ASCO 2026: Avanços em oncologia de precisão e novo tratamento para câncer de pâncreas
ASCO 2026: oncologia de precisão e novo tratamento para pâncreas

Entre os dias 29 de maio e 2 de junho, Chicago sediou a ASCO 2026, encontro anual da American Society of Clinical Oncology, considerado o principal congresso de oncologia do mundo. O evento reuniu cerca de 40 mil especialistas para apresentar pesquisas e discutir avanços no tratamento do câncer. Especialistas do Hospital Sírio-Libanês acompanharam as discussões e destacam os estudos com potencial de ampliar as opções terapêuticas e melhorar os resultados clínicos.

Nova perspectiva para o câncer de pâncreas

Na área de tumores gastrointestinais, o principal destaque foi um estudo voltado ao adenocarcinoma de pâncreas avançado, uma das áreas mais desafiadoras da oncologia. A pesquisa avaliou uma medicação oral desenvolvida para atuar sobre uma mutação presente em mais de 90% dos casos desse tipo de tumor. O estudo incluiu pacientes com câncer de pâncreas metastático que já haviam recebido quimioterapia e precisavam de uma nova opção de tratamento.

Segundo Luiza Dib, oncologista especialista em tumores gastrointestinais do Hospital Sírio-Libanês de Brasília, o trabalho representa um dos avanços mais relevantes dos últimos anos para essa doença. “Os resultados praticamente dobraram a chance de sobrevida após a progressão da doença, em uma condição que há décadas tem poucas opções terapêuticas”, afirma.

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A mutação alvo é conhecida pelos pesquisadores há anos, mas não existiam medicamentos capazes de atuar diretamente sobre ela. “Agora temos uma medicação capaz de atuar diretamente nessa mutação. Por isso, acredito que estamos diante de uma possível revolução no tratamento do câncer de pâncreas”, diz a médica.

A reação da plateia deu a dimensão da importância do trabalho: durante a apresentação dos resultados na sessão plenária da ASCO, os participantes aplaudiram de pé por vários minutos. “Foi um momento emocionante, algo raro de acontecer”, relata.

A importância de detectar alterações moleculares

O oncologista Gilberto Castro, especialista em tumores de pulmão, cabeça e pescoço e tireoide do Hospital Sírio-Libanês de São Paulo, aponta como principal mensagem da ASCO 2026 a consolidação da medicina de precisão, abordagem que busca identificar características específicas de cada tumor para definir o tratamento mais adequado.

Um dos exemplos apresentados durante o congresso envolveu pacientes com câncer de pulmão portadores de uma alteração genética rara presente em cerca de 1% dos casos. “O estudo demonstrou que o uso de uma terapia-alvo após a cirurgia reduziu em 83% o risco de recorrência”, conta o médico.

O resultado reforça a importância dos exames moleculares, que ajudam a mapear características genéticas do tumor e selecionar terapias mais eficazes. Mesmo pacientes com doença localizada e potencialmente curável podem se beneficiar desse tipo de avaliação.

“Sabemos que não existe apenas um câncer de pulmão ou um câncer de pâncreas. Existem diferentes subgrupos definidos pelas características biológicas de cada tumor. O desafio é identificar essas alterações e individualizar o tratamento, aumentando a eficácia, reduzindo efeitos colaterais e melhorando os resultados clínicos”, explica Castro.

Outro destaque na área de pulmão avaliou pacientes com uma alteração rara no gene EGFR. Neste grupo, uma terapia oral apresentou melhor controle da doença do que a quimioterapia convencional, ampliando o tempo sem progressão do câncer e trazendo benefícios para a qualidade de vida.

Tratamentos avançam para fases mais precoces da doença

Para Fernando Sabino, oncologista especialista em tumores geniturinários do Hospital Sírio-Libanês de Brasília, um dos principais destaques da ASCO 2026 foi um estudo que acompanhou cerca de 2 mil pacientes com câncer de próstata localizado de alto risco ou localmente avançado. A pesquisa avaliou o uso de um medicamento já empregado em casos metastáticos, em fases mais precoces da doença, com o objetivo de verificar se a intensificação do tratamento poderia reduzir a quantidade de células tumorais remanescentes e diminuir o risco de metástases no futuro.

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“O estudo mostrou que antecipar essa estratégia terapêutica pode trazer benefícios importantes a médio e longo prazo”, afirma Sabino. Os pacientes que receberam o medicamento associado à terapia hormonal apresentaram menor risco de desenvolver metástases quando comparados aos que receberam apenas hormonioterapia.

Outro destaque foi um estudo voltado a pacientes com alterações em genes responsáveis pelo reparo do DNA, como BRCA. Essas mutações estão presentes em cerca de 15% a 20% dos casos de câncer de próstata e ajudam a identificar pacientes que podem se beneficiar de terapias específicas. O estudo avaliou a combinação entre dois medicamentos da classe dos inibidores de PARP. Os dados apresentados mostraram redução de aproximadamente 50% no risco de progressão da doença.

“Já utilizávamos essas medicações em fases mais avançadas. O que o estudo mostrou é que elas também podem trazer benefícios quando empregadas mais cedo, antes que a doença evolua”, explica Sabino.

Em múltiplas áreas, os trabalhos apresentados na ASCO 2026 apontam para um mesmo caminho: tratamentos definidos de forma cada vez mais precisa, de acordo com as características biológicas de cada tumor e o momento mais adequado para sua utilização.