Jovem de 25 anos morre de câncer após luta por remédio de R$ 80 mil
Jovem morre de melanoma após negativa de imunoterapia

Maria Eduarda Cardoso Ferreira, de 25 anos, morreu na sexta-feira (17) em Coronel Macedo (SP) vítima de melanoma metastático. A confirmação foi feita pela família na segunda-feira (20). A jovem, que era enfermeira e mãe de um bebê de cinco meses, lutava na Justiça para obter um tratamento imunoterápico de R$ 80 mil por dose, negado pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Sangramento cerebral e morte a caminho do hospital

De acordo com a mãe, Andréia Cardoso Ferreira, de 43 anos, Maria Eduarda sofreu um sangramento cerebral. Na sexta-feira, ela relatou dores e mal-estar. A família acionou o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), que prestou os primeiros socorros, mas a jovem morreu a caminho do hospital.

“A Duda lutou até o último dia e suspiro contra essa doença. Infelizmente, neste último diagnóstico, a doença atingiu o sistema nervoso e a cabeça dela. Ela foi muito especial”, disse Andréia.

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Batizado do filho um dia antes da morte

Maria Eduarda era casada e deu à luz o primeiro filho, Rafael, há cerca de cinco meses. O batizado da criança ocorreu na quinta-feira (16), um dia antes da morte da jovem. “Na mesma semana, na quinta-feira, aconteceu o batizado do Rafael, que ela tanto queria. Ela conseguiu ver o batizado do filho. A partida dela tem sido muito difícil. Ela queria viver, queria a cura dessa doença, pois queria estar cuidando do Rafael”, lamentou a mãe.

Andréia relembrou que, recentemente, a filha havia sido submetida a uma sessão de radioterapia na região da cabeça e, desde então, seguia recebendo cuidados em casa. Com o avanço da doença, ela passou a enfrentar limitações na mobilidade e na comunicação.

“A doença foi tomando conta dela, mas mesmo assim, cada dia mais ela lutava e falava: ‘eu vou vencer’. A Maria Eduarda era uma menina doce, meiga, carinhosa, que amava a vida e lutava pelos sonhos dela. Ela amava o Rafael de um jeito que não tinha explicação”, contou Andréia. “Entramos aqui no quarto dela e parece que ela vai chegar a qualquer momento e chamar a gente. Uma solidão e vontade de sair gritando por ela”, completou.

Luta na Justiça por imunoterapia de R$ 80 mil

Enquanto lutava contra o câncer, Maria Eduarda enfrentava uma batalha na Justiça para conseguir acesso a um tratamento imunoterápico, avaliado em cerca de R$ 80 mil e indisponível no SUS. Andréia acredita que, se a filha tivesse recebido a imunoterapia antes do avanço da doença, poderia ter apresentado uma resposta mais positiva ao tratamento.

Segundo a mãe, o pedido de acesso ao medicamento foi negado pela Justiça. Maria Eduarda chegou a aplicar algumas doses do medicamento após uma arrecadação financeira feita pela família e amigos. “A doença já estava bastante espalhada pelo corpo dela, havia muitas metástases. Foi brigando com as doses que ela tomou”, aponta a mãe.

Decisão judicial e posição do Ministério da Saúde

A Justiça Federal, por meio do Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF3), informou que negou o pedido porque um dos medicamentos solicitados não é incorporado ao SUS. A decisão seguiu o entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF), consolidado nas Súmulas Vinculantes nº 60 e nº 61, que estabelecem critérios para o fornecimento de medicamentos pelo poder público, especialmente quando não incorporados ao SUS. Entre esses critérios está a necessidade de comprovação técnica e médica da indispensabilidade do tratamento.

O pedido de tutela de urgência foi negado em 18 de abril de 2026 e, posteriormente, em sentença proferida em 11 de junho do mesmo ano, a Justiça confirmou a decisão. Em nota, o Ministério da Saúde informou que atua apenas nos casos em que há decisão judicial favorável para o fornecimento do medicamento, o que não ocorreu no processo. A pasta acrescentou que, desde a publicação da Portaria da Assistência Farmacêutica Oncológica (AF-Onco), em outubro de 2025, vem acelerando o acesso dos pacientes aos medicamentos. “Com investimento de R$ 2,2 bilhões, a iniciativa ampliará em 35% a oferta de medicamentos para o tratamento do câncer. Ao todo, serão incorporados gradualmente 23 novos fármacos de alto custo, beneficiando cerca de 112 mil pacientes”, diz o comunicado.

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Diagnóstico e tratamento

Em março do ano passado, Maria Eduarda recebeu o diagnóstico da doença após realizar a biópsia de uma pinta de nascença na coxa esquerda. Em entrevista ao g1 em abril deste ano, a jovem contou que, por trabalhar na área da saúde, percebeu que algumas alterações na pinta eram incomuns. “Eu sempre tive essa pinta, só que ela começou a mudar de forma, cor e tamanho. Como eu sou enfermeira, lá no hospital mesmo onde eu trabalho, a gente resolveu tirar essa pinta para fazer a biópsia. Eu tinha acabado de chegar de um plantão noturno e o laboratório me mandou o resultado da biópsia”, relembrou.

Logo após o diagnóstico, ela iniciou o tratamento contra o câncer em um hospital de Jaú (SP), onde passou por duas cirurgias: uma para ampliação das margens e outra para a biópsia de linfonodo sentinela. Com a confirmação de malignidade, a paciente foi transferida para Barretos (SP), onde deu continuidade ao tratamento e se submeteu a novos procedimentos cirúrgicos. Em Barretos, a jovem ia participar de uma pesquisa clínica para iniciar a imunoterapia, mas o processo precisou ser interrompido após a descoberta de que ela estava grávida.

Em novembro do ano passado, quando ainda estava gestante, Maria Eduarda sofreu uma progressão da doença, com o crescimento de linfonodo e a confirmação da malignidade. Em fevereiro, novos exames de imagem apontaram a progressão do câncer em ossos, pulmões, linfonodos e nódulos subcutâneos. Um atestado emitido no fim de março, assinado pelo oncologista Caio Augusto Dantas Pereira, indicou que Maria seguia em tratamento para o controle da dor, sem resultados satisfatórios. Na mesma semana, especialistas recomendaram a imunoterapia como alternativa para conter o avanço da doença e ampliar a sobrevida. Foram indicados os medicamentos inibidores de PD-1 e CTLA-4, que retiram o bloqueio imposto pelo tumor ao organismo, permitindo que as células de defesa voltem a combater o câncer. Cada aplicação custa cerca de R$ 80 mil.

Mobilização da cidade

Para que a jovem conseguisse seguir com as aplicações da imunoterapia, amigos e familiares iniciaram uma campanha de arrecadação. No dia 11 de abril, a rede de apoio organizou uma carreata de surpresa, com veículos percorrendo ruas da cidade, balões verdes e mensagens de motivação. Ao final, o grupo se reuniu em uma praça e fez uma oração.