Dieta de Haaland: 6 mil calorias, fígado e leite cru; especialistas analisam
Dieta de Haaland: 6 mil calorias, fígado e leite cru analisados

Haaland consome 6 mil calorias diárias: o que diz a ciência

Enquanto um adulto sedentário consome, em média, entre 2 mil e 2.500 quilocalorias por dia, o norueguês Erling Haaland ingere cerca de 6 mil — quase o triplo. A cifra tem como base alimentos como fígado e coração bovinos e leite cru, somados a uma disciplina rígida de sono, que inclui fita para vedar a boca à noite, óculos que bloqueiam luz azul e um sistema próprio de filtragem de água.

Autor de quatro gols nas duas primeiras rodadas do Grupo I da Copa do Mundo, Haaland tornou pública parte dessa rotina no documentário "Haaland: A Grande Decisão", do serviço de streaming norueguês Viaplay. Nele, o atacante resume sua filosofia: dormir bem e comer com qualidade, priorizando o que considera alimento "local" e evitando ultraprocessados.

O g1 ouviu cinco especialistas — três nutricionistas, um endocrinologista e um cardiologista com formação em medicina do esporte — para separar o que tem base científica do que ainda carece de evidências.

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Por que 6 mil calorias fazem sentido só para ele

Para a população em geral, um consumo calórico dessa magnitude tenderia a causar ganho expressivo de gordura corporal. Em um atleta de elite como Haaland, porém, o cenário é outro: o volume e a intensidade dos treinos, a frequência de jogos, a massa muscular elevada e a necessidade de otimizar a recuperação elevam substancialmente o gasto energético diário.

Com 1,95 m e pesando entre 88 kg e 94 kg, Haaland tem, segundo estimativas baseadas apenas nesses dados — sem exames mais precisos, como teste ergoespirométrico ou avaliação de composição corporal —, um metabolismo basal que provavelmente gira em torno de 2.200 a 2.500 kcal por dia. Somando as demandas do treinamento intenso e da recuperação muscular, uma ingestão próxima de 6 mil calorias pode ser necessária em períodos específicos da temporada, mas não se sustenta o ano inteiro: o valor deve variar conforme a carga de treino e os objetivos do atleta em cada fase.

Uma alimentação nesse patamar, quando bem calculada, traz benefícios concretos para o corpo do atleta: os músculos armazenam mais energia para os treinos e jogos, a recuperação depois do esforço é mais rápida, a inflamação causada pelo desgaste físico intenso é controlada e o sistema imunológico funciona melhor — o que ajuda a evitar lesões e infecções. Essa quantidade extra de calorias também é o que permite ao atleta manter o peso e a massa muscular. Sem ela, a queda de desempenho é praticamente inevitável: o corpo passa a "queimar" os próprios músculos como fonte de energia, o que é o oposto do que um jogador de alto rendimento precisa.

Fígado e coração bovino: nutrientes em alta concentração

Os cortes que chamam atenção na dieta do norueguês — fígado e coração bovinos — são verdadeiras bombas de nutrientes: têm proteína de excelente qualidade, ferro de fácil absorção pelo corpo, zinco, selênio e vitaminas do complexo B, com destaque para a B12, importante para a energia e a formação de células do sangue. O fígado se destaca ainda pela quantidade de vitamina A, e o coração, por uma substância chamada coenzima Q10, que ajuda as células a produzir energia. Os dois cortes também são ricos em dois blocos de proteína (leucina e isoleucina) fundamentais para a manutenção dos músculos.

Essa concentração de nutrientes, porém, tem um lado que pede atenção: 100 gramas de fígado bovino podem fornecer de cinco a dez vezes a quantidade de vitamina A que uma pessoa precisa por dia — no fígado de frango, essa proporção chega a quase o dobro do recomendado. Comer fígado em excesso e com frequência pode levar a um quadro de intoxicação por vitamina A, além de sobrecarregar o organismo de ferro em pessoas com predisposição a isso. Por essa razão, o consumo indicado é semanal, em porções moderadas — não diário.

