluem anticoncepcionais só de progesterona, DIU hormonal de levonorgestrel e DIU de cobre. Picarelli defende a investigação de trombofilias antes de prescrever anticoncepcional hormonal combinado. "Antes de iniciar ou manter o uso de qualquer método hormonal combinado, vale perguntar ao médico sobre histórico familiar de coágulos, solicitar a investigação de trombofilias caso haja fatores de risco e entender se aquela formulação específica é a mais adequada para o seu perfil", conclui.