FDA aprova edição genômica CRISPR para curar anemia falciforme
FDA aprova edição genômica para curar anemia falciforme

O FDA (Food and Drug Administration) dos EUA deu um passo histórico ao aprovar o uso da edição genômica em seres humanos para curar a anemia falciforme. As primeiras pessoas curadas de uma doença genética através da modificação por edição do seu genoma já são uma realidade.

O que é a anemia falciforme?

A anemia falciforme é causada por uma mutação no gene da hemoglobina, a proteína que carrega oxigênio e dá a cor vermelha ao sangue. Pessoas que possuem somente uma cópia do gene defeituoso não têm sintomas, mas transmitem a doença, pois são portadoras do gene alterado. Quando um portador do gene defeituoso se casa com outro portador, um em cada quatro filhos terá dois genes mutados e apresentará a doença. No mundo, existem aproximadamente 5 milhões de pessoas com a doença, das quais aproximadamente 110 mil morrem todos os anos. O número de portadores sadios é muito maior.

São as células vermelhas (hemácias) que contêm a hemoglobina e transportam o oxigênio do pulmão para o resto do corpo. Nos pacientes, as hemácias têm forma de vírgulas em vez de redondas. Devido a essa forma alterada, formam pequenos aglomerados que entopem os capilares mais finos em todos os órgãos, causando dores, dificultando a passagem do sangue e a nutrição dos órgãos. A pessoa passa a vida de crise em crise e acaba morrendo mais cedo.

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Como surge a doença?

A anemia falciforme aparece na primeira infância. Ela não ocorre enquanto a pessoa está no útero ou logo que nasce, pois nessa fase o gene que produz a proteína defeituosa está desligado e o grosso da hemoglobina que circula no sangue é a hemoglobina fetal, produzida por outro gene. Logo que a criança nasce, a produção da hemoglobina fetal é inibida e o sangue passa a ser composto principalmente pela hemoglobina adulta. Nesse momento a doença aparece. Para aliviar os problemas, a solução é fazer transfusões frequentes de sangue, o que dilui a hemoglobina defeituosa e faz com que os sintomas desapareçam por um tempo.

A estratégia de tratamento com CRISPR

A ideia dos cientistas para curar a doença foi baseada na observação de que basta diminuir a quantidade relativa de hemoglobina defeituosa usando hemoglobina normal. É o que ocorre com as transfusões e também em pessoas que possuem um gene normal e um defeituoso. Para alterar o genoma dos pacientes, uma solução seria reativar a produção da hemoglobina fetal que foi desligada na infância. Como a produção da hemoglobina fetal é inibida nos adultos porque existe um gene (chamado BCL11A) que impede sua produção, os médicos e cientistas decidiram modificar esse gene, imaginando que, destruindo o inibidor, os genes da hemoglobina fetal seriam ativados, a hemoglobina fetal seria produzida, diluiria no sangue a hemoglobina adulta defeituosa, e a pessoa ficaria curada. Para modificar o gene inibidor, utilizaram a tecnologia CRISPR.

Testes em humanos e resultados

Os experimentos foram primeiro feitos em animais e depois repetidos em seres humanos. Os testes já envolveram mais de 40 pacientes. O processo funciona assim: primeiro, as células que vão se transformar em hemácias e produzir hemoglobina são retiradas do paciente. Essas células são levadas ao laboratório e, usando a técnica de edição genômica (CRISPR), o gene inibidor (BCL11A) é alterado e deixa de funcionar. Em seguida, o paciente recebe uma espécie de quimioterapia para destruir ou reduzir as células no seu corpo que produzem hemácias, e então as células modificadas são injetadas de volta.

Os cientistas descobriram que, assim que o paciente se recupera, ele começa a produzir hemoglobina fetal em grande quantidade, e a hemoglobina fetal em circulação faz com que a doença desapareça. A pessoa fica curada. Ou seja, a estratégia de destruir o inibidor e permitir a produção de hemoglobina fetal funciona e cura o paciente.

Aprovação do FDA e impacto

Com base no tratamento desses 40 pacientes, os médicos pediram ao FDA que aprove esse tratamento para uso na população. O grupo de cientistas e médicos do FDA que avalia esses pedidos considerou o tratamento eficaz e seguro e recomendou sua liberação. Muito provavelmente o tratamento será liberado nas próximas semanas e deve ficar disponível.

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É importante lembrar que esse ainda é um tratamento caro e difícil, pois envolve a retirada de células, sua modificação e sua reintrodução. Por esse motivo, deve levar tempo para ser aprovado e estar disponível no Brasil. No Brasil, temos quase 100 mil pessoas que sofrem com a doença, e mil pessoas nascem por ano com a doença.

O importante é que esse é o primeiro tratamento para uma doença genética que utiliza edição genômica (CRISPR) considerado seguro e eficaz. É uma enorme porta que se abre para corrigir defeitos presentes no nosso genoma.