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Já a preocupação com o colesterol da carne costuma ser exagerada: para a maioria das pessoas saudáveis, a genética influencia mais os níveis de colesterol no sangue do que a alimentação. O alerta vale principalmente para quem já tem colesterol alto diagnosticado. Vale lembrar, também, que fígado e coração não são obrigatórios para ter uma boa dieta: carnes magras, peixes, ovos e leite oferecem proteína de qualidade parecida dentro de um cardápio equilibrado. A preferência de Haaland por vísceras tem a ver, em boa parte, com gosto pessoal e um hábito alimentar que ele carrega desde criança.

Leite cru: o hábito mais contestado

Se há um ponto de convergência entre todas as fontes ouvidas pelo g1, é o ceticismo em relação ao leite cru. Não existem evidências científicas robustas de que o alimento ofereça vantagem nutricional ou de desempenho em relação ao leite pasteurizado — a pasteurização preserva a maior parte dos nutrientes e reduz de forma significativa o risco de contaminação. O leite não processado, por outro lado, está associado a um risco real de infecções por bactérias como Salmonella, Escherichia coli, Campylobacter e Listeria.

Argumentos sobre maior concentração de probióticos e enzimas que se degradariam na pasteurização até têm algum fundamento, mas não compensam esse risco microbiológico — para um atleta profissional, cuja saúde é também sua ferramenta de trabalho, a relação entre risco e benefício pende claramente para o lado desfavorável. Ainda assim, pondera-se que a diferença também passa por gosto pessoal, e que, havendo procedência confiável e cuidados rígidos de higiene — como os que um atleta do nível de Haaland presumivelmente tem acesso —, o risco individual pode ser menor do que em um contexto de consumo popular sem esse controle.

‘Natural’ e ‘local’ não significam melhor desempenho

A valorização de alimentos "naturais" ou "locais", recorrente no discurso de Haaland, não encontra respaldo isolado na literatura científica como fator de melhora de performance. O que de fato influencia o desempenho é a adequação do plano alimentar ao gasto energético, a qualidade global da dieta e a periodização nutricional ao longo da temporada. Alimentos minimamente processados tendem a favorecer maior qualidade nutricional, frescor e adesão ao plano — mas esse ganho decorre do conjunto da dieta, não da origem do alimento em si.

Dietas de atletas de alto rendimento costumam ser naturalmente hipercalóricas e hiperproteicas, o que cria um estímulo cultural para o consumo de produtos locais e de maior aceitação pessoal — evitar ultraprocessados, no entanto, é uma orientação válida para qualquer pessoa, atleta ou não. É também nesse ponto que entra um dos hábitos mais consistentes de Haaland: o fato de quase não consumir alimentos ultraprocessados retira do seu cardápio aditivos, açúcares e conservantes usados para prolongar validade e aumentar palatabilidade, preservando o alimento em sua melhor concentração de vitaminas e minerais.

Sono, luz solar e filtragem de água

Fora do prato, a rotina de Haaland inclui vedar a boca com fita antes de dormir, usar óculos bloqueadores de luz azul, eliminar sinais eletrônicos do quarto e buscar exposição à luz solar logo ao acordar — hábito que, segundo o próprio jogador, favorece o ritmo circadiano. Nesse ponto, a ciência do sono dá razão a ele em parte: a exposição à luz natural pela manhã e a redução de estímulos luminosos à noite são mecanismos bem descritos na regulação do relógio biológico, com efeito direto sobre a qualidade do descanso e, consequentemente, sobre a recuperação muscular.

Já a fita usada para vedar a boca durante a noite é uma prática popularizada nas redes sociais nos últimos anos, mas ainda sem respaldo consistente em estudos controlados — e potencialmente arriscada para quem tem apneia do sono não diagnosticada, já que pode dificultar a respiração em caso de obstrução das vias aéreas.

