Fenótipos sanguíneos raros desafiam transfusões em doenças hematológicas
Fenótipos raros dificultam transfusões em doenças do sangue

A compatibilidade sanguínea vai muito além dos tipos A, B, AB e O e do fator Rh. Para pacientes com doenças hematológicas como anemia falciforme, talassemia, aplasia de medula e síndromes mielodisplásicas, encontrar sangue seguro para transfusões frequentes é um desafio que envolve dezenas de sistemas de grupos sanguíneos e fenótipos raros.

O que são fenótipos sanguíneos raros?

Existem 48 sistemas de grupos sanguíneos reconhecidos pela International Society of Blood Transfusion. Um fenótipo raro ocorre quando uma pessoa apresenta uma combinação incomum de antígenos ou ausência de antígenos de alta frequência na população. Segundo a médica Lilian Castilho, membro associada da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH) e pesquisadora do Hemocentro da Unicamp, “em alguns casos, a chance de encontrar outro doador compatível pode ser inferior a uma em mil pessoas”.

Por que nem toda transfusão é simples?

Pacientes que recebem transfusões ao longo de muitos anos podem desenvolver aloimunização, processo no qual o organismo produz anticorpos contra antígenos presentes nas hemácias transfundidas. Mesmo com compatibilidade ABO e Rh, diferenças em outros antígenos podem causar destruição das células transfundidas. Para pacientes com anemia falciforme, talassemia, aplasia de medula e síndromes mielodisplásicas, a compatibilidade precisa considerar características específicas identificadas por exames laboratoriais e testes genéticos.

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Quando a compatibilidade ampliada é necessária?

A compatibilidade ampliada é indispensável para pacientes que recebem transfusões frequentes ou já desenvolveram anticorpos. A análise vai além do ABO e RhD e considera outros sistemas de grupos sanguíneos para reduzir o risco de aloimunização e hemólise. Isso acontece especialmente em pessoas com doença falciforme e talassemia, além de candidatos a transplante de medula óssea. Anticorpos antigos que não aparecem em exames de rotina podem provocar destruição das hemácias após nova exposição ao antígeno.

Quais são os riscos de uma transfusão incompatível?

As consequências podem ser graves e fatais. A incompatibilidade pode levar a febre, dor, insuficiência renal, choque e hemólise aguda. Reações tardias podem causar queda inesperada da hemoglobina e piora clínica. A formação de novos anticorpos torna futuras transfusões ainda mais difíceis. Em pacientes com doença falciforme, pode ocorrer hiper-hemólise, destruição tanto das hemácias transfundidas quanto das próprias hemácias do paciente.

O que acontece quando não há doador compatível?

A ausência de sangue adequado pode atrasar ou impedir transfusões necessárias. O uso de bolsas parcialmente incompatíveis aumenta o risco de hemólise grave e piora progressiva da anemia. Lilian Castilho destaca: “Em situações mais complexas, a busca por bolsas compatíveis ultrapassa fronteiras e envolve programas internacionais de sangue raro”.

O Brasil consegue mapear esses doadores?

O Brasil avançou na identificação de doadores raros, mas ainda enfrenta limitações. O país possui um registro nacional de doadores raros ligado ao Ministério da Saúde, alimentado por hemocentros e laboratórios de referência que realizam fenotipagem e genotipagem eritrocitária. Quando um paciente precisa de sangue raro, os serviços consultam esses bancos de dados. Em situações complexas, a procura inclui registros internacionais. No entanto, a cobertura é desigual entre as regiões, e muitos doadores ainda não passaram por investigação molecular.

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O que ainda precisa avançar?

A imuno-hematologia molecular ampliou a capacidade de identificar variantes genéticas e localizar sangue compatível com mais precisão. Avanços incluem a expansão da genotipagem eritrocitária, a criação de bancos de doadores raros, a criopreservação de hemácias raras e a integração entre hemocentros. Pacientes politransfundidos passaram a receber sangue compatível para múltiplos antígenos, reduzindo o risco de aloimunização. Ainda há desafios: ampliar o número de doadores genotipados, reduzir desigualdades regionais, integrar bancos de dados nacionais e tornar a genotipagem mais acessível no sistema público. Como conclui Lilian Castilho: “Quanto maior a diversidade de doadores cadastrados e estudados molecularmente, maior a chance de encontrar sangue compatível para pacientes com fenótipos raros”.