Você já ouviu falar em burn on? Não? Então preste atenção porque você pode estar sofrendo disso sem saber. O burn on ainda é menos conhecido do que a síndrome de burnout, mas também pode afetar a sua vida e o seu trabalho.
Diferentemente do burnout — que foi reconhecido pela Organização Mundial da Saúde como uma síndrome relacionada ao esgotamento crônico no trabalho — o burn on não necessariamente derruba a pessoa. Mas ela aprende a funcionar cansada. E segue trabalhando. Aí está o risco.
Sabe aquela sensação de já acordar exausto e imaginar como vai conseguir aguentar mais um dia inteiro de tarefas? E mesmo assim continuar entregando, respondendo mensagens, participando de reuniões, fazendo ginástica, pagando as contas? Se for mãe então, você dá conta dos filhos, do chefe, do grupo da família, dos relatórios e, se bobear, ainda posta stories no Instagram sobre a vida corrida. Mas por dentro a sensação é a de bateria sempre baixa.
O que é o burn on?
No burnout, o corpo impõe um freio porque não está aguentando mais. No burn on, você continua produtivo e aprende a viver sem energia e a fingir que isso é normal. Especialistas dizem que o burn on costuma aparecer em profissionais muito responsáveis, em gente que está sempre disponível e se orgulha de “dar conta”.
O termo foi criado pelos alemães Bert te Wildt, psiquiatra, e Timo Schiele, psicólogo, autores do livro Burn on: Immer kurz vorm burnout (em tradução livre, “Queimando: Sempre à beira do esgotamento”). É um estado emocional típico do atual mundo hiperconectado. Um mundo onde o descanso está cada vez mais virando luxo e as fronteiras entre tempo de trabalho e de lazer são cada vez mais borradas. Não sei vocês, mas passo boa parte do meu tempo no computador ou no celular, vendo mensagens, recebendo notificações. Numa lógica de produtividade em que até o sono precisa ser eficientemente reparador e o autocuidado se transforma em mais uma tarefa.
Por que o burn on é perigoso?
Uma coisa me parece particularmente perversa nisso tudo: como a vítima do burn on continua funcionando, ela raramente percebe a exaustão como sofrimento. Apenas acha que está “numa fase puxada” e que a próxima será mais tranquila. Mas nunca é.
O problema é que ninguém sustenta esse modo de vida indefinidamente sem pagar um preço. E logo surgem os sintomas: irritação constante, brigas em família, sensação de estar sempre atrasado para a própria vida, incapacidade de relaxar, esquecimentos.
Uma exaustão que não melhora nem depois do fim de semana. E talvez o principal sintoma seja a impossibilidade de realmente desligar. Como o descanso vira apenas o intervalo entre uma preocupação e outra, o cérebro continua a mil no banho, no trânsito, na madrugada. E você vive numa eterna sensação de urgência, como se estivesse sempre devendo alguma coisa a alguém. E sentindo culpa porque os filhos e outras pessoas ao lado também sentem os impactos.
O drama de uma geração
O dramático é que há uma geração inteira operando assim. Achando que estar ocupado significa viver plenamente. Só que não. Porque sobreviver cansado não é projeto de vida. E talvez uma das discussões mais importantes dos próximos anos não será apenas sobre trabalhar menos, mas sobre recuperar a capacidade de viver sem estar permanentemente em estado de alerta. E sem acordar e dormir cansado.