A hidratação também ocupa lugar central nessa engrenagem, especialmente em uma competição disputada sob calor intenso como a Copa do Mundo: mesmo uma desidratação leve pode reduzir força, velocidade, concentração e coordenação motora, e a recomendação dos especialistas ouvidos pelo g1 é não permitir perdas superiores a 1% ou 2% do peso corporal durante o exercício, repondo com água, eletrólitos e carboidratos. O consumo diário médio de cerca de dois litros de água costuma ser o ponto de partida, ajustado conforme clima, modalidade e características individuais do atleta.

Já o sistema de filtragem de água que o jogador carrega consigo, inclusive na concentração da seleção norueguesa nos Estados Unidos, não tem o mesmo tipo de sustentação científica: até o momento, não há comprovação robusta de que águas com filtragem muito diferenciada — às vezes chamadas de alcalinas ou "premium" — tragam ganho de desempenho ou de saúde em relação à água potável comum. Chama atenção, também, a ausência de suplementação relatada na rotina do norueguês: como já existe evidência científica sólida sobre o benefício de alguns poucos suplementos para desempenho esportivo, um atleta do nível de Haaland provavelmente seria beneficiado caso optasse por algum tipo de suplementação — o que, ao que se sabe publicamente, não é seu caso.

O erro de quem tenta copiar a dieta de um atleta de elite

Um jogador de elite pode consumir alimentos e quantidades que seriam inadequados para uma pessoa comum, uma vez que seu gasto energético, sua massa muscular e sua sensibilidade metabólica ao treinamento são muito superiores aos da população em geral. Uma pessoa sedentária que passasse a ingerir 6 mil calorias diárias, no mínimo, ganharia peso à custa de massa gorda — um caminho que pode levar à obesidade e a uma série de complicações metabólicas associadas.

O erro mais comum de quem tenta reproduzir cardápios de atletas profissionais sem acompanhamento nutricional é ignorar que esses relatos costumam descrever apenas um recorte do dia a dia, sem considerar a rotina de treino, a fase da temporada e a equipe multidisciplinar — nutricionista, fisioterapeuta, médico — que ajusta a dieta do atleta constantemente. Isso se traduz em excesso calórico e proteico, uso desnecessário de suplementos, redução exagerada de carboidratos, negligência com a variedade alimentar e hidratação inadequada.

Quanto à proteína especificamente, a literatura não sustenta que quantidades muito acima das necessidades diárias — geralmente entre 1,6 e 2,2 gramas por quilo de peso corporal para atletas, podendo chegar a valores maiores em modalidades de força — se convertam em mais força, velocidade ou massa muscular; passado certo ponto, o excedente simplesmente deixa de gerar benefício adicional.

Nenhum alimento é milagroso

O consenso entre os especialistas é que não existe alimento milagroso capaz de, isoladamente, garantir alto desempenho esportivo — nem mesmo fígado bovino ou leite cru. O resultado depende da combinação entre alimentação adequada, treinamento, sono, recuperação e características genéticas e psicológicas individuais, e nenhum desses pilares funciona isoladamente: a dieta fornece o combustível e os blocos de construção, mas é o conjunto que sustenta a performance ao longo de uma temporada inteira.

Não existe, tampouco, uma dieta ideal universal — a estratégia precisa ser individualizada para cada atleta, considerando idade, sexo, modalidade, volume de treino e objetivos. A dieta de Haaland, resumem os especialistas, é a dieta de Haaland: construída para o gasto energético, a rotina de treinos e até o paladar de um único atleta — não uma fórmula a ser copiada.

Fontes ouvidas pela reportagem: Giovanna Barreiro, nutricionista do Hospital Brasília, da Rede Américas; Danilo Romano, endocrinologista do Hospital Samaritano Higienópolis; Érica Fernandes, nutricionista do esporte do Hospital Nove de Julho; Andrea Pereira, nutróloga e integrante do Comitê Científico do Instituto Vencer o Câncer; e Bruno Sthefan, cardiologista e médico do esporte, com títulos pela Sociedade Brasileira de Cardiologia e pela Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte.