O Brasil atingiu a marca de 60% dos partos realizados por cesariana, a maior taxa do mundo, segundo dados do Ministério da Saúde divulgados nesta terça-feira (14). O índice supera em quatro vezes a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS), que sugere que a proporção ideal fique entre 10% e 15% dos nascimentos.
Disparidades regionais e socioeconômicas
Os números revelam grandes diferenças entre as regiões do país. No Sudeste, a taxa chega a 68%, enquanto no Norte fica em 42%. Na rede privada, o índice alcança 85%, contra 45% no sistema público de saúde (SUS). Entre as mulheres com ensino superior completo, o percentual sobe para 75%, enquanto entre aquelas com até o fundamental é de 50%.
“A cesariana se tornou uma epidemia no Brasil, com consequências para a saúde materna e neonatal”, afirmou a ministra da Saúde, Ana Paula Martins. “Precisamos reverter esse quadro com políticas de incentivo ao parto normal e educação das gestantes.”
Causas do alto índice
Especialistas apontam múltiplos fatores para a elevada taxa de cesarianas no país. Entre eles, a medicalização excessiva do parto, a conveniência para médicos e pacientes, o medo da dor do parto normal e a falta de informação sobre os riscos da cirurgia. “A cesariana é uma cirurgia de grande porte, com riscos de infecção, hemorragia e complicações anestésicas”, explica o obstetra Carlos Alberto Santos, da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).
O estudo também mostrou que 30% das cesarianas são realizadas antes do início do trabalho de parto, o que pode aumentar o risco de prematuridade e problemas respiratórios no recém-nascido.
Impactos na saúde pública
O alto índice de cesarianas sobrecarrega o sistema de saúde, com custos mais elevados e maior tempo de internação. “Cada cesariana custa em média R$ 4.000 para o SUS, enquanto um parto normal sai por cerca de R$ 1.500”, calcula o Ministério da Saúde. Além disso, a recuperação da mãe é mais lenta, afetando o aleitamento materno e o vínculo com o bebê.
A OMS já havia alertado o Brasil em relatórios anteriores, recomendando a implementação de diretrizes para reduzir as cesarianas desnecessárias. “A taxa ideal não é zero, mas o excesso traz danos evitáveis”, reforça a organização.
Medidas propostas
O governo federal anunciou um pacote de medidas para tentar reduzir o índice nos próximos anos. Entre elas, a ampliação do programa de pré-natal, a capacitação de enfermeiras obstetras e a criação de centros de parto normal. “Queremos que a mulher tenha informação e apoio para escolher o parto normal sempre que possível”, disse a ministra.
Estados como o Rio de Janeiro já implementaram programas de incentivo ao parto normal, com redução de 10% nas cesarianas em dois anos. “É um caminho possível, mas exige mudança cultural e investimento”, conclui Santos.



