Uma nova preocupação toma conta de dermatologistas e psicólogos: a cosmeticorexia, termo criado para descrever a obsessão pouco saudável de crianças e adolescentes por cuidados com a pele. O fenômeno, impulsionado por vídeos de influenciadoras mirins nas redes sociais, leva meninas a adotarem rotinas complexas com produtos antienvelhecimento, muitas vezes inadequados para sua idade.
O boom do skincare infantil
Ellie-May, hoje com 13 anos, começou a publicar vídeos de skincare aos 8 anos durante a pandemia. O que era diversão tornou-se a principal fonte de renda da família, com mais de 330 mil seguidores no TikTok e ganhos anuais superiores a 50 mil libras (cerca de R$ 340 mil). Sua mãe, Sophie, afirma verificar os ingredientes dos produtos usados pela filha e diz que a família mantém cuidado com a privacidade e a segurança online.
Mas Ellie-May não é um caso isolado. Uma pesquisa da marca Pai, com 1.500 crianças de 9 a 12 anos, revelou que quase metade delas usa vários produtos de skincare semanalmente, e metade desse grupo busca corrigir o que percebe como problemas na própria pele.
O que é cosmeticorexia?
O professor Giovanni Damiani, dermatologista da Universidade de Milão, cunhou o termo após entrevistar 55 pacientes de 8 a 14 anos. Os sinais incluem obsessão por vídeos de skincare, uso de até 10 produtos por dia e recusa em sair de casa sem maquiagem. A condição pode estar associada ao transtorno dismórfico corporal, gerando ansiedade e vergonha em crianças de apenas 7 ou 8 anos.
Riscos para a pele jovem
A dermatologista Jean Ayer, consultora do NHS, alerta que produtos antienvelhecimento contêm ingredientes como retinol, que podem danificar a pele delicada das crianças, causando queimaduras, alergias de contato e até alopecia frontal fibrosante. Ela reforça que a pele infantil já está em perfeitas condições e não precisa de tais produtos.
Indústria e regulação sob escrutínio
Na Itália, a Autoridade da Concorrência investiga a LVMH (dona da Sephora e Benefit) por suposto marketing direcionado a crianças. A empresa nega ter produtos ou campanhas para jovens e afirma trabalhar apenas com influenciadores maiores de 18 anos. No Reino Unido, a Advertising Standards Authority acompanha o caso. Enquanto isso, marcas como Drunk Elephant e Bubble não se posicionam como voltadas ao público infantil, mas seus produtos aparecem em vídeos de meninas.
O papel das redes sociais e dos pais
O TikTok afirma ter proteções para adolescentes e não permitir publicidade direcionada a menores de 18 anos. A Meta não comentou. Psicólogos como Jessica Ringrose, da University College London, destacam que a responsabilidade é compartilhada entre plataformas, marcas e pais. Ela ressalta que crianças influenciadoras legitimam o consumo para seus pares.
Alberto Stefana, psicólogo italiano, adverte que a busca por uma estética irreal, distorcida por filtros e inteligência artificial, pode levar as crianças a almejarem algo que nem existe. Ele recomenda que pais e educadores promovam uma relação saudável com a aparência e limitem a exposição a conteúdos que incentivem o consumo excessivo de cosméticos.



