Cremego alerta sobre riscos da soroterapia após Virginia Fonseca divulgar procedimento
Cremego alerta sobre riscos da soroterapia após Virginia Fonseca

O Conselho Regional de Medicina do Estado de Goiás (Cremego) emitiu um alerta sobre os riscos da soroterapia com finalidade estética ou para melhorar a performance, após a influenciadora digital Virginia Fonseca divulgar nas redes sociais que havia realizado o procedimento. O vídeo postado no Instagram reacendeu o debate sobre a popularização da soroterapia como produto de bem-estar, longevidade e estética.

O que é a soroterapia

Conhecida como terapia nutricional endovenosa, a soroterapia consiste na aplicação de líquidos contendo diferentes substâncias, como vitaminas, minerais, aminoácidos, antioxidantes, eletrólitos ou medicamentos diretamente na corrente sanguínea. A técnica é utilizada na medicina para repor substâncias em casos de deficiência nutricional ou necessidade específica identificada por avaliação médica. Em hospitais, a infusão intravenosa é prática corriqueira para hidratação, reposição de eletrólitos, antibióticos ou nutrientes, especialmente quando o paciente não consegue se alimentar adequadamente.

O problema, segundo especialistas, surge quando o procedimento passa a ser comercializado como produto de beleza e bem-estar. "É preciso separar bem as coisas: a terapia intravenosa de verdade faz parte da medicina e tem indicações muito sérias e bem estabelecidas, como quando um paciente está desidratado no hospital ou não consegue absorver nutrientes pela boca. O grande problema é quando essa prática vira uma solução geral para qualquer pessoa, sem uma avaliação individual ou sem que se identifique uma real necessidade", afirma Sandra Fernandes, nutróloga da Kora Saúde.

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O que dizem as evidências

Os especialistas ouvidos pela reportagem são unânimes em afirmar que pessoas saudáveis, com alimentação equilibrada e sem deficiência nutricional diagnosticada, dificilmente obtêm benefícios com a soroterapia. "Grande parte dessas alegações é baseada em relatos pessoais, percepção subjetiva de bem-estar e estratégias de marketing, e não em ensaios clínicos robustos e bem controlados. A melhora relatada por algumas pessoas também pode estar relacionada à hidratação, ao repouso durante o procedimento, ao efeito placebo ou à regressão natural de sintomas inespecíficos, como cansaço", explica Lizanka Marinheiro, endocrinologista do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz).

Em alguns casos, o excesso de substâncias administradas por via venosa é simplesmente eliminado pela urina, principalmente no caso das vitaminas hidrossolúveis, como a vitamina C e as do complexo B. "Para pessoas saudáveis, que não apresentam nenhuma deficiência nutricional comprovada ou doença que prejudique a absorção de nutrientes, não existem evidências científicas de boa qualidade de que infusões de vitaminas e aminoácidos aumentam a imunidade, melhoram energia, promovem o rejuvenescimento, aceleram o metabolismo ou fazem a suposta desintoxicação que o pessoal vem referindo", detalha Dhianah Santini, endocrinologista e professora do Instituto de Educação Médica.

Há situações específicas em que a administração intravenosa de nutrientes é indicada, como síndromes de má absorção intestinal, pós-cirurgia bariátrica, desnutrição grave ou algumas doenças crônicas. "Estamos falando de situações de desidratação importante, desnutrição ou deficiências nutricionais graves, problemas de absorção no intestino, vômitos persistentes e em cenários hospitalares onde a via oral simplesmente não funciona. Também usamos a veia para aplicar alguns medicamentos, como reposições de ferro, quando os comprimidos convencionais não resolvem ou causam muito mal-estar. Mas essa indicação precisa sempre de uma avaliação médica detalhada", acrescenta Fernandes.

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Quais são os riscos

Apesar de ser apresentada como um procedimento simples, a soroterapia apresenta riscos significativos. Toda infusão intravenosa rompe uma barreira natural do organismo e pode causar complicações como infecção, flebite (inflamação da veia), hematomas, dor local e reações alérgicas. Também pode ocorrer náuseas, tontura, queda ou elevação da pressão arterial, alterações do ritmo cardíaco, distúrbios dos níveis de sódio, potássio, cálcio, magnésio e glicose, sobrecarga ou lesão renal e hepática, e interações entre as substâncias infundidas e medicamentos utilizados pelo paciente.

A gerente de marketing Soraia Dias, 54 anos, acabou no pronto-socorro após uma sessão de soroterapia. Ela conta que, horas antes de palestrar em um evento, foi-lhe oferecida uma sessão pela organização, com a promessa de melhor desempenho. "A infusão durou cerca de 10 minutos. Na sequência, fui para outra sala aguardar a minha vez de dar a palestra e logo comecei a sentir tontura, as pernas formigando e parecia que eu ia desmaiar. Eu mal conseguia ficar em pé", recorda. No pronto-socorro, foi aconselhada a intensificar a hidratação e ficou por duas horas em observação.

Marinheiro explica que a infusão intravenosa pode aumentar rapidamente a concentração de determinada substância no sangue, podendo ocorrer toxicidade. "Uma concentração mais alta não significa necessariamente um benefício clínico maior. O organismo possui mecanismos de regulação e, no caso de várias vitaminas hidrossolúveis, elimina pela urina aquilo de que não necessita. Em outros casos, especialmente com doses elevadas ou substâncias que se acumulam, pode ocorrer toxicidade", diz a endocrinologista.

O que dizem as entidades médicas

O Cremego, em nota, alertou que a indicação de soroterapia com falsa promessa de benefícios como rejuvenescimento, perda de peso, ganho de massa muscular, combate à queda de cabelo e aumento da vitalidade não tem evidência científica. "Desde 2024, quando realizou uma plenária sobre o tema, o Cremego tem chamado a atenção da sociedade sobre os riscos, inclusive fatais, do uso desnecessário da soroterapia, que também já foi questionado pela maioria das Sociedades de Especialidades Médicas e é condenado pela Resolução CFM número 2004/2012. O Cremego observa que a soroterapia é um tratamento sério, porém vem sendo usado indiscriminadamente com a promessa de prevenir doenças que o paciente nem sabe se virá a ter", diz a nota.

A Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) também já havia emitido nota pública alertando para a falta de segurança e eficácia da soroterapia. "É importante dizer que esses métodos não possuem evidências clínico-científicas consistentes que comprovem a sua segurança e eficácia. A soroterapia não faz parte do rol de procedimentos médicos. A prática da soroterapia com fins dermatológicos carece de estudos científicos na literatura médica", afirma trecho da nota.