José Nildo dos Santos e Letícia da Cruz Santos viveram momentos de extremo desespero e alegria no último mês. Após o filho Noah ser declarado morto no Hospital Santa Casa de Araçatuba, no interior de São Paulo, o casal iniciou os preparativos para o velório. Cinco horas depois, uma ligação do hospital mudou tudo: Noah estava vivo.
O nascimento e a luta de Noah
Durante a gestação, um ultrassom no sétimo mês revelou que Noah tinha fenda palatina, uma malformação congênita que provoca abertura no céu da boca e que, na maioria dos casos, é corrigível com cirurgia. Pouco depois, Letícia foi internada devido a uma pedra nos rins. Com 35 semanas, exames indicaram batimentos cardíacos baixos do bebê, levando a uma cesariana de emergência.
Noah nasceu prematuro e ficou poucas horas com a mãe antes de ser levado à UTI neonatal. O pai, Nildo, acompanhou diariamente a internação: 'Não faltei um dia'. No dia 15 de julho, quando Noah completou um mês de vida, o casal foi informado de que o bebê sofrera uma parada cardíaca. Horas depois, uma segunda parada cardiorrespiratória ocorreu.
A notícia da morte e o preparo do funeral
Segundo o diretor médico da Santa Casa, Marco Aurélio Mestrinel, Noah permaneceu por mais de 40 minutos em manobras de reanimação. 'Todos os aparelhos evidenciavam morte da criança. E, depois disso, ainda faz-se a constatação clínica', afirmou. Após a confirmação, os pais receberam autorização para se despedir. 'Eu vi que não tinha mais vida. Estava ali só o corpo', lembra Nildo.
A família recebeu a declaração de óbito e uma mensagem de despedida da equipe: 'O amor que sentimos será para sempre'. Sem imaginar a reviravolta, os pais começaram a organizar o funeral. 'A gente fez todos os contratos em questão do sepultamento, do velório, do caixão, das flores. Tudo', recorda Nildo.
A reviravolta no necrotério
Funcionários da funerária que foram buscar o corpo perceberam movimentos no invólucro onde Noah havia sido colocado. 'A hora que eu abri o necrotério, acendi a luz, ela entrou para retirar (o bebê)', diz o agente funerário Mateus Batagelo. 'Aí eu já escutei o invólucro se mexendo e um barulho, querendo respirar', complementa a também agente Regina Célia Pascoal.
Regina descreve: 'Ele estava dentro do invólucro com invólucro dobrado e passado fita. Fez uma, fez duas, fez três, na terceira vez eu falei: "Mateus, o nenê tá vivo, Mateus, corre atrás uma enfermeira, traz aqui pra gente levar esse nenê".' O bebê foi retirado e levado de volta ao atendimento médico. Às 21h40, os pais receberam a ligação. 'Ela (a enfermeira) olhou para a gente e falou: "Não sei no que vocês acreditam. Não sei o que aconteceu aqui. Está todo mundo em choque. O Noah está vivo."'
Reações e investigações
Questionado sobre o ocorrido, Mestrinel afirma não haver explicação. 'A gente não encontrou nenhuma justificativa do que pode ter acontecido.' O hospital concluiu investigação administrativa e o caso está sob análise da comissão de ética. 'Até o momento, a gente não tem nenhuma correção para ser feita', comenta.
O Fantástico ouviu especialistas. O gerente médico do Hospital Infantil Sabará, Nelson Horigoshi, destaca que casos semelhantes são extremamente raros. 'Isso é muito raro no mundo inteiro. Tem uma revisão que foi feita em 2020 que conseguiu reunir 65 casos. A grande maioria envolve adultos e idosos. Crianças já ficam fora da curva.' Uma hipótese é a Síndrome de Lázaro, retorno espontâneo da circulação após reanimação. 'Eles falam em síndrome de Lázaro, relembrando episódios bíblicos... É uma tentativa de explicação baseada em dados fisiológicos', explica Horigoshi. Contudo, o caso de Noah foge do padrão: 'Normalmente são minutos. Cerca de 70% das pessoas retornam até cinco minutos, e o restante em até dez minutos. Olha só como o caso dessa criança é excepcional. A gente está falando de horas.'
O bebê milagre e o futuro
Dois dias após ser encontrado respirando, Noah foi transferido para o Hospital das Clínicas de Bauru, referência em doenças genéticas e anomalias congênitas. O bebê segue na UTI, intubado e sem previsão de alta. Segundo os pais, ele apresenta evolução clínica e aguarda procedimento na língua.
Enquanto acompanham a recuperação, Nildo e Letícia vivem um misto de gratidão e apreensão. 'A gente sente muita gratidão, mas também sente medo', afirma Letícia. Para Nildo, a experiência é surreal: 'Foram cinco horas de luto. Como é que é recuar nesse luto? Eu não consigo explicar. É surreal ter ele de volta.' A emoção também marcou os funcionários da funerária. 'Estamos habituados a lidar com o fim da vida. Dessa vez, lidamos com a vida. Tivemos que salvar em vez de sepultar', disse Mateus. Hoje, o casal chama Noah de 'nosso bebê milagre'.



